É difícil imaginar um cenário mais bonito e um palco tão simbólico para acolher aquela que será a estreia da iniciativa “Folk no Castelo” e, simultaneamente, da produção de espetáculos de raiz tradicional pela cantora Ana Laíns e pelo músico Paulo Loureiro, com a marca Mátria Mundi.
Os concertos marcados para este sábado à noite no castelo de Almourol, em Vila Nova da Barquinha, serão os primeiros de uma série que pretende celebrar as raízes da música portuguesa em castelos de todo o país, culminando no final de cada ano no Estoril Folk Fest (com estreia marcada para 4 de novembro), levando o melhor a música de raiz tradicional de várias regiões para o ambiente glamouroso do Salão Preto e Prata, no Casino Estoril.
A escolha de Almourol para o arranque desta iniciativa tem também tudo a ver com raízes – neste caso, com as de Ana Laíns, que cresceu ali bem perto, em Montalvo, no concelho de Constância. Aquele castelo templário fez parte do seu imaginário de criança, como explicou ao mediotejo.net, numa conversa sobre a génese deste projeto, bem como sobre a experiência de estar nos bastidores, como produtora, despindo a pele de artista.
Embora já tivessem produzido vários espetáculos – nomeadamente os seus –, Ana Laíns e Paulo Loureiro sonhavam há muito criar esta Mátria Mundi como projeto autónomo, para divulgar e descentralizar a música tradicional portuguesa, divulgando o ríquissimo património histórico-cultural e etnográfico do nosso país.

A ideia desta iniciativa em concreto surgiu na sequência de um desafio lançado por Nuno Sardinha, programador do Casino Estoril, após o sucesso do concerto de celebração dos 20 anos de carreira de Ana Laíns, que fez desfilar no palco do Salão Preto e Prata muitas das sonoridades que compõem a identidade cultural etnográfica portuguesa.
O Estoril Folk Fest nasce este ano com essa inspiração e passará a ser, anualmente, como o mar que, em frente ao Casino, engrandece com a chegada dos inúmeros afluentes que foram convergindo no rio Tejo. Neste festival será apresentada uma espécie de “best of’ dos concertos que, em cada ano, se realizarem no âmbito do “Folk no Castelo”.
E porquê em castelos? “Já tive a felicidade de cantar em muitos espaços históricos, desde igrejas a ruínas romanas, e o ambiente que se cria nesses locais é muito especial”, explica Ana Laíns. A ideia dos castelos surgiu primeiro com Almourol, e depois com a constatação de que “a maioria destes espaços não tem uma programação estruturada” ao longo do ano, sendo perfeitos para celebrar as raízes da portugalidade.

A par dos concertos, haverá sempre uma exposição sobre as tradições locais, e um “cantinho das histórias”, onde serão contadas algumas curiosidades que podem ser menos conhecidas do público. No caso de Almourol, a produção foi surpreendida com a história de um magnífico banquete oferecido a diplomatas estrangeiros por Salazar. “Mesmo para quem é da terra, há sempre histórias que não conhecemos e que são fascinantes”, diz Ana Laíns.
A exposição vai estar montada dentro do castelo, “como se fosse um álbum de família”, explica Ana Lains. “Será como se entrássemos na casa da alguém e víssemos nas várias divisões as fotos emolduradas de uma família, ao longo da história.” Os painéis com estas histórias estarão também depois em exposição no Casino Estoril, durante o Estoril Folk Fest. Este ano, como só se realizará o evento de Almourol, serão as tradições da Barquinha a representar o país na capital.
A escolha dos artistas para esta primeira edição do “Folk no Castelo” foi quase intuitiva para a dupla de produtores da Mátria Mundi. “O Sebastião Antunes é um dos expoentes do rock-folk em Portugal, escreveu muitas canções que agora estão a ter uma nova vida, pela mão dos Dama e dos Karetus, por exemplo”, refere Ana Lains.
É o caso da “Cantiga da Burra”, que já era um sucesso há dez anos, na versão original, mas que voltou aos tops de visualizações no YouTube em 2020, numa “cover” dos Karetus.
E quanto a Tina Jofre, o convite era “inevitável”, diz Ana Laíns. “Não só é uma referência indiscutível da região, especialmente de Constância e Barquinha, como está a celebrar 60 anos de carreira”.
A fadista subirá ao palco com o grupo de cantares “Barquinha Saudosa” às 21h00 e, uma hora depois, a celebração da música portuguesa segue com Sebastião Antunes e a banda Quadrilha.
No anúncio dos concertos deste sábado, os nomes surgem lado a lado, com o mesmo destaque, e essa não foi uma decisão aleatória. “Comigo não há cabeças de cartaz”, frisa Ana Laíns. Será uma das “pequenas” particularidades de uma produtora que também é artista – e da mulher que luta há mais de 20 anos pela equidade e igualdade de oportunidades, na música como na vida.
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