Francisco Sousa na Mostra de Saberes e Sabores de Sardoal. Créditos: Paulo Jorge de Sousa

Quando teve de desenhar uma mulher que descobrira ouro no meio do carvão, para um livro sobre lendas de Sardoal, todas as suas ideias se centravam nas mãos. Foi então que percebeu que essa era a linha unificadora, a identidade visual do seu trabalho. Francisco Sousa cria desenhos nos quais as mãos são protagonistas para a transmissão de uma mensagem, e tornaram-se na imagem de marca de “Frank o Mudo”, o nome artístico que assumiu para ilustrar mãos… à mão.

“As mãos são tão expressivas… eu, mesmo a falar, estou sempre a gesticular. Podemos apontar, podemos ofender alguém, podemos expressar-nos e comunicar através das mãos”, refere ao nosso jornal. “Linguagem gestual, comunicação visual” – foi assim que se formou a ideia para enquadrar o seu trabalho, revela.

A escolha de “Frank” deve-se ao álbum ‘Frances the Mute’, da sua banda musical preferida, ‘The Mars Volta’. Tal como os videojogos, a música – especialmente o rock/metal progressivo – é outra da suas paixões, e procura no som a inspiração para o seu trabalho, particularmente a que surge da banda norte-americana bem como dos ‘Porcopine Tree’ e ‘Brutus’. Considera que existem “sentimentos que as palavras não transmitem”, como se refere na máxima “uma imagem vale mais que mil palavras”, mas que também se transmitem através da música.

Desde que encontrou a sua “identidade visual”, o processo criativo ficou facilitado. As ilustrações que criou para a sua primeira exposição individual, na galeria ‘Padaria’, no Porto, receberam o título ‘Quem fala assim não é mudo’, dando forma a um conjunto de expressões tipicamente portuguesas, “ilustradas à mão, de forma literal, por alguém que pode falar mas prefere desenhar”, explica.

“A ideia é ter dois pilares no conceito: os desenhos são apenas e unicamente feitos através das mãos e tem de ser uma ilustração portuguesa. Às vezes, colocar uma condição no nosso trabalho, pelo menos para mim, torna mais fácil chegar a um produto final.”

Antes de Francisco Sousa encontrar uma linha unificadora, pediam-lhe, por exemplo, para ilustrar a natureza. “Podia desenhar mil e uma coisas. Mas se for o artista que só faz mãos, já sei que vai ter de envolver este elemento humano. Num mar de possibilidades, é uma espécie de bóia”, explica.

Quando era criança, não sabia que a sua vida estaria na ponta de um lápis. Na infância gostava de desenhar e passava os dias a delinear as criações de outros, muitos heróis da animação televisiva, recorrendo a papel vegetal. No processo de crescimento, deixou a cópia e ficou autónomo.

Entre as preferência, lia banda desenhada por influência do pai, o fotógrafo Paulo Jorge de Sousa, e do tio, o jornalista Mário Jorge de Sousa. “Sempre fui muito apaixonado por banda desenhada. Se não ilustrasse mãos se calhar estava a tentar a minha sorte nessa área, e não é tarde… mas gosto mais de ler do que de fazer”, confessa.

Nunca foi de jogar à bola na rua com os outros miúdos, e muito menos de se expor – ainda hoje, aos 32 anos, prefere ficar longe de holofotes, definindo-se como “ilustrador eremita do Centro de Portugal” e igualmente como “recluso” e “recatado”.

Não que seja tímido – embora introvertido –, mas manifesta uma vontade de invisibilidade, do tal recato que lhe faz falta para ser feliz. É nesse isolamento que cria os seus desenhos, já publicados em dois livros ilustrados a convite (um sobre as lendas de Sardoal e outro para crianças), revelados em mostras coletivas e, no final de setembro, na sua primeira exposição individual, na galeria ‘Padaria’, no Porto.

Francisco Sousa também já participou em concursos do município de Sardoal, designadamente de pintura digital, no qual conquistou um terceiro lugar e uma menção honrosa, e da criação de um desenho para a conceção de um tapete de flores pela Semana Santa, o qual venceu.

