O Município de Ferreira do Zêzere está a promover desde julho um ciclo de visitas guiadas, mensais e gratuitas, à milenar Gruta de Avecasta, espaço de lendas, histórias e “paraíso dos arqueólogos”. A próxima visita guiada com acompanhamento de arqueólogos, e que fecha este ciclo de visitação, está agendada para sábado, dia 15 de outubro.
As visitas decorrem em acesso livre mas são condicionadas aos circuitos demarcados e podem beneficiar de visita guiada, entre as 14h00 e 15h00, por arqueólogos da equipa de escavação e musealização com coordenação de José Mateus e Paula Queiroz.
As primeiras visitas em regime livre aconteceram a 30 de julho, 13 de agosto e 17 de setembro, estando a última sessão agendada para 15 de outubro no horário das 11h00 às 13h00 e das 14h00 às 17h00, sendo os visitantes acompanhados por arqueólogos no horários das 14h00 às 15h00. A Gruta de Avecasta é considerado “um dos sítios arqueológicos mais importantes do país e até a nível europeu”.
Avecasta – Quando o povo se refugiou na gruta
De boca em boca, de geração em geração na pequena localidade de Avecasta passam histórias e lendas sobre a gruta. Segundo relatos da população local, a Gruta da Avecasta serviu de refúgio para os habitantes da aldeia aquando das invasões francesas, há cerca de 200 anos.
Nos depoimentos recolhidos nos anos 80 por arqueólogos junto dos idosos da aldeia, é relatado que, antes da invasão das tropas napoleónicas, surgiram na aldeia dois cavaleiros portugueses a avisar: “fujam, fujam que vem aí muita gente”.
Nessa altura os habitantes refugiaram-se na gruta e taparam a entrada com um muro em sete camadas, refere o relato popular. Existiria apenas uma pequena abertura por onde diariamente uma criança saía para ver o que se passava no exterior e para trazer mantimentos. Esse buraco era tapado com um ramo fresco que era substituído diariamente.
Desconfiados por não encontrarem ninguém na aldeia, os franceses deram com a gruta e começaram a derrubar o tal muro de sete camadas. Desistiram à sexta camada e o povo salvou-se, conclui a história, remetendo para o carácter místico do número sete.

Facto é que, quando os arqueólogos chegaram ao local nos anos 80, depararam-se com um grande caos de blocos na entrada da gruta, que fariam parte do antigo muro referido pelos idosos da aldeia.
Outra história da época que se ouve na aldeia é que existiria uma oliveira milenar de grandes dimensões mas oca por dentro, onde um homem se refugiou para fugir das tropas francesas. Descobriram-no e foi trespassado por um sabre no interior da oliveira.
Conta-se ainda que os franceses deram cereais aos cavalos, diretamente das arcas nas casas dos moradores locais.
Gruta da Avecasta – Milhares de anos de história
Os vestígios arqueológicos revelam que a Gruta de Avecasta e colina envolvente foram ocupadas desde o Paleolítico até ao período tardo-romano.
A sua classificação pela Direção-Geral do Património Cultural como Sítio de Interesse Público em 2012 teve por base o facto de “constituir um povoado com uma excecional diacronia ocupacional, com níveis preservados desde o Neolítico e quase sem hiatos até ao período medieval”.
Para se ter uma ideia de como seria a vivência na gruta há milhares de anos, imaginemos uma aldeia com habitações dentro daquela cavidade de 40 metros de diâmetro.
A aldeia que ali existia do Neolítico à época do Bronze terminou com um cataclismo ainda não determinado. Os especialistas garantem que, durante cerca de mil anos, a gruta esteve desocupada e não teve qualquer utilização.
Na segunda Idade do Ferro, antes da época romana, a gruta voltou a ter ocupação e de novo surgem as forjas agora de maior dimensão. Dessa época foram encontrados moldes essencialmente para lingotes para os ferreiros trabalharem e escória de ferro.
Esta “unidade industrial” ligada às forjas mantém-se em atividade até à Idade Média.

