Presépio de José Ramos Luís, em Vale de Lameiras, Ferreira do Zêzere. Créditos: mediotejo.net

Desde que regressou a Ferreira do Zêzere, José Ramos Luís, de 89 anos, passa os dias a transformar materiais que deveriam ir para o lixo, em peças de presépio. De embalagens de leite e de sumo a caixas de medicamentos, tudo é reciclado e transformado em casas ou em edifícios. De madeira velha, de contraplacado, faz barcos e até aviões e helicópteros. Quando tem inspiração ainda escreve uns poemas.

Mas há quatro anos que constrói um presépio, e entre as mais de 200 peças até figurava um elétrico, porém, como alguns amigos brincavam não fazer sentido que existisse tal veículo no tempo do nascimento de Cristo, José decidiu retirá-lo daquele espaço que idealizou ser o território da chamada Terra Santa, do Egito à Palestina. Contudo, no seu presépio permanece uma homenagem a Nossa Senhora da Conceição, pela “valorização” que o autor dá à figura materna.

“Fiquei sem mãe. Tinha seis anos quando a minha mãe morreu e quando brincávamos, e me magoava ou levava porrada, chorava virado para a parede, não tinha ninguém que me acudisse. Os outros miúdos tinham mãe que iam logo dar-lhe beijos”, conta.

Por isso, José acostumou-se a respeitar o Dia da Mãe, que associa ao nascimento, e não abdica de algumas figuras no presépio, localizado em Vale de Lameiras, como a repetição dos três Reis Magos, nas três fases do seu percurso na adoração do Menino, desde a visita ao rei Herodes, da homenagem a Jesus em Belém, até ao caminho tomado para não denunciar a localização daquele que, para os crentes, é o Messias.

Presépio de José Ramos Luís, em Vale de Lameiras, Ferreira do Zêzere. Créditos: mediotejo.net

Nem de um edifício que no fundo é a representação da escola que os filhos frequentaram na Pontinha, onde a família morava, nem da réplica da igreja de Vila de Rei, onde foi batizado, tão pouco os coches imperiais longe do estilo romano, ou da roda de tirar água igual à existente no jardim de Tomar, ou da picota, ou do carrossel, figuras que dão movimento ao todo, construído em cima de areia e não do tradicional musgo.

Na verdade, introduziu elementos de diferentes épocas, na tarefa da transformação. A titulo de curiosidade, saibam que os cornos das cabras, nada mais são que tenazes de uma sapateira.

Há portanto, naquele presépio, um aproveitamento de materiais que acaba por refletir uma preocupação ambiental, embora para a construção de algumas casinhas, José tenha optado por gesso, dando-lhes outra consistência que o cartão não tem, para resistir à humidade ou à chuva de dezembro. Porém, o presépio com 40 metros quadrados está abrigado nas traseiras de sua casa, de portões abertos, desde o inicio de dezembro até meados de janeiro, acessível aos olhos de quem tiver interesse em apreciar a sua arte.

Não é propriamente uma arte refinada, mas desperta igualmente admiração de quem por ali passa. Na realidade José orgulha-se de ser o autor de mais uma recriação do nascimento de Jesus Cristo, que terá ocorrido num estábulo humilde em Belém, porventura situado numa gruta, tal como é relatada nos evangelhos.

Presépio de José Ramos Luís, em Vale de Lameiras, Ferreira do Zêzere. Créditos: mediotejo.net

José Ramos Luís nasceu em Alcamim, no concelho de Vila de Rei, junto às margens do rio Zêzere, mas aos 14 anos mudou-se com o pai para Ferreira do Zêzere, porque aquando da construção da Barragem de Castelo de Bode, grande parte da aldeia “ficou debaixo de água”, conta ao nosso jornal.

Foi o destino que o levou a contrariar a ideia de que não devemos voltar ao lugar onde já fomos felizes. Decidiu regressar às origens, após a morte prematura da esposa. José Luís viveu e trabalhou pela capital, primeiro como funcionário da Companhia das Águas, depois como motorista de longo curso, profissão através da qual diz ter corrido toda a Península Ibérica.

Afirma terem sido “os melhores tempos” da sua vida profissional, e por fim como taxista em Lisboa. Ou seja, o mais perto que esteve das artes, enquanto profissional, foi no papel de distribuidor de mercadorias, seja das muitas encomendas de livros do Circulo de Leitores ou nos 17 dias em que acompanhou e transportou os cenários do Ballet da Gulbenkian na sua digressão.

