Em certas freguesias de Ourém, a Norte deste nosso Médio Tejo, também nos meses frios de Janeiro e Fevereiro decorrem festas populares idênticas às que se realizam no Verão, mas tendo como elemento nuclear o pinhão.
Os pinhões vendidos nesses festejos são sementes de Pinheiro Manso ou “Pinheiras Mansas”, como são localmente conhecidos.
Depois de recolhidos e torrados de acordo com métodos ancestrais tornam-se símbolos incontornáveis nessas festas religiosas, num equilíbrio interessante entre o pagão e o sagrado.
Os padroeiros destas festas são o Santo Amaro, a Nª. Senhora das Candeias e a Nª. Senhora do Livramento que conferem também o carácter religioso a estas festividades.
Estes fenómenos populares, que são as” festas dos pinhões “, transportam uma tradição associada à mudança de ciclo agrário constituindo-se também como plataforma de venda de diversos produtos e ferramentas necessários à atividade rural como sementes, árvores, alfaias agrícolas e outros bens de consumo.
A forma equilibrada como se organizava o nosso mundo rural deve servir para retirarmos as necessárias ilações face aos constrangimentos que hoje lhe são colocados pelas alterações ao seu modelo de desenvolvimento e consequentes impactes no território e nos seus recursos naturais renováveis.
Como elemento base para a persistência destas festas dos pinhões é fundamental garantir que as suas sementes sejam produzidas, e, para isso, têm de existir exemplares de Pinheiro manso em quantidade suficiente para garantir escala de produção, mesmo sendo esta artesanal.
Com os incêndios dos últimos anos os exemplares dessa espécie passaram a ter uma ocorrência cada vez mais escassa na região o que pode comprometer a sustentabilidade da produção de pinhões e, com isso, a manutenção nos termos tradicionais desses ícones festivos e rituais de Inverno.
Para além de promover e divulgar estes acontecimentos culturais singulares urge que sejam tomadas medidas ativas para a difusão da plantação de pinheiros mansos em alternativa à expansão das monoculturas de eucalipto ou pinheiro bravo, com a garantia de que a sua rentabilidade económica seja mais bem-sucedida e que, em simultâneo, se mantém uma tradição com grande alcance e significado cultural e patrimonial.
Este é sem dúvida um aspeto prioritário a debater e a concretizar, passado que são já alguns anos sobre os dramáticos incêndios que assolaram a nossa região.
Os incêndios passaram, mas, depois do rescaldo, pouco de proactivo foi apresentado para restaurar a ocupação desse território de forma planeada e consequente!
Para prevenir é necessário trabalhar o conhecimento tradicional, envolver as comunidades e planear com os instrumentos financeiros e tecnológicos disponíveis no presente.
O ritual dos pinhões representa simbolicamente aquilo que pode ser uma interessante ponte entre o passado e o futuro desse território rural.
