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O que é que tu achas que é ser figura pública?

Uma figura, no verdadeiro sentido, é uma representação de uma pessoa. Neste caso, acho que a conversa nos vai levar para alguém que tem alguma importância. Uma pessoa que, por mérito ou por circunstância, está numa posição de destaque. Há pessoas que são figuras no anonimato, que preferem ser gente grande e grandiosa sem que muito se saiba sobre elas. Há outras que saltam para a ribalta, por diferentes razões. Umas porque querem, outras porque é inevitável. A política, o desporto e a televisão são os três grandes palcos para estas coisas. Pelo menos, é o que me parece.

Parece-te bem. Podíamos acrescentar a cultura, nas suas mais variadas facetas, desde o cantor popularucho até às estrelas dos festivais. Como também podíamos juntar as famílias famosas ao longo de gerações, como a realeza.

Essas são figuras públicas, quer queiram quer não. Podem tentar escapar qualquer coisa, mas é sempre difícil. Nascem debaixo de holofotes e não conseguem ter uma vida normal.

É o preço a pagar. Em relação a todos eles, trata-se de pagar um preço.

Não necessariamente. A verdade é que há casos de políticos que mantiveram a sua vida privada longe dos olhares públicos. Há membros de famílias reais de quem nunca se ouve falar. Desconheço o universo dos jogadores de futebol, mas acredito que muitos saibam preservar, por exemplo, as suas famílias, enquanto outros optam por apresentar os novos membros à sociedade.

Isso é quase inevitável. Quando alguém atinge um determinado patamar de popularidade, é quase impossível manter a família no anonimato. Então, se calhar, mais vale mesmo apresentar mostrar meia dúzia de fotografias e acalmar as curiosidades das criaturas que se alimentam da vida dos outros.

Se calhar importa fazer uma distinção, que é a exposição das próprias figuras públicas e a exposição das pessoas que lhes são próximas. Lembro-me de uma jornalista da imprensa social me contar que, ‘batendo’ as praias do Algarve, em plena época de férias, havia muitos famosos que se recusavam a ser fotografados e outros que chamavam a família toda e que faziam pose.

Sim, é tudo uma questão de opção. Mas o que me parece é que muitas figuras públicas chegam a esse patamar sem terem bem consciência do que lhes está a acontecer. É muito fácil um jogador de futebol passar a estrela quase de um dia para o outro, como é muito fácil um ator ou atriz de telenovela de repente passar a ser um sucesso. São fenómenos que dificilmente se controlam, por uma exibição fantástica num jogo ou por uma cena mais escaldante numa telenovela.

Isso é tudo verdade, mas a maioria as figuras públicas teve tempo suficiente para se adaptar à curiosidade da opinião pública, dos mirones, dos que vivem a vida dos outros, dos que sofrem com as tristezas de quem não conhecem e que se alegram com as vitórias de quem não conhecem. Sobretudo os políticos, quando aceitam determinados cargos, é evidente que vão estar debaixo de olho. Toda a gente os vai reconhecer em qualquer lado, como reconhecem cantores, atores e por aí fora. Quem é que nunca viu uma figura pública? Eu já vi umas quantas, já. Assim de repente lembro-me do Jorge Palma num cinema, do Rodrigo Guedes de Carvalho na loja de uma fábrica de cerâmica e da Bárbara Guimarães no Jardim Zoológico. Mas sabes qual foi a grande diferença? Foi que o primeiro estava na boa, borrifando-se para o facto de as pessoas olharem para ele. O segundo obviamente que percebia que as pessoas o reconheciam, até pela voz, num espaço pequeno, mas agiu normalmente. Já ela ia com um lenço na cabeça, óculos de sol escuríssimos, enquanto empurrava o carrinho de bebé da filha e puxava o filho pelo braço, não deixando o miúdo ver os animais o tempo que ele queria, como qualquer outra criança.

Essas é que são as consequências mais complicadas. Não poderes fazer uma vida normal nos espaços públicos. Mesmo que queiras. Sobretudo desde que há telemóveis, há sempre alguém a tirar fotos e a fazer filmes. Mas há quem saiba lidar com isso, pessoas que o fazem muito bem, como o atual Presidente da República. Não deixou de ir à praia.

Mas esse é um caso de popularidade. O problema é quando as figuras públicas são alvo de muita curiosidade ou, pior, quando são alvo de raiva coletiva. Achas que o pessoal do BES pode ir ao Jardim Zoológico ou a um jogo do Benfica?

Pois, se calhar é melhor não. Têm uma cara demasiado conhecida e talvez apareça alguém com razões para, digamos, se transformar numa besta ou num hooligan. Alguém que se tenha sentido roubado…

Então, por que é que o Centeno não pode ver os jogos do Benfica nas bancadas normais? A polícia tem medo de quê? O risco, a existir, será no final deste mês, quando os funcionários públicos virem o recibo de vencimento. Aí, suspeito que vai ter mesmo que quebrar a tradição de 40 anos e deixar de ver o Benfica no estádio. Vai ter mesmo que na televisão. Se não tem a Benfica TV, pode sempre pedir o privilégio, em nome do estatuto de figura pública…

Hália Santos

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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