Antiga escola primária da Barquinha, atual Galeria de Santo António. Foto: DR

Compulsando os vários documentos sobre este humilde poeta da Barquinha não encontramos muitas fontes que nos elucidem sobre a sua vida e sobre a sua obra. Importa relevar que estamos no início do século XX, tempos onde a frequência das crianças ao ensino básico era residual e a pobreza era recorrente.

 As parcas informações que possuímos são alcançadas das seguintes fontes: Jornal “O Pequenino” (1), jornal “O Moitense” (2), jornal “Gazeta do Tejo” (3) e de uma publicação do Centro Cultural e Recreativo Ribarca (4).

Perante os seus escritos vem-nos à memória o grande poeta popular António Aleixo (1899-1949). Segundo António Luís Roldão, Felipe Gonçalves Bento nasceu na Rua da Barca, n.º 46, na casa que abaixo podemos vislumbrar.

Foto: Google Mpas

O mesmo investigador diz que teve o privilégio de ler alguns dos seus escritos na casa do autor, mas como era muito jovem não tinha a preocupação do valor cultural das coisas, pelo que não acautelou, nem os vindouros o precaveram, o seu espólio. Este, infelizmente, perdeu-se para sempre pelo descuido dos homens, com exceção de alguns poemas recolhidos pelo saudoso barquinhense Quim Vieira.

Vejamos o que consegui apurar:

Do jornal “O Pequenino” de 1934, de 31 de julho de 1934, reedito: “Como Pérola incrustada num tosco e imperfeito pedaço de matéria, FELIPE GONÇALVES BENTO, possui um espírito culto a sobrepujar, em beleza, as deformações do seu estado físico… Numa revelação contínua de bons sentimentos, sofre resignadamente as agruras da sua sorte, sentindo que o mundo de tudo o torna prescrito. Sem pão e sem recursos, quase sem lar, aleijado e fraco, sente definhar-se lentamente, à mingua de tudo aguardando apenas a felicidade prometida pelo Deus em que crê, que outra justiça não conhece.”

Do jornal “O Moitense”, de 15 de março de 1937, reproduzo: “Faz em 13 do corrente, um ano que morreu Felipe Bento, que tanto sofreu em vida. Que saudades eu sinto pelo humilde poeta barquinhense! «Recordar é viver». E eu recordo a sua pessoa, a sua grande inteligência, o seu talento. Desafio o primeiro zoilo a desmentir o seu espírito culto, as suas belas qualidades morais. Que descanse em paz quem em vida foi tão meu amigo. JVG”

Da pesquisa aos registos da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), retirei o seu registo de batismo que possui a sua data de nascimento, a data de falecimento e a sua filiação.

Com base nestas fontes podemos rematar a sua biografia.

O poeta nasceu em 7 de fevereiro de 1907 e faleceu em 13 de março de 1936, com 29 anos de idade. Era filho de Maria José Gonçalves e de pai incógnito, conforme cópia de registo de batismo infra:  

Sabemos que nasceu deficiente motor ou aleijado o que condicionou toda a sua vida terrena. Nunca frequentou uma escola primária. Aprendeu a ler sozinho sem mestres e por ser autodidata aos 18 anos já sabia ler corretamente, mas não sabia escrever.

Com esforço e denodo conseguiu, posteriormente, fazer exercícios de escrita. Aos 27 anos veio a criar versos e prosa. Nunca foi reconhecido pelos poderes da sua época talvez devido à crítica social da sua escrita contra os poderosos e ao confronto social das injustiças da vida.

História penosa a deste ser humano, em que a força ausente e a austeridade económica constituíam obrigatória condição vivencial e perene de privação.

Lembro que estamos no tempo da Guerra Civil em Espanha e que em Portugal tivemos a seca de 1935-36, bem como a consociação negativa dos ciclos do azeite, do vinho e a ressaca da Campanha do trigo que conduziram o país a uma pequena recessão.

Não admira, pois, que em abril de 1936, o jornal “O Moitense” em primeira página, aborde a questão das crianças na rua, o auxílio a desempregados e o preço do Kg do pão, que naquele tempo passa de 1$60 para 1$70, valor que é mal recebido pela população assumindo o jornalista que o povo trabalhador se encontra exausto de recursos.

O poeta, apesar do emaranhado da vida inundada de carência, deficiente e sem pai, procurou criar com o seu talento uma personalidade sábia das diversas realidades da cultura e da sociedade barquinhense do seu tempo.

Importa, portanto, dar a conhecer o seu olhar, o seu sentir que trespassou a realidade do lugar onde habitou que é bem revelador de toda envolvência social, da situação, do seu tempo e do seu modo de vida.

Importa, ainda, memorar o sentir, o pulsar do desconforto social da época, a inquietação existencial, a consciência da sua fragilidade, a especificidade da condição humana, a insatisfação reinante, o desânimo, o inconformismo e até da revolta de um poeta pobre, mas honrado.

