Capa do livro "Até Amanhã, Camaradas", de Manuel Tiago (Álvaro Cunhal), 3ª edição

Aqui, no meio dos livros, paredes meias com o meu bom vizinho João Espanhol, histórico militante da resistência e o mais antigo comerciante de Torres Novas, assisto a um ritual que se repete dia a dia. Todos os dias, de segunda a sábado, o Zé Sineiro, ali vai visitar o seu camarada João, amigo de longa data. Outros o fazem, ainda que mais espaçadamente. De passo lento, arrastam décadas de história e de estórias. Por ali ficam, naquela que é uma das mais emblemáticas lojas do centro histórico da cidade, a Casa Espanhol. São dois dedos de conversa, meia hora de afagos, muitas milhas de memórias.

Imagino do que falam. Calculo do que não falem. Algum tempo depois, lá vai o Zé, cá fica o João. São duas figuras incontornáveis que a história torrejana das últimas décadas não poderá apagar. Pensei neles no domingo das autárquicas, depois de assistir ao enferrujar da foice. Qualquer um, ao longo de uma vida de luta e resistência, terá sofrido e vivido momentos bem mais duros e exigentes. Mas agora, no seu ocaso, ver perder o Barreiro e Almada ou até a única vereadora CDU em Torres Novas, deve deixar uma mágoa que não consigo imaginar.

Uns dias depois, ao vê-los na soleira da porta, saíu-me num ápice o título para uma crónica possível: “Foi-se o martelo?” Não o desperdicei. Com o respeito e o carinho que por eles sinto, partilhei-o com ambos. Sorriram. Perceberam o trocadilho. E eu percebi também que, para eles, não passaria disso mesmo. Apenas um trocadilho. Porque, também para eles, o seu partido encontraria o rumo certo para desenferrujar a foice e reerguer o martelo. E, ao contrário do que eu poderia recear, não reagiram como se eu estivesse a meter a foice em seara alheia. Nem que estivesse a martelar jocosamente o sucedido.

Gosto desta gente com esta idade. Com rugas de saber e afago no olhar. Que poderão até já ouvir menos bem – talvez porque já não precisem que se lhes diga muito. Que podem até já falar mais baixinho – talvez porque receiem já não ser tão ouvidos. Mas, quando chegados aqui, ao ocaso da vida, que bom que seria que tivessem duas bocas, mesmo que um ouvido apenas. Sempre poderiam falar mais e bem mais alto. Talvez fossem mais ouvidos.

Não sei se a foice enferruja ou se o martelo se quebra. Mas sei que gostaria que o ritual continuasse. E de poder continuar a ouvir as vozes do Zé Sineiro e do João Espanhol: até amanhã, camarada.

Adelino Correia-Pires

Nasceu em Portalegre, em 1956, em dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Mais monge que missionário, é alfarrabista no centro histórico de Torres Novas. Vai escrevinhando por aí, nomeadamente no blogue "o tom da escrita" e é seu o livro “Crónicas Com Preguiça”. E continua a pensar que “não pode um país estar melhor se a sua gente está pior e apenas lhe resta ir colhendo a flor da dúvida, bem me quer, mal me quer...”

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.