Foi em ambiente de festa e de celebração pelo fim da pior fase da pandemia, com uma noite de temperatura amena, que as Marchas Populares de Santo António regressaram às ruas de Ferreira do Zêzere no dia 11 de junho. A noite em que desfilaram sete marchas representativas de outras tantas coletividades do concelho, foi pontuada por homenagens a duas figuras marcantes da vila: Ivone Silva e Adélia Bimbas, sem esquecer o padroeiro Santo António.
Com uma nova gestão camarária desde outubro, desta vez de maioria PS, o evento sofreu algumas alterações que foram bem acolhidas pela população. As marchas fizeram as suas coreografias no parque de estacionamento do mercado, um espaço mais amplo, dotado de bancadas amovíveis onde mais pessoas puderam assistir ao espetáculo, complementado com um arraial popular e um baile no mesmo local.

Os sete grupos começaram por ser recebidos pelos autarcas na praça em frente ao edifício da Câmara e dali seguiram para o recinto do mercado onde, uma a uma, as sete marchas desfilaram perante largas centenas de espectadores.
Ao longo da noite foram feitas várias referências a Adélia Bimbas, ferreirense que morreu em novembro com 88 anos. Era uma figura popular e acarinhada em todo o concelho pela sua atividade como comerciante, mas sobretudo pela sua dedicação ao associativismo e às atividades culturais em Ferreira do Zêzere, nomeadamente às Marchas Populares desde 1987.
Outra figura que este ano inspirou a marcha da Casa do Povo de Ferreira do Zêzere foi a atriz Ivone Silva, ferreirense considerada a “rainha do Parque Mayer” e criadora de figuras populares na comédia televisiva. Deu nome a uma rua na vila e ao cineteatro local.
Um regresso ansiado por todos
Após 2 anos de interregno por força da pandemia, as Marchas Populares saíram de novo à rua numa noite ansiada por todos e que registou uma enchente na vila. “As majestosas marchas” exigem “muito empenho, dedicação e entrega”, conforme destacou o Presidente da Câmara num texto publicado na brochura do evento.
Num ano em que “a exigência é maior”, Bruno Gomes agradeceu “o bairrismo, fruto da união, do dinamismo e da força do tecido associativo”, dando os parabéns às coletividades participantes.
Agradeceu também “a todos os impulsionadores desta iniciativa, aos marchantes, compositores, letristas, coreógrafos, músicos, padrinhos e madrinhas e a todos os que têm contribuído para o sucesso das Marchas que tanto nos enriquecem artística e culturalmente”.
O primeiro a desfilar foi o grupo do Rancho Folclórico da Alegria do Alqueidão de Santo Amaro que apresentou uma marcha com letra de Paulo Alcobia Neves e música de João Antunes. Os padrinhos eram Belmira Silva e António Craveiro.
Ana Isabel, a porta-voz do grupo, explicou ao mediotejo.net que que a marcha que orienta é marcada pela alegria e pela evocação de um santo da sua terra: Santo António de Ribelas.
Começaram a trabalhar em 2020, mal imaginando que uma pandemia lhes iria adiar os planos por dois anos. Já com algum trabalho feito, apresentaram o “resultado de muita dedicação e alguns nervos” numa noite em que imperou a “sensação de alegria” uma vez que todos estavam “ansiosos de voltar às ruas”.
A segunda marcha representava o Sport Club de Ferreira do Zêzere com letra e coreografia de Isabel Mendes, igualmente a madrinha da marcha “Viva a Alegria”, tema que serviu de inspiração.
Começaram os preparativos em março, mas logo no início do ano, Isabel garante que já tem uma ideia da marcha, do tema, da letra, da música e “depois vai-se fazendo as coisas”. Diz que idealiza a marcha como um todo e conta com a colaboração de outras pessoas na música e nos trajes. Na sua opinião, o mais complicado em toda a organização são os ensaios uma vez que alguns marchantes faltam. Descontraída e apontando para o recinto das atuações, refere que o último ensaio é sempre ali. “Isto é para a gente se divertir, aqui não há prémios, não há concorrência, participamos todos”, conclui Isabel Mendes.
