O ciclo do Carnaval, que se inicia exatamente no começo do ano agrário, apresenta-se como período de purificação e expulsão das forças malignas do inverno. O Carnaval, ou aquelas que Jacques Heers apelida de “festas de loucos”, têm a sua origem na Antiguidade.
A sua história começa no princípio da nossa civilização, nas celebrações da fertilidade, aquando das primeiras lavouras, nas margens do Nilo, há cerca de seis mil anos. Os agricultores eram, nesse momento, o expoente da capacidade humana, que já nas cavernas se distinguira em volta da fogueira, na dança, na música, na celebração…
Na Roma Antiga, em glória de Saturno, comemoravam-se as Saturnais. Esses festejos eram de tamanha importância que os tribunais e escolas fechavam as portas, alguns escravos eram alforriados e as pessoas saíam à rua para dançar. A euforia era geral. Na abertura dessas festas ao deus Saturno, carros parecidos com navios saíam para as “avenidas”. Tratava-se dos denominados “carrum navalis”. Muitos defendem que aí nasceu a expressão “carnevale”.
A civilização judaico-cristã fundamentada na abstinência, na culpa, no pecado, no castigo, na penitência e na redenção renega e condena o Carnaval e, muito embora os seus principais representantes fossem contrários à sua realização, no séc. XV, o Papa Paulo II contribuiu para a sua evolução, imprimindo uma mudança estética ao introduzir o baile de máscaras, permitindo que, em frente ao seu palácio, na Via Lata, se realizasse o Carnaval romano. Como a Igreja proibira as manifestações sexuais no festejo, nova exteriorização foi ganhando forma: corridas, desfiles, fantasias, deboche e morbidez. Reduzia-se, assim, o Carnaval à celebração ordeira, de caráter artístico, com bailes e desfiles alegóricos.
Se para uns a expressão deriva de “carrum navalis”, para outros a palavra tem origem na expressão “carnem levare”, modificada depois para “carne, vale!” (adeus, carne!), surgida pelos séculos XI/XII, que anunciava a Quarta-feira de Cinzas e a supressão da carne devido à Quaresma. Provavelmente deriva igualmente daí a denominação “Dias Gordos”, em que a ordem é transgredida e os abusos tolerados, em contraposição ao jejum e à abstinência total do período seguinte (Dias Magros da Quaresma).

Na região de Abrantes, há cerca de um século, os jornais locais davam conta do aspeto das festividades carnavalescas. Contava-se que elas andavam longe do fulgor de tempos idos. Ainda assim, nota-se na imprensa que há quem procure dar uma outra dinâmica ao período: os jornais alinham no espírito da época e divulgam notícias sensacionalistas, que não passam de grandes intrujices; o comércio local anuncia variados adereços para usar na quadra.
Nas ruas, porém, “a animação pouco se notava, chegando ao ponto de aqueles três dias mostrarem o aspeto de dias vulgares […]”. No começo do século XX, em que o associativismo ganhou grande dimensão, Abrantes passou a festejar o Carnaval no interior das sociedades, às vezes em casas particulares, sobretudo com a realização de bailes de máscaras. De resto, via-se “aqui e além uma máscara, uma cegada à noite, um grupo de mal mascarados…”.
Já na minha meninice, há mais ou menos cinco décadas, no mundo rural do norte do concelho de Abrantes, a saga carnavalesca arrancava na escola, com a professora a propor-nos que pensássemos na máscara que gostaríamos de usar naquele ano. Era ela que, num princípio de tarde, dividia três cartolinas em quase vinte formas ovais e, a seguir, pedia a um dos mais habilidosos que recortasse aquela que seria a base das máscaras. Não havia espaço para enganos, sob pena de algum dos alunos ficar de cara à vista. No dia a seguir, de casa, levávamos algo que ajudasse a compor a caraça, como sempre dizíamos, para além do elástico de umas cuecas velhas, já sem préstimo, para que o cartão se ajustasse ao rosto.

Na véspera do Entrudo, distribuíamos partidas pela aldeia, ao lusco-fusco. Na casa do Ti Joaquim Alves, viúvo a viver sozinho desde longa data, prendíamos um fio de coco à aldraba da porta e, toc-toc, batíamos. O homem vinha à porta, olhava em redor, encolhia os ombros e voltava a entrar. Daí a pouco, novo toc-toc e lá regressava o velhote à entrada, avançava para a estrada, mirava à direita e à esquerda na rua enlameada e, a falar sozinho, voltava para junto da lareira. Ainda o toc-toc da aldraba e o viúvo em passos apressados, já certo que se tratava de uma brincadeira. Mão no fio, um puxão, um “raios parta os cachopos” e a malta a disparar uma gargalhada. E avançávamos para a vítima seguinte, a Ti Ana Pelôta, também carcomida pelos anos, uma vida a esfregar com álcool as articulações de um homem artrítico. Amiga das crianças, excetuando os dias em que afogava as mágoas em tinto de qualidade duvidosa, era uma das vítimas habituais. Aquecíamos uma pedra numa lareira, colocávamo-la numa lata, corríamos para a porta da casa modesta dos velhos e gritávamos: “Ó Ti Ana!”.
Assim que se abria a porta, lançávamos o calhau para o sobrado e a velha, ato contínuo, já a ralhar, agarrava a pedra e começava a praguejar. Corríamos e ríamos, em direção a nova vítima, por certo também um alvo fácil.
Na terça-feira, depois de nos refastelarmos com uma sopa rica em carne de porco, vestíamo-nos com roupas velhas, muitas vezes dos nossos avós. Os rapazes preferiam roupas femininas, enquanto as raparigas escolhiam normalmente o fato do avô. Púnhamos a caraça, pegávamos num cajado e juntávamo-nos no Terreiro, a gritar “Entrudo, marmeludo, comes cornos e comes tudo”. Não percebia o que queríamos dizer, mas isso era o menos importante.
A dada altura, um homem ou uma mulher, com o objetivo de identificar um mascarado, lançava-lhe a mão entre as pernas, a querer apanhar-lhe “o escrito”. Quando o visado dava atempadamente pela ousadia, desferia uma cajadada sem dó nem piedade e o abelhudo tão depressa não esquecia o dia de Entrudo.
No dia a seguir começava a Quaresma, tempo de jejuns e outras privações. Íamos à missa, bem cedo, em Quarta-feira de Cinzas e, ano após ano, sempre o mesmo ritual. “Lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar, dizia o padre, enquanto nos colocava um montículo de cinza no cabelo. Detestava aquilo e, ainda hoje, quando disto me lembro, tenho a sensação de ainda ter resquícios de cinza na cabeça.
