A Fundação Maria Dias Ferreira, em Ferreira do Zêzere, encheu-se de gente de saberes na tarde de domingo, 28 de janeiro, durante a apresentação do Livro “Artes e Ofícios Tradicionais do concelho de Ferreira do Zêzere”, o terceiro livro da coleção “Etnografia, tradições e saberes do concelho de Ferreira do Zêzere”. A obra vai estar à venda no Posto de Turismo e Biblioteca Municipal.

O documento apresenta testemunhos de diversos artesãos, sendo ilustrado com fotografias demonstrativas do ofício e dos instrumentos e utensílios utilizados. O livro é da autoria de Rute Tavares, José Afonso Sousa e Cátia Salgueiro, com fotografias de Marta Navas. O processo de recolha de entrevistas esteve a cargo de Armando Cotrim, o registo vídeo de Pedro Ribeiro e design de Sylvie Lopes.

A obra sobre Artes e Ofícios chega ao público depois do lançamento dos livros sobre “Trajes” e “Danças e Cantares”, englobando mais de 30 saberes tradicionais do povo local, na Era da digitalização e da Aldeia Global. O cesteiro, o moleiro, o tanoeiro, o poçeiro, o ferrador, o capador, o merceeiro, o apicultor, o carreiro, entre outros, são alguns dos cerca de 30 ofícios evocados nesta obra que acaba por ser um louvor aos artesãos da terra.

José Afonso de Sousa, presidente da Fundação Maria Dias Ferreira e co-autor da obra, frisou que esta é uma obra conjunta da Fundação e da Câmara Municipal, destacando o apoio entusiata do vereador da Cultura, Hélio Antunes, que ajudou no processo de identificação das artes e ofícios bem como dando a indicação dos artesãos a entrevistar. O prefácio é dos professores José Joaquim e Rosária Marques. “Esta obra pretende dar a conhecer as profissões exercidas desde outros tempos neste concelho, visando contribuir para o estudo, promoção, defesa e divulgação das profissões tradicionais que representam muito a nossa identidade enquanto povo”, disse, acrescentando que são apresentadas neste livro mais de três dezenas de profissões.

Acrescentou que com a modernização verificada nas últimas décadas, muitas destas profissões desapareceram ou entraram em declínio. “Estamos a falar dos alfaiates, caleiros, capadores, encarregados agrícolas, operários de cerâmica, os ferreiros, as fiadeiras, os latoeiros, os merceeiros, os reseneiros, os tanoeiros, os boeiros, os moleiros, as tecedeiras…”, exemplificou.

O presidente da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere, Jacinto Lopes frisou que esta parceria entre a autarquia e Fundação Maria Dias Ferreira tem dado “bons frutos”, sendo que este livro surgiu na altura exata, transmitindo este conjunto de saberes às gerações futuras. “Este livro deixa um legado, sendo que era preciso fazer um alerta aos mais jovens para que pegassem em algumas destas profissões. O nosso futuro vai passar muito pelo regresso ao passado”, defendeu o autarca.
Jacinto Lopes disse ainda que algumas destas profissões podem ainda ter futuro, sendo que terão que ser criadas condições fiscais para que as mesmas se desenvolvam. “Eu acredito que as pessoas ainda irão pagar para regressar ao campo e quando isso acontecer algumas profissões irão reaparecer, tal como aquelas que estão mais ligadas à terra”, considera.
O autarca recorda que “tudo na vida é cíclico” pelo que espera que com as profissões aconteça o mesmo e se volte a dar vida às aldeias, disse, dando os parabéns aos autores do livro. “Este livro é de todos nós. É algo que temos que deixar para os vindouros sendo de enaltecer o esforço e a dedicação que os artesãos fizeram durante muitos anos, muitas vezes apenas pelo amor que têm à profissão. É a vós que este livro é dedicado. Que este livro permita deixar a história de Ferreira do Zêzere mais rica”, disse.

José Joaquim Marques, autor do prefácio disse que no concelho de Ferreira do Zêzere existem muitas profissões sendo que este livro é o resultado disso. “É um concelho predominantemente agrícola, sendo que uma maioria das profissões que estão neste livro estão ligadas diretamente à agricultura”, realçou, acrescentando que muitas destas foram passando de geração em geração até chegar aos nossos dias.
O autor do prefácio destacou uma profissão de Ferreira que é única no país que é a de fazer um barco de três tábuas. Enunciou algumas das profissões visadas nesta obra que foi desenvolvida com a recolha no terreno, o que reforça a importância da mesma. “Em Ferreira do Zêzere chama-se carreiro aquilo que no Ribatejo se chama boieiro. Carreiro era aquele que trabalhava com todos os carros. Quem trabalhava com a Junta de bois chamava-se singeleiro”, exemplificou. Para José Joaquim Marques, “este conjunto de profissões traz à memória como era a vivência do povo nessa altura e tem uma história incalculável. Fica o registo e isso é que é importante”, enalteceu.

Já Rute Tavares, uma das autoras do livro, contextualizou como surgiu esta obra e como se desenvolveu ao longo dos últimos dois anos. “O seu planeamento teve início numa reunião em fevereiro de 2016, tendo ficado estipulado que a obra iria integrar a colecção Etnografia, Tradições e Saberes do Concelho de Ferreira do Zêzere”, recordou. A co-autora frisou que obra é um legado escrito e fotográfico, devidamente documentado, que pode dar a conhecer às gerações vindouras o rico património etnográfico da região. A autora disse que quando chegaram à 31.ª profissão foi decidido que iriam ficar por ali por ser incomportável em termos práticos inserir mais informação.

No final, após assistirem a uma exibição em vídeo com pequenas entrevistas, todos os artesãos presentes receberam a oferta deste livro, com o mediotejo.net a reunir todos num foto de família recheada de saber.
