Quando a estrada da Várzea fica plana, em Ferreira do Zêzere, encontramos a casa amarela de José Henriques. É nela que trabalha numa oficina criada para a cestaria, na qual dá seguimento a uma tradição familiar que passou do avô para o pai e do pai para aquele que é último cesteiro daquele concelho do Médio Tejo. Apesar de não ter mãos a medir para o trabalho que vai fazendo, na qualidade de reformado, José pensa que a arte “vai-se perder”. Não antevê futuro, mesmo após a formação, da qual foi mestre em Tomar, promovida pela Câmara Municipal, por causa da Festa dos Tabuleiros, para as quais faz cestos há cerca de 50 anos.
“Entre 300 a 400 cestos por ano, já fiz 500. Depende dos pares que aparecem e do dinheiro que querem investir. Este ano foram menos, cerca de 260. Reutilizaram cestos velhos, mas vendidos por algumas Juntas de Freguesia a 10 euros, enquanto novos custam 15 euros”, observa.
Até hoje deu formação a mais de 60 pessoas, mas surpreende-se quando os aprendizes interessados apresentam formação superior. “Nada contra a que aprendam. Terem cursos superiores é uma mais valia, têm mais facilidade em aprender” e, na verdade, a cestaria “também funciona como uma terapia para as horas de lazer. É preciso gostar”.
Porém, opina, “se são pessoas empregadas, não vão dar continuação à arte”. Por isso, defende que as artes e ofícios tradicionais “deveriam ser ensinados nas escolas”. José expressou essa sua ideia a ministros e até a presidentes da república “mas ninguém ouve nada”, critica.
Para a arte da cestaria, apenas vocação não chega, uma vez que “logisticamente é difícil. Há condições essenciais para se dedicar à atividade: ter uma oficina física para trabalhar, um carro para ir buscar materiais, ter uma máquina fieira e ir às feiras vender. Se o artesão trabalha e vende aos intermediários, nunca consegue ter peças com qualidade e ganhar algum dinheiro. Tem de se fabricar e vender diretamente ao público”.
José confessa estar disponível para o ensino, desde que exista “interesse” do aprendiz, só lamenta a inexistência de uma entidade, publica ou privada, que financie esse ensinamento.



Na oficia inicia uma cesta de vime cru. Passa a verga por água e abre o vime ao meio, só para nos explicar como se utiliza um rachador. O corte é certo e a mão é firme e calejada. São mais de 40 anos a dar voltas e a entrançar a matéria que no final resulta em cestos para lenha, ou cadeiras ou garrafões empalhados. Uma arte que lhe serviu de rendimento após regressar de França onde esteve emigrando. Na realidade, entre o serviço militar na Guiné e a vida de emigrante, esteve 12 anos sem tocar na arte da cestaria. Mas a história não começa aí.
“Com 8 anos, o meu pai obrigava-me a estar ao pé dele na oficina a trabalhar. Porque estas profissões, que passavam de pais para filhos, eram aprendidas de pequeno. Já fazia fundos para o cestos. E tudo o que se fazia era lucro. Era assim; os miúdos iam para as oficinas aprender com os mestres. Não é como agora. Andam na escola até muito tarde e não conseguem aprender artes como se aprendia antigamente. Por isso parte delas desapareceram e outras estão a desaparecer”, lamenta.
Foi o mestre Ramiro Pires António, pai de José Henriques, quem desenvolveu a arte da cestaria na família, apesar do avô fazer cestos para o campo, o pai foi um autodidata. “Havia muita verga de salgueiro e era com essa verga que se trabalhava”, explica. José nasceu à beira do rio Zêzere, antes da construção da Barragem de Castelo de Bode, em Aderneira, aldeia que, em grande parte, ficou submersa com a subida das águas.
Conta que o avô fez o serviço militar em Santa Margarida (Constância) e naquela época, à beira do Tejo, via como o povo ribeirinho, designadamente os avieiros, trabalhavam a verga. Foi com eles que aprendeu e “como tinha dois rapazes, achava que tinham de fazer alguma coisa”. Aproveitando os recursos existentes nas margens do Zêzere, onde moravam, passou o ensinamento aos filhos, ou melhor “dizia-lhes como era, não demonstrava. O meu pai aprendeu praticamente sozinho”.
Ramiro António desenvolveu então a arte, designadamente os açafates – pequenos cestos em vime que antigamente serviam para os utensílios da costura – bem como cadeiras e outros objetos, aliás “o meu pai fez a mobília do seu casamento”, conta.