Partilho, alguns dos seus poemas:

A INSTRUÇÃO   Há uma luz que alumia Quer de noite quer de dia A mais densa escuridão. Essa luz tão fulgurante De todas ar mais brilhante É a luz da instrução   Pois ela só, e só ela. De todas a luz mais bela A luz que tem mais verdade. Há-de vir livrar das trevas Tantas criaturas cegas. Que só vivem da maldade…   E só então pela terra Todos olharão a guerra. Com desprezo e com desdém E livres então da dor Procurando com amor Só a prática do Bem.   Por isso loiras crianças álbum das minhas esperanças: Buscai a luz da Instrução Para que amanhã no mundo seja o amor mais fecundo, sem ódio e sem ambição.A ESCOLA   Se junto de uma escola eu passar E ouvir as crianças na lição Paro, entristeço e fico a pensar Nos pobrezinhos que não têm pão!   Mas sinto ao mesmo tempo que a tristeza Que a principio me invade o coração Se dissipa depois com a certeza De que é meio alimento a instrução   E sigo então pelo caminho fora Sem me esquecer jamais uma só hora O tempo que passei meditando   Junto daquele templo que é a escola Que toda a alma anima e consola. Que é o Amor e a luz de todo o mundo.  
NADA MAIS TRISTE Nada mais triste do que andar Cobertas de farrapos, quase nuas Tantas crianças, sempre a mendigar. Ao frio e ao calor por essas ruas!!!   Pois apesar de todo este horror Ainda há quem olhe com desdém. Aquele que procura com amor Fazer, aos pobrezinhos algum bem.   O bem é coisa que não podem ver Também os há assim na minha terra Quem tiver fome, à fome há-de morrer!…   E fingem praticar a caridade. Esses senhores que só fazem guerra. A quem procura o bem da HumanidadeNINHOS Ninhos são templos de luz Esparsos lá pelo ar São padre nossos de amor Feitos da luz do luar   Ninhos são templos sagrados Feitos só de melodias São igrejas onde as aves Cantam as Avé-Marias   Ninhos são quase berços de oiro Postos pelo arvoredo Onde as aves reunidas Falam de amor em segredo…   Ninhos são templos de luz Quem mos dera todos meus… Atirar pedras aos ninhos É atirá-las a Deus.  
SER POBRE Ser pobre mas honrado é condição A que ninguém jamais deve fugir! O rico só tem uma aspiração: Ter mais milhões para se divertir.   Ser pobre mas honrado é um condão Do homem que procura progredir O rico só tem uma ocupação contar dinheiro, luxar, comer, dormir!…   Feliz de todo aquele que viver Embora pobre cheio de miséria Lutando sempre pelo bem fazer.   Na nossa vida triste deletéria Ser pobre é principio a percorrer A estrada que conduz à Vida Etérea!    MELANCOLICOS Eu não sei que sentimento Me inspira a luz do luar Que nas noites luarentas sinto vontade de chorar   Deu meia-noite ainda á pouco Eis pois as horas que são… Mas a noite não tem fim Dentro do meu coração!…   O ribeirinho correndo Arrasta as pedras consigo Também eu no meu sofrer Arrasto as penas comigo!   Neste mundo de vaidades Que tanta vida consome Uns vivem podres de ricos E outros morrem de fome!   Eu tinha uma saudade Dentro do meu coração Porém, hoje, tenho tantas Que já nem sei quantas são
NOITE INVERNOSA   Noite invernosa. Ruge a tempestade A chuva “ping…ping…) continua Mas os pobres (eterna crueldade…) Lá continuam a dormir na rua   Maldade Humana!… Ei-la que flutua Num mar de hipocrisia e de vaidade! E desprezado o homem da charrua E festejado o homem que é cobarde.   Como é diferente a recompensa dada A quem trabalha e a quem não faz nada! Oh! infeliz de quem não tem padrinhos! …   A chuva cai … porém os pobrezinhos Os que trabalham…mas não têm cama. Lá continuam na lama.    A GUERRA   Maldita a guerra Que já de novo Paira sobre a terra Ameaça o povo!   Já o canhão berra Feroz, audaz! … Não queremos guerra Só queremos Paz!   Guerra traidora Destruidora, Visão maldita. …   Deixai o mundo O amor fecundo Paz infinita.  
Rua da Barquinha em 191? – Fotografia Alves

Fontes:

  • Jornal mensal, escolar, sobre a direção do Professor José de Oliveira Rebordão que permutou o jornal publicado na Barquinha com as escolas do país e até com o estrangeiro. “Um professor em evidência Não conhecemos pessoalmente o nosso colega da Barquinha, mas conhecemos o seu esforço, o seu trabalho e a sua alta dedicação pela Escola; isso nos basta para lhe tributarmos as nossas melhores simpatias e a nossa admiração. A sua Escola tem jornal, (O Pequenino») tem Caixa Escolar e tem cantina. Que mais preciso? Estes factos revelam eloquentemente o seu trabalho. Pela leitura de «O Pequenino» vemos quão elevado é o número de admiradores, e de auxiliares, que conta o nosso colega da Barquinha. Quer a «Саіха», quer a Cantina, estão recebendo hora а hora muitas dádivas e muitas inscrições de sócios com avultadas quantias. Também felicitamos o nosso colega pelo número de senhoras que ajudam a fazer triunfar as suas iniciativas, e pelo número de generosos assinantes que «О Реquenino» conta. [in Jornal “O mensageiro escolar “n.º 19, Azaruja, abril de 1933]
  • 2 Jornal “O Moitense”, n.º 2, de 15 de abril de 1936, n.º 13, de 15 de março de 1937, e n.º 50 de 15 de abril de 1940. 
  • Jornal Gazeta do Tejo, n.º 170, de 30 de janeiro de 2000, recolha de Quim Vieira.
  • Centro Cultural e Recreativo Ribarca. Tinha atividade desenvolvida desde 1983, embora o seu registo como pessoa coletiva fosse de 1 de abril de 1985. A publicação de recolha de poemas e prosa feita por Quim Vieira tem data de 13 de junho de 1991.

Fernando Freire, advogado de formação, é investigador da História Local e presidiu à Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha entre 2013 e 2025.

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1 Comment

  1. Há muitos números do jornal “O Pequenino” na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. O último número, de 1934, tem 6 poemas do poeta.

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