“Oh Firmino, canta lá uma!” pediam os colegas quando Firmino José, hoje com 62 anos, conhecido como o Marco Paulo de Tramagal, trabalhava como operário, longe dos palcos e das luzes, mas não das canções e das músicas do seu ídolo. A distância, o contexto e o cenário não impediam Firmino José de cantar, que a cantiga sempre foi uma forma de estar na vida e que lhe saía, e ainda sai, com alma. Mas não é uma canção qualquer, porque Firmino José foi “sempre fiel” ao reportório e à figura de artista de Marco Paulo, de quem era amigo há mais de 30 anos e é fã incondicional. Cantar sim, sempre, mas só canções de Marco Paulo.
Firmino José é natural de São Miguel do Rio Torto, vive em Tramagal, e nunca “quis sair daqui”, mesmo quando o cantor Marco Paulo lhe disse que tinha uma voz que lhe daria sucesso numa carreira artística. Garantia reforçada pelo apresentador Júlio Isidro, quando Firmino foi ao programa “Sons do Sol” da RTP, destinado à divulgação da música portuguesa, para o lançamento do disco “Amor Total” de Marco Paulo. Nesse dia almoçou em casa do cantor, em Sintra, e nunca mais deixaram de ser amigos.
“É muito fácil conversar com Marco Paulo. É um ser humano puro”. Firmino aplica nas palavras que vai buscar à memória o verbo no presente. Continua a sentir que Marco Paulo está ao seu lado. Ainda não aceita a morte do artista e não faz o luto. Pelo menos de forma convencional.
“Pensamos que estamos preparados mas não estamos preparados”, diz. A dor é tão profunda que recusou deslocar-se ao velório e ao funeral, marcado para a tarde deste sábado, em Lisboa. “Nestas duas últimas noites dormi duas horas”, confessou este sábado, em declarações ao nosso jornal.


Aos 79 anos Marco Paulo terminou a sua batalha contra o cancro que durou quase 30 anos, “em paz e rodeado de todos os cuidados e o amor da família, amigos e fãs”, lê-se no perfil de Instagram do artista.
Doença oncológica que Firmino José acompanhou sempre. Embora tivesse o contacto direto de Marco Paulo, procurava saber da saúde do artista através de António Coelho, o amigo de todas as horas do cantor e pai do seu afilhado, Marco António, o filho que nunca teve e que ocupava um lugar muito especial no coração do artista.
“O Marco para mim não está morto. Sou crente e acredito que um dia ainda vou voltar a abraçá-lo”, afirma Firmino José, que surgiu para a entrevista com discos e livros autografados pelo artista. Fotografias com Marco Paulo também tem, mas optou por manter reserva e alguma privacidade sobre as mesmas.

Firmino José tinha 15 anos quando começou a cantar e gostava muito da voz, do estilo musical e das canções de Marco Paulo. Cantava em restaurantes, em bares e festas populares seguindo o caminho da música até ter 40 anos, idade em que decidiu colocar um ponto final na subida aos palcos.
“Tenho saudades do palco. Mas parei e quis ficar com essas memórias guardadas. Mas era fantástico! As pessoas gostavam de me ouvir cantar”, conta.
E no palco só cantava as canções de Marco Paulo, a maneira como se apresentava era idêntica à de Marco Paulo, os gestos, inclusivamente no cabelo encaracolado que, por ser natural, ainda hoje mantém.
“Era como se fossemos duas almas gémeas”, explica, “embora a voz do Marco seja inconfundível e inigualável”, acrescenta.


Firmino José costuma dizer que a sua ida à RTP foi “o seu disco de platina”. Sonho que nunca concretizou; a gravação de um disco.
Sobre essa possível carreira musical, nos estúdios do Lumiar, a Júlio Isidro e Marco Paulo “disse que ia pensar” mas teve medo da fama, admite.
“Mesmo como artista amador foi muito difícil lidar com a fama, porque comecei a ter muita fama sem estar sequer no auge de uma carreira artística. Não lidava muito bem com isso”, afirmou, assumindo alguma timidez.


Os seus espetáculos, que aconteceram em Tramagal, em Évora, no Algarve, no Barreiro e em muitos outros locais, “enchiam em todos os sítios. Onde fui, o público estava. Como se estivesse lá o Marco Paulo”.
Recorda que certa vez, em Belver, tinha Firmino uns 22 anos, com o seu visual semelhante ao de Marco Paulo, de farto cabelo encaracolado, “uma senhora num café junto à estação ferroviária abordou-me e perguntou se conhecia o Marco Paulo do Tramagal porque gostaria de o ouvir cantar”, lembrou.
“Disse-lhe que era eu e cantei a canção ‘Mulher Sentimental’. As pessoas que estavam à espera do comboio aproximaram-se todas para me ouvir cantar. É um momento que guardo no coração”.