Mas à ‘Padaria’ chegou através do Instagram. Explica que a galearia promove open calls: lança um tema, dá uma data limite e desafia artistas a submeter trabalhos para exposição, numa tentativa de descobrir novos talentos.

“Participei nalguns concursos, comecei a enviar trabalhos que já tinha feito, para venda na galeria e, ao longo de três anos, fomos desenvolvendo uma relação de trabalho”, conta. “E o mais curioso é que ainda não conheci nenhuma das pessoas que gere a ‘Padaria’, só falamos online… A única vez que fui ao Porto estava toda a gente de férias”, conta. Uma “falta de sorte” no contacto pessoal que o ilustrador espera “remediar” ainda este ano.

Nesse conjunto de expressões tipicamente portuguesas ilustradas à mão, “Frank, o Mudo” expôs seis obras. Francisco refere que “não quis exagerar”, optando por uma mostra “pequena, humilde, compacta”.

Cada uma das ilustrações é a forma como o artista vê seis expressões ou ditados populares: mais vale um pássaro na mão do que dois a voar; tira o cavalinho da chuva; pôr os pontos nos i’s; muitos anos a virar frangos; à grande e à francesa; e pão, pão, queijo, queijo.

“Frank o Mudo” revela optar por desenhar temas “sérios” ou “acontecimentos pessoais”, mas desta vez quis desenhar com alguma graça. “Um humor absurdo. Gosto muito de trocadilhos visuais, da relação entre o título e a descrição de uma obra. Podemos ver isso no ‘pôr os pontos nos i’s’, uma expressão que significa deixar as coisas claras, e a ilustração é uma pessoa a preencher os i’s da palavra idiota, como se fosse o fim do argumento para com outra pessoa”.

Na realidade, existem duas verdades, diz: “há o tema que eu faço e o tema que as pessoas interpretam. Tento sempre dar espaço à pessoa para interpretar como quer, mas como é óbvio há uma intenção por trás.”

Das experiências dentro de portas, o ilustrador refere a sua presença na Mostra de Saberes e Sabores das Festas do Concelho de Sardoal, este ano, e manifesta satisfação com a recetividade do público. “Foi incrível! Muito amor, muito interesse. Mesmo pessoas que não compravam ficavam interessadas em saber o que tinha a dizer sobre o meu trabalho. Foi muito importante!”. Tão relevante que Francisco Sousa equaciona outras viagens para mercados de arte.

Afirma que, normalmente, o processo criativo inicia-se “com um conceito, ou com uma ideia em mente para pôr cá fora” e que é “muito raro ter coisas acabadas no baú”. Francisco cresceu com a Internet e com esse sentido de velocidade, de colocar rapidamente o trabalho público. “É uma motivação saber que as pessoas podem ver em tempo real o que acabei fazer”.

O digital faz parte do seu processo criativo também. “Não deixa de ser desenho real, continuo a usar uma caneta, simplesmente não uso tinta nem papel, mas a superfície da mesa gráfica e o computador”. No entanto, não deixa o papel em mãos alheias e desenha também na forma tradicional. Excecionalmente, trabalha por encomenda. Descarta os retratos, contudo tem planos para um projeto que retratará animais de estimação.

Relativamente aos contrastes entre o digital e desenhar numa folha de papel, confessa que ter o trabalho no computador, pronto para ser imediatamente “espalhado” nas redes sociais, facilita, tal como o tipo de materiais utilizados. “Não tenho de gastar dinheiro em tinta, lápis de cor, não tenho de me preocupar com a página esborratada… Gosto muito de desenhar tradicionalmente, mas para mim o digital é a maneira mais direta e mais simples de expor a minha ideia. Tudo o que fiz até agora seria capaz de desenhar no papel mas seria mais frustrante e envolvia mais desafios. Acho que essa é a grande diferença.”