Lembra-se do tempo em que, no concelho e nos limítrofes, trabalhava-se na cestaria e assim se criavam os filhos. “O meu pai criou quatro, viveu sempre desta arte. Também trabalhava na agricultura como todas as pessoas dessa época. Fazia feiras e mercados, como a Feira de Santa iria, em Tomar, na Sertã, em Oleiros”. Uma família de artesãos da qual José pode ser, definitivamente, o último… a não ser que a neta de 9 anos, que revela algum jeito para as artes manuais, queira dar continuidade. Até ver nem filhos nem restantes netos.
Um futuro que se antevê de perda, mas mau era quando ninguém lhe pegava nos cestos, devido ao surgimento do plástico. A atividade tornou-se insustentável, e por isso José, com 17 anos, procurou outra forma de rendimento. “O plástico deu cabo de todas as artes manuais, desde a latoaria à cestaria e até ao barro. Não se vendia nada”. Teve de emigrar, no caso para Angola, entretanto fez o serviço militar na Guiné-Bissau, durante 28 meses, e depois seguiu para França onde trabalhou na fábrica de automóveis da Peugeot durante oito anos.
Decidiu regressar após a crise económica de 1980, que originou despedimentos, e pegou na cestaria na oficina do pai, que apesar dos plásticos, “nunca desistiu”. É artesão, consecutivamente, há 43 anos, mais sete a somar antes da vida de emigrante, perfaz meio século a fazer cestos, de mercado em mercado para vender o produto.
Recorda, ainda, aquilo a que chamou de “mini crise”, despontada com o aparecimento das lojas chinesas. “Toda a gente comprava chinês porque era barato e porque era diferente. Nessa altura pensei em desistir, teria de largar a cestaria, de vez”. Mas falou com o autarca de Ferreira do Zêzere, de então, e em colaboração com a região de turismo, José Henriques passou a ir vender os seus produtos à Feira de Gastronomia de Santarém.
“Vendia todos os trabalhos que tinham em stock e arranjei lá muitos clientes”, garante. Desde então deixou os mercados e passou a fazer unicamente feiras de artesanato por todo o País. Atualmente marca presença na Feira de Artesanato de Vila do Conde, Estremoz e a Feira de Frutos Secos em Torres Novas. Tem alguns clientes com lojas portuguesas e um cliente em Espanha, em Vigo. “Este trabalho cada vez tem mais procura, também porque pensaram em eliminar os plásticos por causa do ambiente”, diz.




Tivemos sorte, a oficina está repleta de produtos terminados. Dezenas de cestos diferentes, garrafas e garrafões empalhados, alguns cestos para lenha empilhados, o que mais se vende por esta época do ano. Objetos saídos do vagar do artesão, sem ritmos acelerados que a idade já não permite. José Henrique completa 75 anos em janeiro e ainda trabalha de segunda a sábado, às vezes 10 horas por dia. “É uma arte viciante. Quando se gosta não nos cansamos. E como as reformas são pequenas, é uma ajuda”, refere. Aquando da nossa visita, aguardava que um cliente fosse recolher a encomenda após o almoço.
Mais adiante o chão tem um tapete de aparas de vime, junto à máquina elétrica com a função de desfiar, aplainar o vime grosso que rachado em três vai à máquina calibrar para depois se poder empalhar. Recorda que em 1939, o seu pai comprou uma máquina fieira, elétrica, para desfiar o vime, feita na Metalúrgica Duarte Ferreira, no Tramagal. Custou-lhe 1360 escudos. O artesão ainda guarda a fatura da compra, apesar de ter oferecido a máquina à Junta de Freguesia de Ferreira do Zêzere, que a tem exposta nas suas instalações, até que surja um museu onde possa ser preservada e apreciada pelos visitantes.
Nos anos 1980, cinquenta por cento do trabalho de José resultava em cestos “para as senhores irem às compras ao supermercado. Dois ou três dias por semana eram para fazer essas peças. Hoje faço uma vez por mês ou um dia de dois em dois meses”, relembra.
Portanto, a arte da cestaria encontra-se na sua família há cerca de cem anos e os saberes deste ofício foram passados, no seio da sua família, de geração em geração.




