Feira Mourisca faz sucesso em Santa Margarida e abre portas a novas dinâmicas culturais. Foto: Salvador Santos

A feira mourisca, organizada pela associação Ermidas e Brumas, que integra a companhia Santa Margarida Teatro, primou pela qualidade, bom gosto e um profissionalismo elogiado pelas centenas de pessoas que passaram pelo evento ao longo dos dois dias.

A recriação histórica envolveu na abertura a bênção da carroça do pão, seguida da abertura das tasquinhas e das bancas de ofícios ao vivo, com o evento a contar, entre as 14h00 e as 24h00, com música medieval, animação e recriações teatrais, divididas em várias cenas, como o cortejo de casamento, a venda de escravos, jogos e torneios, a par de danças de roda e teatro para a infância.

A feira mourisca recriou ainda a cena da ‘Açoitada que renega o casamento’, e ‘O milagre com batismos de cristãos’, com a cena da ‘Morte Santa’, culminando com a encenação do cortejo fúnebre, com esconjuro e queimada da bruxa.

O evento e a recriação histórica contou com a participação de 12 elementos da companhia Santa Margarida Teatro, 22 voluntários da aldeia, 17 atores convidados e mais cinco músicos, do grupo Sacarrabos, numa verdadeira viagem pelo tempo.

O mediotejo.net entrevistou o presidente da associação Ermidas e Brumas, Flávio Tomé, que é também o diretor artístico da companhia. Tendo destacado o sucesso da estreia das atividades em Santa Margarida da Coutada, o responsável apontou a outros projetos, como peças de teatro, recriações históricas, contos e atividades de Natal, e, até, entre muitas outras ideias, o regresso de um concurso de vestidos Miss Chita Constância 2024-2025.

ÁUDIO | FLÁVIO TOMÉ, PRESIDENTE E DIRETOR ARTÍSTICO:

Entrevista a Flávio Tomé:

“Não é por acaso, nem é uma ideia que surgiu do nada. Portanto, nós, ao vir morar para a aldeia, qualquer ator quando se desloca para uma aldeia, traz a sua companhia, traz o seu espólio humano e material. Nós descendemos de uma associação que é a Lua Singular, foi fundada em 2009, em Sintra, com trabalho feito no país inteiro, de Lisboa, Cascais, Sintra.

Portanto, sempre na recriação em trabalhos de parceria com momentos, espaços de exposição e sempre a trabalhar em conteúdo histórico, por assim dizer. Quando chegamos a Santa Margarida, é claro que temos que criar logisticamente um novo grupo, nova associação que nos vai então representar nesta região, visto que mudámos para este concelho. Com esta associação criámos já então há três anos, a companhia de Santa Margarida da Coutada, porque é um exercício simples… vamos mudar para Santa Margarida, vamos criar um grupo de teatro.

É claro que envolve um espólio humano que são os atores e colegas de Lisboa, os atores e colegas de Tomar, onde estivemos também quatro anos a residir.  Agora, vindo definitivamente para Santa Margarida, criámos um espólio de atores e de pessoas que querem participar nos projetos, ajudando de várias maneiras, na produção, na construção das oficinas, como atores e figurantes.

Portanto, asseguramos um acervo que já vem connosco há alguns anos e agora com esta atividade, a Feira Mourisca, estreamos, brindamos a nossa aparição, passados já três anos, porque isto mudar o guarda-roupa, materiais, criar condições demora, na verdade, porque não é uma situação fácil de mudar.

Mas pronto, chegado de malas e bagagens, apresentar a companhia e os nossos projetos e a associação, brindamos então com este projeto. A Feira Marista porquê? Porque das várias leituras que fiz e de pesquisas que vou fazendo, surgiu a lenda de Santa Margarida e, claro, foi uma ideia simples de fazer uma representação, uma recriação histórica, uma representação teatral em jeito de feira. Com o aconchego de uma feira, de uma tasquinha, numa praça, num largo pequeno, que é muito aconchegante e parece que está a correr bem.

As pessoas têm aderido muito bem. A história é muito simples, porque conta com a ajuda das pessoas da aldeia e da terra e conta isto de uma forma muito simples, quase que criam quadros vivos, é uma encenação quase que visual para se inserir num espaço de tabernas, tasquinhas e vendedores. É muito visual mas é especial porque é muito emotivo ao mesmo tempo, quase que se pode dizer que é uma experiência imersiva e emotiva, para ser um bocadinho mais especial.

É um prazer poder contar… como vamos fazendo vários trabalhos ao longo do ano, com os parceiros que temos, trabalhamos por exemplo com os parques de Sintra, ainda uma quinta pedagógica, no Palácio de Queluz, Palácio de Monserrate, há um acervo de pessoas que trabalham connosco há muitos anos que, quando é necessário e quando não há muitos meios, ou mesmo quando não há, honestamente, dinheiro para pagar às pessoas, conseguimos encontrar-nos em momentos especiais como este, onde queremos estrear aqui uma ideia, uma sementinha.  É claro que as pessoas que me são queridas vêm sem hesitar, voluntariamente, como disse, bastantes atores e artistas.

