Quem passa na rua Latino Coelho, a poucos metros da estação ferroviária do Entroncamento, arrisca-se a receber cortes todos os dias sem distinção de faixa etária ou classe social. Não, não falamos de cortes fiscais, mas sim dos cortes de cabelo feitos por Joaquim Rato e Jorge Lima em dois salões de barbeiro, separados por poucos metros de distância mas quase três décadas de existência. Conversámos com os dois sobre uma profissão que se mantém genuína e descobrimos que, além da profissão e da rua onde trabalham, une-os o concelho onde nasceram e o gosto pela música.

Joaquim Rato, 63 anos, foi o primeiro pegar na tesoura e na navalha. Em 1952 nasceu no antigo hospital de Torres Novas e a adolescência trouxe-lhe o gosto pela profissão. Aos 14 anos estreou-se num salão perto do Convento do Carmo, de onde passou para a famosa Barbearia Milena e viria a tornar-se chefe de barbearia durante os anos de serviço militar, por ordem de um Capitão de Abril. No regresso à vida civil, abriu o espaço no Entroncamento com o seu nome, que mantém 29 anos depois. Decidiu mudar-se para a cidade depois de casar. Desde então, tem atendido clientes de todas as idades, com os quais conversa sobre futebol e a quem pede autorização para benzer depois do corte. Quis o destino que não fosse saxofonista, mas não se importava de conciliar as duas vocações no salão.

Jorge Lima, 43 anos, trabalha quase ao lado do mestre Joaquim desde o passado mês de setembro. Mora em Torres Novas e decidiu entrar na profissão por sugestão de amigos, quando morava em Lisboa. Há cerca de seis anos regressou à terra natal e fez uma formação de cabeleireiro em técnicas de corte feminino. Acaso ou vocação, a verdade é que sempre preferiu trabalhar cabelos masculinos, de preferência sem utilizar a máquina. Passou por Coimbra e pelo Cardal (Vila Nova da Barquinha) antes de se tornar funcionário do novo salão JjCc Barbeiro, que se assume como uma barbearia moderna. A passagem regular de comboios já não o desconcentra quando atende os clientes, que prefere pouco faladores. Nas horas vagas, toca guitarra.

Sónia Leitão

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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