Francisco Sousa nasceu em Abrantes, a 1 de março de 1991, mas afirma-se (e sente-se) natural de Sardoal. Estudou Artes Plásticas e Multimédia no Instituto Politécnico de Santarém, depois mudou-se para Castelo Branco, para um curso de Design e Multimédia.

Desde o secundário que sabia querer estudar Arte mas não se aventurou logo porque decidiu seguir Ciências, num momento “complicado” da sua vida, em que foi difícil “achar-se”, o que acabou por acontecer “muito tempo depois”, confessa ao mediotejo.net. Considera que iniciou o seu percurso “não tanto por saber o que queria, mas por saber o que não queria”.

Percebeu estar longe de ser um homem da química ou da biologia e “safava-se” do aborrecimento passando as aulas a desenhar. Mais tarde, iniciou a sua carreira artística nas redes sociais, usando o mundo digital para mostrar o seu trabalho, na esperança que despertasse o interesse de alguém.

“Desde muito novo que coloco arte na internet, mas demorei a levar a coisa a sério, de forma profissional, e a encontrar uma identidade visual. Durante muito tempo desenhava só por gosto. Não estava a fazer nenhum percurso artístico, não tinha grandes objetivos, desenhava porque gostava. Recentemente é que percebi que queria fazer da ilustração vida”, refere.

“É a coisa bonita das artes: não há uma forma correta. Podemos ter teorias, ter influências, mas a maneira de fazer é como queres e como sabes, e depois as pessoas gostam ou não”.

Portanto, a descoberta do desenho como um caminho profissional não foi imediata. No ensino secundário, para não se afastar dos amigos, preferiu manter-se em Sardoal, seguindo uma área para a qual não tinha qualquer vocação. Mas depressa percebeu que não queria ir por ali. E foi por outro caminho, que o levou então até Santarém e mais tarde até Castelo Branco. Naquela cidade ribatejana, entre pares, começou a desenhar usando a sua arte como forma de expressão pessoal, uma expressividade a preto e branco. Revela que gostaria de percorrer um território artístico muito semelhante ao ‘Sin City’ , de Frank Miller, uma banda-desenhada algo underground.

Porém, tem outras referências que influenciam o seu trabalho, como as ilustradoras Marta Nunes ou Sara Feio, recordando um dos trabalhos da artista em que as asas dos pássaros são mãos. “Subconscientemente ou não, acho que provocou impacto em mim. Os seus trabalhos são algumas das minhas influências mais antigas”, recorda.

Falando de matérias mais práticas, como a subsistência, diz que as ilustrações rendem algum dinheiro, mas ainda não a tão desejada autonomia que lhe permita viver sozinho. Refere ser um processo em andamento que obriga a tomar a iniciativa, especialmente “mostrar interesse” e não tanto “estabelecer conexões profissionais”.

Francisco Sousa admite que viver no interior do País, no caso em Sardoal, “é impedimento”, porque sente falta de conviver com outros artistas, ilustradores, gente que se movimenta na mesma área, embora tenha amigos que também desenham.

“Em Santarém estudei e vivi com pessoas que hoje são conhecidas no mundo da arte portuguesa, e apesar do meu percurso tumultuoso por Santarém, aprendi mais com os amigos que fiz lá do que aprendi nas aulas, e sinto falta disso. Idealmente gostava de viver no Porto, ou perto. Tem uma comunidade de arte muito grande”, diz, e com a qual se identifica.

Quanto a concursos, aberto a novas experiências, incluindo ilustrações de outros livros, revela que participa “de vez em quando”, mas apenas naqueles que lhe permitem manter os direitos da sua obra. Situação “cada vez mais rara”, critica, enquanto lembra que participou no concurso de ilustração proporcionado pelo Museu do Aljube Resistência e Liberdade, com o tema ‘Revolução’, um exemplo de concurso cumpridor de tal exigência.

Francisco Sousa refere ter ilustrado “muitas vezes” o 25 de Abril, entregando duas obras na galeria ‘Padaria’. “Adoro ilustrar o 25 de Abril, a imagem do cravo e tudo o que representa. Enviei duas ilustrações, não ganhei, mas uma delas vai estar exposta no Museu”.