Como fã, Firmino ia aos concertos, tem todos os discos, cassetes, dvd’s e livros do ou sobre o artista. Sem conseguir indicar qual a sua canção favorita, tem todas as letras das canções na memória, uma cabeça que demora minutos a memorizar as canções.
“Algumas pessoas surpreendem-se, porque só tenho a quarta classe, mas oiço a canção e passados dois minutos a música já está na cabeça”. E exemplifica: “o disco ‘Melhor de Mim’ tem 20 letras e eu sei as letras todas de cor”.
Firmino José, no entanto, não se assume como o fã número um de Marco Paulo. “É difícil! Porque há fãs que têm altares”, explica.
Para Firmino, Marco Paulo “é um artista completo”. Citando Tony Carreira, diz “o que Marco fez, certamente ninguém vai lá chegar” porque “alcançou tudo. Discos de diamante, de ouro, de platina. Só dois portugueses têm disco de diamante: Amália e Marco Paulo”, lembra, acrescentando que “’Taras e Manias’ deu-lhe três discos de platina. Na altura cada disco significava 60 mil cópias vendidas”.
A amizade entre Firmino José e Marco Paulo consolidou-se após o espetáculo que Marco Paulo realizou no Tramagal, convidando-o para cantar com ele. Por causa dessa amizade, Firmino José convidou Marco Paulo para padrinho do seu filho mais velho, que hoje tem 31 anos e que, claro, se chama Marco.
O artista disse-lhe que “não podia mas pagou todas as despesas da festa de batizado”. O filho de Firmino chama-se Marco António, o nome do afilhado de Marco Paulo. “Quando soube ficou muito contente”, lembra. Firmino e o filho Marco partilharam juntos em palco, por diversas vezes, as canções de Marco Paulo. Marco António cresceu a ouvir o ídolo do pai e a ver Firmino José a atuar, nos vários palcos da vida, pelo que as letras e os gestos foram facilmente assimilados e a presença em palco da dupla pai e filho eram uma festa em atuações com alma e alegria que levavam a assistência ao rubro.

No Tramagal todos conhecem Firmino por Marco Paulo, uma alcunha que diz ter recebido bem. “Gosto que as pessoas continuem a chamar-me Marco Paulo”. Afastado dos palcos, Firmino José ainda canta no duche e afirma continuar a fazer os mesmos gestos, “e assim vai ser”. Mas “como Marco Paulo diz na ‘Casa Amarela’ e agora acabou”.
Marco Paulo era o nome artístico de João Simão da Silva, um dos mais populares cantores portugueses. Morreu na quinta-feira, 24 de outubro, aos 79 anos, vítima de doença oncológica. Marco Paulo é um dos músicos recordistas de vendas em Portugal, com vendas superiores a cinco milhões de discos.
Óbito/Marco Paulo | Centenas de pessoas na última homenagem ao cantor em Lisboa
Centenas de pessoas despediram-se este sábado de Marco Paulo, que morreu na quinta-feira, a entoar êxitos do cantor no funeral, entre a Basílica da Estrela e o cemitério dos Prazeres, em Lisboa.
A urna com o corpo do cantor esteve na Capela da Nossa Senhora do Carmo, na basílica, tendo sido levada para a nave central da igreja, onde às 14:30 foi celebrada missa, aberta ao público.
Após a celebração eucarística, o funeral seguiu pouco depois das 16:00 para o Cemitério dos Prazeres. Ao longo do percurso, centenas de pessoas cantaram algumas das canções mais conhecidas de Marco Paulo e bateram palmas à passagem do carro funerário.
Marco Paulo, 79 anos, morreu na madrugada da passada quinta-feira, na sua residência no concelho de Sintra, nos arredores de Lisboa. Protagonizou uma carreira de mais de 50 anos, marcada por êxitos como “Ninguém, Ninguém”, “Eu Tenho Dois Amores” ou “Maravilhoso Coração”, entre outros.
Natural de Mourão, no distrito de Évora, João Simão da Silva adotou como nome artístico Marco Paulo. Na sexta-feira, o parlamento aprovou, por unanimidade, um voto de pesar apresentado pelo presidente da Assembleia da República pela morte do cantor.
No voto assinado por José Pedro Aguiar-Branco, refere-se que Marco Paulo “viveu uma carreira artística longa e frutuosa, com mais de cinco décadas e 70 álbuns lançados”, salientando-se ainda que se tornou “um dos nomes cimeiros do cançonetismo português”.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou o cantor com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique, em maio de 2022.
c/Lusa