Mas o regresso às origens avivou a memória de, em Alcamim, “todos os anos fazíamos um presépio comunitário. Fazia-se os bonecos e compravam-se também alguns para imitar a Terra Santa. Juntava-se a povoação toda e à noite a malta ia para lá rezar. Nunca esqueci aquilo”, recorda.

Presépio de José Ramos Luís, em Vale de Lameiras, Ferreira do Zêzere. Créditos: mediotejo.net

No presépio, que há quatro anos monta e desmonta no quintal de sua casa, José Ramos Luís tentou representar algumas passagens da Bíblia. Podemos ver o Egito – para onde foram os hebreus segundo o Antigo Testamento – e o respetivo rio Nilo, a Judeia – província romana que hoje é a Cisjordânia – onde não falta o rio Jordão com seus barcos, e, Jericó, Jerusalém, adornada com moinhos de vento, Belém e Nazaré onde, segundo os evangelhos, nasceu e viveu Jesus.

Aliás, o Menino Jesus é a razão que leva José Luís a meter as mãos à obra, além das memórias de Alcamim e do gosto pelas artes manuais. “O que leva a fazer estas coisas é ver-se em todo o lado, incluindo nas televisões, as Árvores de Natal e não se fala na base principal. Deveriam dizer às crianças que Jesus nasceu em Belém. Mas é só Árvores e prendas”, critica o homem confessando ser uma católico praticante. “Perdeu-se o espírito do Natal. A base principal está-se a perder!”, reforçou.

Apesar da idade avançada, José trabalha hoje como sempre trabalhou nas artes manuais. É um gosto antigo que traz desde infância, sem qualquer mestre, o qual permite dar asas à imaginação, incluindo no fabrico de alguns brinquedos para os dois filhos, quando crianças. “Estas brincadeiras já faço desde miúdo, pequenas coisas. A gente vai vendo e vai fazendo”, explica.

As mais de 200 peças do presépio saíram praticamente todas das mãos de José, embora tenha comprado as figuras mais tradicionais como José, Maria, Menino Jesus, burro e vaca, todas em terracota.

“De resto, desde aos edifícios, às pontes, passando pelos barcos, foram peças feitas por mim e todos os anos faço mais. Tenho mais figuras em andamento. Mas há coisas que já não fazia, já não tenho cabeça”, admite José, que idealiza e concebe as peças como forma de ocupar o seu tempo, uma vez que a saúde o impede de trabalhar no campo.

No fundo, na sua obra procura refletir a vida social e o quotidiano daquelas cidades bíblicas, o sagrado e o profano misturam-se naquele espaço e a Sagrada Família surge rodeada de igrejas, pastores, vendedores, reis montados em camelos e até palhaços e ursos.

Presépio de José Ramos Luís, em Vale de Lameiras, Ferreira do Zêzere. Créditos: mediotejo.net

Nunca vendeu uma única peça, porém oferece algumas. Conta que certa vez, numa Festa em Paio Mendes, ofereceu um dos seus barcos – tem tantos que não cabem todos no presépio – para um leilão, com o objetivo de angariação de fundos para o associativismo.

“Acho que rendeu 70 euros. Se fosse a vender as peças, nem sabia por quanto havia de vender porque hoje trabalho uma hora ou duas, amanhã trabalho quatro”, detalha.

E como o advento é tempo da espera, até que chegue o Natal e depois o Dia de Reis, José aguarda pelos visitantes na sua oficina, igualmente nas traseiras da casa. Ali vai trabalhando ao ar livre, com uma mesa auxiliar, cheia de matéria prima e ferramentas. “Enquanto puder, é a minha distração”, reforça.

José Ramos Luís além do gosto pelas artes manuais, gosta de ser visitado. Recebe crianças, amigos, vizinhos e até o presidente da Câmara Municipal de Ferreira do Zêzere e o presidente da Junta de Freguesia de Nossa Senhora do Pranto já por lá passaram. Quem vem de Ferreira e passar pela estrada que leva a Dornes, no início de Vale de Lameiras, após a placa a indicar Besteiras, não deixe de parar. Todos os dias da parte da tarde, até 15 de janeiro, José espera visitantes, que recebe com alegria, licores e línguas de gato.

*Reportagem publicada em dezembro de 2023, republicada em dezembro de 2024

A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *