Família Maia está a trabalhar na Suiça Foto: mediotejo.net

Por esta altura do verão, Ferreira do Zêzere tende a duplicar de população. Uma razão mais que suficiente para ser em agosto que se realiza a “Festa do Emigrante” (de 9 a 11), certame que celebra a tradição de retorno pontual dos filhos da terra que decidiram tentar a sorte além fronteiras. No concelho dos extensos eucaliptais e pinhais abraçados pelo rio Zêzere, com características já de interioridade, parte-se por razões diversas. Lá fora aprende-se a ver a terra natal com outro olhar, bate a saudade e até há espaço para histórias de crescimento pessoal. 

Nelson Maia, 41 anos, é natural de Chão da Serra, Ferreira do Zêzere. Há 12 anos, antes mesmo do início da crise financeira, decidiu abandonar a vida até relativamente estável que possuía na vila ferreirense e emigrar para a Suiça.

Quando perguntamos o porquê, comenta que foi “o sistema”. Ao longo da entrevista vamos percebendo que “o sistema” significa várias características da sua então vida – alguma estagnação, falta de perspetivas e problemas então menos evidentes – com as quais o nascimento do terceiro filho veio exigir-lhe que tomasse uma atitude mais assertiva. Hoje construiu um orgulhoso percurso de sucesso, sobretudo de crescimento e realização individual, familiar e na empresa onde trabalha, na área da construção civil, onde atualmente exerce funções de encarregado de obra.

“Tinha até um bom trabalho, era técnico de AVAC”, começa por recordar ao mediotejo.net na semana da Festa do Emigrante de Ferreira do Zêzere. Mas o quotidiano estava a tornar-se monótono, a esposa, Sónia Maia, 38 anos, não trabalhava e o nascimento do terceiro filho, uma menina, veio trazer desafios que até então não tinham sido equacionados. “Fez-se o clique”, comenta Nelson, e decidiu partir, a exemplo de outros colegas seus na mesma época.

A escolha da Suiça deveu-se ao facto de já lá se encontrar um cunhado, irmão de Sónia, que ajudou à integração. O processo, porém, não foi fácil para Nelson. Na zona de Aargau, onde a língua dominante é o alemão, o inglês que sabia de pouco ou nada lhe valeu. A cultura de trabalho Suíça, muito focada em objetivos e mais exigente, necessitou dele dedicação e sacrifício. Nelson quis ser independente e foi aprender alemão. “Fiz dois, três cursos pequenos que aproveitei ao máximo”, lembra. “A firma gostou de mim”, recorda, a integração estava a correr pela positiva e chamou a esposa.

A experiência de Sónia foi algo diferente. Sabia um pouco de italiano, mas também de pouco lhe serviu. Partindo para a Suiça com uma promessa de emprego assegurada, soube à chegada que uma outra portuguesa se apresentara ao serviço e lhe ficara com a posição. “Fiquei dois meses em casa sem nada que fazer”, lembra, com o peso no coração de ter deixado os três filhos em Portugal, um ainda bebé. Assim que conseguiu o primeiro trabalho foi buscar a filha mais nova, seguindo-se os mais velhos, de seis e oito anos, mal o ano letivo em Portugal terminou.

Atualmente a família vem duas vezes por ano a Portugal, uma pelo verão, fazendo a difícil viagem de 20 horas de carro. A Suiça, admitem, não obstante os bons ordenados, é um país extremamente caro. Já tentaram passar o Natal sem a família por terras helvéticas, mas, confessam, “não é a mesma coisa, nem parece Natal”. As redes sociais aproximam a Portugal, algo que não existia em gerações anteriores de emigração, mas continua a marcar a diferença regressar duas vezes por ano a Ferreira do Zêzere. “Vamos à praia, ver amigos. Aproveitamos ao máximo. Chegamos a ir mais cansados que o que viemos”, admite Sónia.

A realidade na Suiça mudou nesta última década. À chegada, Nelson praticamente não via portugueses. Entretanto, na sequência da crise de 2008, tornou-se fácil encontrar compatriotas pelas ruas, embora nem sempre as relações entre a comunidade lusa sejam as melhores, reflete. Só na empresa de Nelson há trabalhadores de Ourém, Torres Novas e Mação. “Toda a gente pensa voltar para Portugal. As reformas tornam-se baixas para a realidade suíça, mas aqui em Portugal são altas”, explica.

O casal nota atualmente uma tendência inversa, de regresso: com poucos anos de emigração, há muitos portugueses a voltarem para casa. O regresso da dinâmica de emprego pode ser um dos factores, mas também o tipo de vida que se tem quando se vive emigrado. “Lá vive-se um pouco para pagar as contas”, reflete Sónia, dando exemplos dos preços elevados que facilmente atinge uma simples ida ao restaurante. Em Portugal, constatam, apesar de tudo, tem-se mais qualidade de vida.

Nelson e Sónia pensam regressar a Portugal apenas pela reforma. Os filhos, constatam, talvez já não façam esse percurso. Bem integrados, com a respetiva formação profissional e bastantes perspetivas de vida na Suiça, a terra onde nasceram é cada vez mais e apenas um destino de férias.

Numa terra tão marcada pela emigração como Ferreira do Zêzere, amigos de escola encontram-se para narrarem as suas experiências pelos vários cantos do mundo. Nelson tem colegas na Bélgica, em Inglaterra, em Angola, Canadá, Chile ou EUA. Quando partiu, fez também o que muitos da sua geração estavam então a fazer, procurando oportunidades e realização pessoal além fronteiras.

“Também nos amadureceu conhecer culturas e pessoas novas”, comenta Nelson. Sónia vai mais longe e admite que sair de Portugal fez bem ao casamento. “O nosso casamento deu uma reviravolta”, adianta, com o casal a reaproximar-se um do outro e o marido a dedicar mais tempo aos filhos, algo que não sucedia, tentam explicar, uma vez que estavam ambos presos a uma mentalidade muito conservadora.

Hoje, refletem, são uma família muito mais unida por terem decidido partir.

Em 2019 Ferreira do Zêzere continua a estar na moda

A tendência de regresso de emigrantes não será assim tão evidente em Ferreira do Zêzere, mas o concelho, em particular a pitoresca aldeia de Dornes, estão claramente na moda. Segundo o presidente da Câmara, Jacinto Lopes, na quarta-feira de 7 de agosto, mesmo com o dia de chuva, pelas 15h00, os restaurantes ainda tinham fila de espera.

“O turismo aumentou e mesmo os emigrantes passam mais tempo na terra”, refletiu o autarca, em declarações ao mediotejo.net.

Por esta altura a população local duplica. Assim o confirmam os rácios de recolha de lixo e mesmo o consumo de água, exemplifica o presidente. A Festa do Emigrante é deste modo uma forma de “acolher os nossos emigrantes, dizer-lhes que gostamos deles e que estamos cá para quando quiserem regressar”, sintetiza.

Este ano o programa da Festa apresenta Fernando Daniel e Anjos como cabeças de cartaz, havendo uma sessão no sábado, dia 10, pelas 21h00, em que o município vai receber uma medalha da Liga dos Bombeiros Portugueses. O certame inclui uma mostra de empresas e tasquinhas, com abertura prevista para às 19h00 de 9 de agosto, sexta-feira.

O evento segue as linhas dos anos anteriores. Pelas 19h30 de sexta-feira há atuação do grupo de concertinas de Dornes, seguindo-se às 21h00 o concerto da Sociedade Filarmónica Frazoeirense. Às 22h30 atua a banda RH+, no palco tradição, e às 23h30 é a vez de Fernando Daniel, no palco principal.

No sábado, dia 10, pelas 08h00, decorre o mercado semanal. As tasquinhas e restantes expositores abrem pelas 17h30, com atuação do Grupo de Concertinas da Casa do Povo de Ferreira do Zêzere às 19h30, no palco tradição. Pelas 21h00, no mesmo espaço, sobe a palco o Grupo Unidos da Concertina. Os Anjos atuam no palco principal às 23h30.

No domingo, dia 11, o certame abre pelas 17h00, seguindo-se um Encontro de Folclore com o Rancho Folclórico Etnográfico da Vila de Pias, o Rancho Folclórico da Alegria do Alqueidão de Santo Amaro e o Rancho Folclórico do Bêco de Santo Aleixo. O Grupo Cantares do Zêzere atua às 19h30.

A Sociedade Filarmónica Frazoeirense torna a subir ao palco tradição pelas 21h00 e a Banda Réplika encerra os festejos a partir das 23h00 no palco principal.

Cláudia Gameiro

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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