Seguiu-se a marcha do Agrupamento 988 dos Escuteiros, de Ferreira do Zêzere, constituída por 61 elementos, dos quais 50 escuteiros a dançar e 11 músicos, com idades que dos seis aos 68 anos, “daí a dificuldade em organizar, em coordenar”, conforme refere Leonilde António, responsável pela coreografia e igualmente a madrinha da marcha.
Como tema, escolheram algumas atividades escutistas e dois símbolos “que dizem muito à sua mística”: “saúde e bem-estar” e “justiça e paz”, ali simbolizados por corações e pombas, num conjunto onde predominavam as cores branco, rosa e azul escuro.
Leonilde António também está envolvida nas marchas há mais de 32 anos e confessa que já lhe apeteceu desistir, mas o gosto pela tradição é mais forte. A marcha dos escuteiros contou com letra e música da Bandinha da Alegria e arranjo de João Coelho.
“Saudades de voltar” foi o tema apresentado pela Marcha da Sociedade Filarmónica Ferreirense que teve como madrinha Maria Dulce Figueiredo, letra de Américo Antunes e João Henriques, música de Pedro Henriques e coreografia de João Henriques, Tânia Antunes, Beatriz Marques e Inês Ferreira.
“Somos um grupo fantástico”, realça Dulce Figueiredo que ali está pela 33ª vez em representação da coletividade a que preside.
Quanto às marchas, diz que “fazem parte da nossa sociedade, é uma forma de conviver, de não deixar morrer tradições”. Faz questão de realçar que tudo na sua marcha é original, desde os trajes, à música, letra e coreografia. “Saudades de voltar” foi o tema numa referência aos tempos difíceis que todos passámos nestes últimos dois anos de pandemia.
Ali estava o resultado de “muitas horas de trabalho” em que se procurou envolver os mais jovens. Explica as cores da sua marcha: o branco, que “simboliza a paz que se deseja com alegria” e o rosa, “a esperança e sonho de que a pandemia e a guerra estão a passar”.
Apesar de não ser o padroeiro da terra, a figura de Santo António foi motivo de inspiração para a marcha do Grupo Desportivo e Rancho Folclórico de Pias. A imagem do santo milagreiro encontra-se numa pequena capela na localidade.
São Penim explica que pretende homenagear o santo numa marcha que “deu muito trabalho e envolveu muita gente”. Para 55 pessoas de todas as idades foram “três semanas em contra-relógio”. A letra e música é da autoria de Márcio Cabral, a coreografia de Luís Marmelo e foram padrinhos São Penin e Manuel Pereira do Vale.
A Associação Desportiva e Recreativa de Águas Belas escolheu “a natureza e o amor” como tema da sua marcha, com letra e música de Rui Pascoal e Márcio Cabral, coreografia de Dina Henriques e Rui Pascoal, sendo madrinha Luísa Graça.
A coletividade, que elegeu há pouco tempo Rita Cabeças como presidente, apresentou quase 50 marchantes que em cerca de mês e meio puseram de pé a sua marcha. “Tínhamos saudades”, disse Dina Henriques, explicando que “a natureza e o amor” são “as coisas mais simples da vida que devemos valorizar e contemplar”.
A encerrar o espetáculo, desfilou a marcha do Casa do Povo de Ferreira do Zêzere que fez uma homenagem à atriz ferreirense Ivone Silva. A maior parte das marchantes trazia um vestido preto numa alusão à rábula “com um simples vestido preto, eu nunca me comprometo”. Também não foram esquecidas as figuras “Agostinho e Agostinha”, criadas em 1981 por Ivone Silva e Camilo de Oliveira para o programa da RTP Sabadabadu.
Segundo Ana Cerqueira, o objetivo da homenagem a Ivone Silva é que a “conterrânea não fique esquecida. Ela foi uma grande atriz do Parque Mayer e do Politeama. Não devemos perder as raízes”, defende.
No mesmo local onde desfilaram as marchas seguiu-se um baile com Nandito Lourenzo, enquanto em simultâneo, os grupos das marchas voltavam a atuar no pavilhão 2000.
