Pronto, na verdade juntamo-nos em momentos especiais, não é em caso de aflição, é em casos especiais. Olha, não há dinheiro, mas gostávamos tanto de brincar a isto e vêm todos, claro que vêm, porque estamos todo o ano juntos e a trabalhar sempre e às vezes juntamo-nos só pelo convívio, porque sim.

Em termos dos músicos, contamos aqui com a presença do Sacarrabos por ser, na verdade, uma companhia assídua nos nossos projetos. Por exemplo, nas encenações no castelo de Leiria, nas recriações… os Sacarrabos são cinco elementos sempre fantásticos, cheios de energia, que fazem um favorzinho especial porque somos amigos de vários projetos e então, claro que vêm também brindar-nos com o seu talento, com o seu ritmo.

Depois, claro, contamos com as pessoas da aldeia e também os artesãos e os comerciantes que vieram e são especiais. Alguns são escolhidos, algumas barraquinhas e bancas são escolhidas por nós, porque em termos cénicos tem que ter um cariz muito especial.

Portanto, o André das plantas tem plantas muito específicas e tem um papel muito diferenciado. Temos, por exemplo, os cestos e o cesteiro que vem de Alcobaça, a família Inácio vem de Alcobaça com os cestos, temos também uns queridos que vêm de Espanha, que vêm com pedras e cristais, porque são coisas que temos que encenar e aproveitando as bancas, temos de criar 5 ou 6 que vêm construir o cenário e este imaginário desta altura. Depois com os da terra, também têm naturalmente produtos para mostrar, produtos regionais e da zona.

Contamos por exemplo com o fumeiro MF Salsicharia, de Rio de Moinhos, que é indiscutível… quando queremos fazer feijoada de bucho, sopa da pedra e porco no espeto temos de falar em MF Salsicharia.

Temos ainda a Goreti com os brinquedos e com a sua tenda imensa de receitas fantásticas para o imaginário das crianças. Fazem tudo isto, complementam uma visão de uma praça, de um largo, onde contamos uma história que é especial para todos nós aqui na aldeia.

O compromisso assumido com a Junta de Freguesia, e também com a Câmara Municipal de Constância, foi de ser uma experiência de testar a nossa capacidade de recriar uma cena ou um evento aqui no coração da aldeia. Ou seja, tentar fazer uma coisa divertida, tentar cumprir com uma encenação histórica da lenda, recriar um espaço de feira e o compromisso era uma experiência.

Vamos ver se funciona, se conseguimos receber pessoas, se a aldeia tem estrutura para receber pessoas, portanto, o princípio era falhar. Mas, não falhando, esta semente agora vai germinar, vai ser cuidada. O trabalho com as pessoas que fazemos à aldeia de um ano para outro irá crescer.

Naturalmente que a ideia de encenação e das encenações irá crescer. Os comerciantes serão provavelmente cada vez mais e assim se vai criando, com um passinho de cada vez, uma ideia de um imaginário que tem que ser específico. Na verdade, feiras medievais há muitas, mas esta lenda de Santa Margarida é especial, porque é uma história de um amor muito especial, mas é também para nós, e escolhemos esta ideia porque é um encontro de civilizações, mouros e cristãos e não foi só peleias, lutas e escaramuças. Foi também uma ligação forte de influências, desde a saúde, matemáticas, geografia, arquiteturas, as influências foram tantas deles para nós e de nós para eles, temos tanto em comum que é giro fazer aqui um encontro onde as civilizações mostram o que foi de bom.

Já desvendando e já para me comprometer com vocês a fazer mais, porque o desafio é a gente desafiar-se de projeto para projeto, em termos de caderno de atividades, podemos dizer, da associação, temos alguns algumas pérolas… esta é para manter, esta Feira Mourisca. Temos também “O Templarito”, um festival templário de palmo e meio, para crianças, à escala, se quisermos imaginar, de um Portugal dos Pequenitos, mas em acampamento templário, que poderá ser um festival ambulante, ou seja, vai à Barquinha, vai a Torres Novas, que vai Tomar.. ser um festival para as crianças e para a infância, numa forma de lhes passar toda a importância, o legado dos templários de uma forma muito simples e muito estruturada, para que comecem a perceber com histórias, com teatro e com animação o que foram os templários.

Depois temos também a ideia de fazer aqui na aldeia a Aldeia da Criança, que é no sentido do que se faz já em muito sítio, mas de uma forma especial, uma aldeia em ponto pequeno, onde se encontram os personagens, os seus ofícios e os pregões dos seus ofícios e dos seus produtos. Na verdade, é também criar uma aldeia em ponto pequeno.

