No concelho de Ferreira do Zêzere, com a descida das águas os barcos vão ficando imobilizados na margem. Foto: mediotejo.net

Por estes dias, com o nível das águas da albufeira de Castelo do Bode a níveis bastante abaixo do normal para esta época do ano, a zona ribeirinha tornou-se um local de romaria.  Ao longo das margens vemos barcos e ancoradouros imobilizados em terra seca. A cota da água está anormalmente baixa para esta época e continua a baixar pondo a descoberto muros e ruínas de casas que estariam submersas em situações normais.

O mediotejo.net percorreu a margem direita da albufeira, no concelho de Ferreira do Zêzere, e recolheu depoimentos de moradores sobre a situação atual. Um traço comum a todas as respostas é que não há informação oficial sobre os fatores que contribuem para a descida acentuada do nível das águas, o que leva a especulações de alegadas obras ou de obscuros interesses económicos. Seja como for, a situação, a agravar-se, vai ter impacto negativo nas atividades náuticas e no movimento turístico da próxima época balnear.

“Cada dia é mais meio metro”, diz David Aderneira, morador na Bairradinha, a poucos metros da praia fluvial. Tem a responsabilidade de manter alguns barcos e ancoradouros à tona da água o que se tem revelado uma tarefa difícil porque nem sempre é possível acompanhar a descida das águas. “Vejo-me desgraçado para tentar pô-las dentro de água, tem sido difícil”, confessa.

David garante que há mais de 20 anos que não via tão pouca água na albufeira de Castelo do Bode, levando-o a questionar “o que poderá ser no próximo verão?”.

Quanto a possíveis explicações para a situação, aponta “a falta de chuva”. Mas este não é o único fator: “a barragem tem de compensar a falta de energia produzida pela central do Pego, entretanto encerrada”, sublinha. Acrescenta a informação que corre de boca em boca mas que ninguém da EDP confirma: “dizem que a barragem está em manutenção, não sei”.

É este o cenário no Lago Azul. Foto: mediotejo.net

“Nunca tinha visto isto assim”

Entre a dezena de visitantes que na altura da nossa reportagem estavam a contemplar a paisagem “lunar” da zona balnear da Bairrada / Bairradinha, estava Fátima Pegas, moradora em Ferreira do Zêzere. “Olhe, eu com 60 anos, nunca tinha visto isto assim. É um cenário nunca visto”. Não encontra explicação para o que está à sua frente, temendo o que possa acontecer no verão.

À porta do café do Cardal, a escassas centenas de metros da água, estava Fernando Ribeiro que garante já ter visto o rio mais baixo. “Devem estar a vazá-lo lá em baixo, devem estar a fazer algum arranjo no Castelo do Bode”, justifica.

A dona do café, Anabela Gonçalves, também não tem dúvidas: “alguma coisa se passa, ou estão a fazer obras na barragem ou é falta de água”. É testemunha diária da romaria que se tem registado desde dezembro. “Isto tornou-se num local de romaria. Tem vindo muita gente de fora e vêm mesmo para ver como isto está”, relata.

Da Bairrada seguimos para a Castanheira ou Lago Azul, onde a piscina flutuante se encontra mais de uma dezena de metros abaixo do nível pleno. Há quem aproveite para passeios de barco, a motor ou à vela, e prática do remo.

A “paisagem lunar” atrai muitos visitantes. Foto: mediotejo.net

Armazenamento de água a 65%

Segundo os números oficiais do Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos, a cota atual é de 107m (o nível pleno de armazenamento é de 121,5m), a que corresponde menos de 65% da capacidade total de armazenamento. Convém lembrar que há um ano a barragem de Castelo de Bode teve de fazer descargas devido ao excesso de água, o que contrasta e muito com o cenário atual.

Os lamentos também se fazem ouvir em Dornes, aldeia vencedora do concurso 7 Maravilhas. À semelhança de outros moradores com quem falámos, Laurinda Teixeira, da Frazoeira, ouviu dizer que “andavam a fazer obras e que estão a produzir eletricidade”.  “É triste ver o rio assim”, reconhece, comentário que é corroborado por Artur Godinho, morador em Dornes há mais de 50 anos.

“Ficar o rio assim da maneira que está, numa zona histórica como esta, acho que não tem muita graça”, critica Laurinda.

José Alberto Ferreira, calafate em Dornes, o último construtor dos tradicionais barcos de três tábuas, já está habituado ao sobe e desce das águas, mas garante que há “uma dúzia de anos” não via o nível de água tão baixo.

“A água é cada vez menos, todos os dias desce um bocadinho. Ele também não chove. E no verão o rio esteve perto do cimo, o que também não é muito normal”, comenta.  

Na sua atividade de calafate, quando vendia mais barcos notava que o negócio piorava quando o rio estava baixo. Além disso, prevê que “para o turismo no verão, não será muito bom”.

No concelho de Ferreira do Zêzere, com a descida das águas os barcos vão ficando imobilizados na margem. Foto: mediotejo.net

Mas nem tudo é mau no olhar de alguém que nasceu nas margens do Zêzere há 62 anos. Com a água mais de 12 metros abaixo do nível, aponta para alguns aspetos de construções antigas que agora se tornam visíveis. Ali estão os restos de calçada da estrada antiga e uns metros mais à frente está, ainda submersa, uma ponte romana.  

O retrato que aqui traçamos reporta-se às margens do concelho de Ferreira do Zêzere, mas é uma realidade transversal aos outros concelhos ribeirinhos – Tomar, Abrantes, Via de Rei, Sertã, Figueiró dos Vinhos e Sardoal.

Numa ronda pelas redes sociais é possível verificar a quantidade de fotografias partilhadas pelos visitantes atraídos por este cenário. Para além da beleza das imagens, que mostram a pouca água na albufeira e o baixo nível em que se encontra em pleno inverno, os comentários por norma são de tristeza e de incredulidade.

“O que se passa com a Barragem do Castelo de Bode?”, questiona Nuno Ribeiro. João António de Azevedo, acrescenta: “Desculpem lá. teorias da conspiração à parte. O que é que está a acontecer com a Barragem? Está a baixar a um ritmo muito rápido. A falta de chuva por si só, não é razão total para isto”. “Se não chover nos próximos tempos, estaremos muito mal!!!”, comenta António José Caetano, ilustrando o sentimento geral.

José Gaio

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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