A inauguração da exposição decorreu no dia 19 de outubro. O Museu do Aljube Resistência e Liberdade foi fundado em 2015, e em meados de 2022, lançou a primeira edição do concurso de ilustração, com o tema ‘Revolução’, entre várias iniciativas culturais de celebração dos 50 anos do 25 de Abril.

“Foram das obras que mais gozo me deu fazer”, diz, porque “até então, com as mãos, tentava usar o mínimo de cores possível”. Francisco Sousa nunca se considerou “um bom pintor” e, por essa razão, “usava uma cor muito baça para dar uma pequena ilusão de profundidade”, ou isentava a obra de qualquer cor viva, sendo maioritariamente a preto e branco.

A Agenda Cultural de Lisboa também escolheu uma ilustração de Francisco Sousa na divulgação da exposição no Museu do Aljube Resistência e Liberdade, onde constam alguns dos trabalhos enviados pelos mais de 100 artistas que participaram.

“Com os desenhos do Aljube comecei a explorar mais a hipótese de ter elementos coloridos nas minhas obras. E desde então, todas as coisas que fiz – entenda-se a exposição e trabalhos posteriores –, todas têm cor, e um bocadinho de profundidade. Já há um objeto no meio da página branca. Neste momento estou só arrependido de não ter apostado nisso mais cedo. Gosto muito da estética”, admite.

Além disso, a ilustração que tem exposta no Museu é uma das suas obras preferidas. Refere ainda outro trabalho para a galeria ‘Padaria’, sobre o Festival Primavera Sound. “Acontece que este ano atuaram no Festival ‘The Mars Volta’, a banda precisamente da qual usurpei o nome do álbum Frances the Mute. Foi uma coincidência feliz”, nota.

“Frank o Mudo” trabalha em casa, rodeado dos objetos que lhe são mais queridos, e isolado, de segunda a sexta, tentando guardar os fins-de-semana para desanuviar da criação. Acredita não haver inspiração mas trabalho, por isso faz, e deita fora, e repete, e deita fora, e torna a repetir até colocar no papel (digital) a mensagem que quer passar em forma de desenho. Sente que à quinta-feira as ideias fluem com maior rapidez e eficácia do que à segunda-feira, e isso reforça a máxima que defende, embora reconheça que “não havendo inspiração, há disponibilidade mental”.

Atualmente tende a fazer storyboard, ou seja vários esboços da mesma ideia e em formato “muito pequenino”. Diz que “quanto menos detalhe estivermos a trabalhar, mais fácil é expor a ideia no papel”.

Quanto ao futuro, tem um projeto pessoal. Quer passar para o papel, em forma de ilustração, aquilo que chama “uma jornada de saúde mental”, que representa a sua jornada ao longo dos últimos anos, em que lidou com ansiedade e alguns episódios de depressão. Três ilustrações sobre ansiedade, outras três sobre pânico e ainda outras três sobre medicação. “Três temas vagos com ilustrações vagas, sempre com as mãos”, explica.

Para Francisco Sousa, o papel da arte é “basicamente comunicação”, admitindo haver espaço para a arte que se fica apenas pela beleza, sem ter de ser mais que isso. Contudo, é a arte ativista que lhe enche as medidas. Recorda, a propósito, a recente manifestação que surgiu pelo direito à Habitação, “onde cerca de 30 ilustradores participaram, inclusive Nuno Saraiva e André Carrilho. Correu tão bem que se vai estender, é fenomenal!”

O futuro está ainda todo por desenhar, mas o foco do seu trabalho será esse: “Gosto da utilização da arte não só como uma coisa atrativa, que chama a atenção, mas que comunique… tem de passar uma mensagem.”

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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1 Comment

  1. Ainda não conhecia o trabalho deste artista, bastante original e instiga o pensamento. Parabéns ao artista, quando puder estarei em uma exposição dele.

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