José António Henriques senta-se num banco baixo, bom para a arte mas péssimo para as costas e, apesar de trabalhar de acordo com o seu vagar, durante a hora e meia que durou a nossa entrevista fez uma cesta. O vime compra-o a um fornecedor da região, dos poucos que ainda resistem. ” Mas o mais miúdo vem de Espanha onde ainda há produtores de vime. Cá deixaram de produzir. Há um pequeno produtor com quem trabalho, em Caxarias”, conta. Em média custa cinco euros o quilograma, e para a cesta que fez precisou de exatamente um quilo.
Vende a peça a 14 euros. Em determinados objetos diz ganhar menos que uma empregada de limpeza “só que não trabalho 8 horas, trabalho mais. Nunca dá mais de 7 ou 8 euros à hora. Não é nem nunca foi para enriquecer. É para quem gosta e se esforça para viver dele”.


O vime é molhado no dia anterior a ser trabalhado, “fica a amolecer durante a noite e antes de se trabalhar é que se passa por água, mas o passar por água tem a função de, quando estamos a trabalhar a peça, o vime desliza melhor. Torna-se mais fácil”, explica o artesão.
José Henrique trabalha apenas com cores naturais, o tom mais claro é chamado de vime cru. O vime é cortado em janeiro, posto o pé na água e na primavera ramifica, “ganha aquele viciozinho e a gente retira-lhe a casca e fica branco”, explica. Outro processo passa por cortar o vime igualmente em janeiro e colocá-lo dentro de uma caldeira de água a ferver durante 10 horas. Dessa forma adquire a tonalidade castanha. Depois de seco, alguns artesãos optam por passar-lhe verniz que serve para realçar a cor, “torna-se a peça mais atrativa”.
E depois ainda trabalha o vime com casca, que é seco à sombra, depois vai à água durante 20 dias e por fim é trabalhado. Processos para adquirir diferentes tonalidades para uma arte que é 99% manual, uma vez que a máquina referida é a única ferramenta elétrica que existe para este trabalho, para desfiar o vime por exemplo para fazer cadeiras ou empalhar garrafões. Como restantes ferramentas utiliza faca, tesoura, estaca, rachador, furador e moldes para cestos retangulares.
Diz que na arte da cestaria, os artesãos conhecem o trabalho uns dos outros. As peças de José não têm muito a ver com o que aprendeu com o pai. “Cada artesão imprime um estilo próprio nas suas peças. Até podem parecer iguais mas há pormenores que as distinguem”.
Para o artesão de Ferreira do Zêzere, não há trabalhos complicados, apenas mais demorados. “Uma cadeira, por exemplo, demora 10 horas a fazer. Mas durante a minha vida tive de aprender muita coisa à minha custa e ir experimentando e vendo como os trabalhos saíam melhores. Foi assim que evolui. Quando um trabalho não está a sair bem, inventasse outro. Se conseguir espero trabalhar até morrer”.
Uma arte que exige mãos pequenas e “uma certa força para apertar a malha porque são matérias duras. E depois é jeito”.

Amo a arte da cestaria! Gostaria muito de a ver valorizada como obra de arte. Peças lindas e funcionais! Foram desprezadas pela indústria do plástico. Acredito que seja um bom momento para voltarem ao nosso quotidiano nestes tempos reflexão ecológica! Nada melhor para ir às compras: leves, funcionais e com uma longa duração. De Norte a Sul ainda se encontra algumas peças, normalmente a venda para turistas ou colecionadores. Penso que estas novas gerações não tem a menor ideia sobre esta arte e a sua utilidade. Devia ser valorizada nas escolas.
Trabalho muito bonito ! Parabéns ao artesão.