Abraçar a infância e a juventude para nós são um ponto chave. Trabalhar o infantojuvenil é sempre uma pérola em todas as companhias. De resto, temos também já do trabalho de ser ensaiador das marchas aqui de Santa Margarida e de conhecer um grupo fantástico de pessoas e mulheres muito fortes, estamos a pensar criar também um espetáculo a Casa de Bernarda Alba com as mulheres da terra.

Portanto, um espetáculo que vai ser muito, muito forte porque o texto do Garcia Lorca é muito forte, e contado com mulheres do povo, com uma beleza especial porque não são atrizes, são melhores do povo, mulheres com os seus dia a dia, mas que, se tudo correr bem, se vão encontrar no pátio da Igreja de Santa Margarida, se houver autorização e se pudermos escolher um sítio muito forte, porque o pátio tem… não sei se é um carvalho, sobreiro enorme, a Igreja é linda. Então vamos contar a história dessa família, dessa mãe e dessas filhas que se fecham num luto muito severo e ter uma experiência forte também a nível de teatro.

Eu digo por graça, muitas vezes, eu venho só pelo convívio e ele faz falta numa era muito tecnológica, com muita distração e muito conteúdo, porque há televisões, telemóveis e computadores… mas as pessoas têm que se encontrar de vez em quando. Temos de promover a comunicação entre as pessoas, o encontro onde as pessoas possam sair para construir alguma coisa e se possam encontrar simplesmente para desfrutar, seja de uma história, seja do momento, ou seja, de alguma experiência diferente.

Vai haver mais projetos e agora com o Natal vamos fazer o Conto de Natal de Charles Dickens. Vamos ter um projeto de teatro infantil, com formas animadas já para este Natal. E, se tudo correr bem, pasmem, o grande concurso dos vestidos de Chita Miss Constância 2024-2025″.

Feira Mourisca – A lenda de Santa Margarida

DRAMATURGIA

Algures no séc. XII no alto da coutada, junto à aldeia surge uma lenda que a todos vai encantar. A jovem Margarida, filha de D. Afonso Mendo e Brites, vê-se obrigada a casar por ordem de seu pai com um nobre Mouro de sangue real, o qual nega e recusa por amor a Cristo e à fé Cristã.

Como castigo e punição foi açoitada, privada de comer e beber, até que foi decapitada por vontade de seu marido. A Jovem morre, por amor e fé lá no alto daquela coutada, por admiração o povo carregou-a nos braços por ser tão bondosa construiu-se ali mesmo um altar onde foi colocada…

O altar fez-se Ermida, que se fez capela que se fez igreja. Margarida mártir fez-se Santa Margarida da Coutada e com o passar dos anos e dos séculos a aldeia recebeu seu nome e é Ela a padroeira do lugar.

Nesta Recriação pretende-se, com as gentes do Município e da Freguesia, recriar/ encenar esta lenda, relembrando também de uma forma singular o modo de vida de outros tempos, aquando da ocupação dos mouros em Portugal.

A organização indica que, “ao relembrar ofícios e profissões de outra era, desvendamos tesouros e heranças neste encontro entre dois povos que viveram e partilharam a mesma historia. Mouros e Cristãos juntos uma vez mais para relembrar que nem toda a história são guerras e batalhas: a partilha de saberes e sabores tornam-nos um povo de misturas ancestrais e de fé, uma fé que dá lugar a todos.

ENTRANDO NA HISTÓRIA

“Na Antiguidade, os romanos denominavam “mauros” (em latim: mauri) às populações que habitavam a região noroeste da África, que por sua vez designavam de Mauritânia.

Estas populações pertenciam a grupo étnico maior, o dos berberes, que posteriormente, à época da expansão islâmica (século VII), vieram a adotar esta religião, muitos dos quais adotando mesmo a língua árabe, além do idioma nativo.

Estas populações juntaram-se aos árabes na conquista da Península Ibérica durante o século VIII. A chamada “civilização moura” ou “civilização mourisca”, que floresceu na Idade Média, era predominantemente árabe.

Com o avanço do processo da Reconquista, os mouros perderam grande parte de seu território na Península no final do século XIII. Em 1492, os Reis Católicos conquistaram o Reino de Granada e expulsaram os últimos mouros da Península. A maioria dos refugiados estabeleceu-se no norte de África.

Desse modo, a palavra “mouro” pode referir-se a todos os habitantes do noroeste da África que são muçulmanos ou falam o árabe ou, ainda, aos muçulmanos de origem espanhola, judaica ou turca que vivem no norte da África. Em francês,

“maure” (mouro) designa os nómades da região do Saara Ocidental.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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