“Já há alguns meses que havia esse receio e notícias do eventual fecho da fábrica mas nunca esperámos ouvir essa notícia na quinta-feira passada. É uma notícia amarga para muitos trabalhadores, que já estão lá há muitos anos, e acaba por ser um pau de dois bicos: ainda têm idade par trabalhar mas para procurar emprego acabam já por ser um bocadinho velhos para a atividade profissional”, disse Ana Manique, tendo feito notar que muitos dos trabalhadores, “durante muitos anos, alguns dos quais durante 30 ou 40 anos, só faziam isto” e é o que sabem fazer.
A fábrica da multinacional Tupperware em Portugal, a funcionar desde 1980, dependia a 100% da casa-mãe norte-americana, com o anúncio do pedido de declaração de insolvência a ter consequências diretas na unidade portuguesa, e que vai deixar no desemprego os 200 trabalhadores que ali eram efetivos, a maioria dos quais residente na freguesia de Montalvo e limítrofes.
“São 200 trabalhadores efetivos, a maior parte deles da freguesia de Montalvo e, em alguns casos, o fecho da fábrica vai afetar famílias inteiras”, disse Ana Manique, tendo indicado que vão ter “um Natal triste” e uma “entrada no ano 2025 com a incerteza em termos do seu futuro”. Se o ordenado de dezembro e o subsídio de Natal estão pagos, e as contas em dia, os valores da indemnização relativas ao despedimento, que variam consoante os anos de trabalho de cada funcionário, ainda não é certo que seja pago, como é de direito.
“Só no dia 7 de janeiro, véspera do fecho da fábrica, vamos saber se nos pagam o que temos direito ou se teremos de recorrer a um advogado, o que é uma situação injusta depois de mais de 20 anos a trabalhar nesta fábrica”, contou ao nosso jornal um dos funcionários, manifestando “apreensão” sobre o seu futuro.
Para a presidente da junta de freguesia, o fecho da fábrica tem efeitos “preocupantes” em termos sociais mas afeta outros setores da dinâmica de Montalvo. “Afeta os trabalhadores, em primeiro lugar, afeta Montalvo, sendo a Tupperware uma marca identitária da freguesia, e afeta a restauração, o turismo e a habitação”.
ÁUDIO | ANA MANIQUE, PRESIDENTE JF MONTALVO:

Ana Manique, que disse acreditar que a multinacional vai pagar tudo aquilo a que os trabalhadores têm direito, afirmou que a junta de freguesia, através da sua secretaria, vai apoiar, informar e ajudar a encaminhar os trabalhadores para conseguirem encontrar novos caminhos para conseguirem subsistir, e manifestou um pensamento positivo com uma mensagem de Boas Festas.
“Vamos esperar que venha alguma coisa substituir a fábrica da Tupperware e dinamizar estas instalações. Fecha-se uma porta mas vamos esperar que se abram novas janelas de oportunidade para estes trabalhadores”, afirmou a responsável pela junta de freguesia.

O presidente da Câmara de Constância foi o primeiro a dar a notícia, na manhã de sexta-feira, numa publicação nas redes sociais. “É uma notícia triste para o concelho de Constância e para toda a região. A Tupperware, ao longo destes anos, tem tido um papel muito importante no número de postos de trabalho, diretos e indiretos”, disse Sérgio Oliveira.
“A Câmara Municipal de Constância tomou conhecimento que no dia de quinta-feira foi comunicado aos trabalhadores da empresa que a mesma encerrará a 8 de janeiro de 2025. Face a esta situação difícil para o nosso concelho e para a nossa região, deixamos uma palavra de solidariedade a todos os trabalhadores e respetivas famílias”, escreveu o autarca Sérgio Oliveira, na página oficial do município.
Em declarações à Lusa, na sexta-feira, o autarca disse que decorreu na véspera uma reunião com os trabalhadores da Tupperware onde foi comunicado pelos responsáveis que a fábrica só estará a laborar até 8 de janeiro. Será o último dia e os 200 trabalhadores que lá estão serão despedidos”, disse o presidente do município de Constância.
Tendo feito notar que “a Câmara Municipal e os seus serviços estão disponíveis para ajudar e apoiar os trabalhadores dentro daquilo que for possível”, Sérgio Oliveira disse ter sido “surpreendido” como o anúncio do fecho da fábrica e que depositava expectativas noutro desfecho.

ÁUDIO | SÉRGIO OLIVEIRA, PRESIDENTE CM CONSTÂNCIA:
Diversos partidos políticos e dirigentes sindicais manifestaram ao longo dos últimos meses preocupação com a incerteza sobre o futuro dos 200 trabalhadores da fábrica da Tupperware em Montalvo, tendo criticado a “falta de informação” sobre o processo de falência da multinacional.
O Governo, através do Ministério da Economia, disse estar a “acompanhar de perto” a situação da fábrica da Tupperware, em Montalvo, cujo encerramento foi anunciado na sexta-feira, e “apoiar” os 200 trabalhadores que vão para o desemprego. O PS e os sindicatos exigiram, por sua vez, medidas de ação urgentes ao governo, com o presidente da autarquia a lamentar o desfecho.
“Estamos atentos e a seguir muito de perto a notícia do encerramento da fábrica da Tupperware. O Ministério da Economia está em contacto com a Câmara Municipal de Constância e em articulação com o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, no sentido de apoiar estes trabalhadores”, disse à Lusa o secretário de Estado da Economia, em resposta enviada por escrito às questões colocadas sobre a empresa e os trabalhadores.
João Rui Ferreira, na mesma informação, indica que a tutela está “a trabalhar para aumentar a competitividade” das empresas.
“Continuamos a trabalhar para aumentar a competitividade das nossas empresas de forma a estarem preparadas para a conjuntura atual e para os desafios futuros”, declarou o governante.
Já os deputados do Partido Socialista (PS) eleitos por Santarém defenderam uma “intervenção urgente” por parte do Governo face ao anúncio do encerramento da fábrica da Tupperware.
Em comunicado, os três eleitos do PS – Hugo Costa, Alexandra Leitão e Mara Lagriminha – defendem que “a situação justifica a articulação direta com o setor empresarial e o poder local, com o objetivo de proteger os trabalhadores, mitigar as consequências socioeconómicas e assegurar um contexto de sustentabilidade a médio e longo prazo” para Constância e para a região.

“Sem um apoio adequado e célere, o risco de agravamento social, económico e territorial poderá ter consequências irreversíveis para a economia local”, alertam os deputados.
Os eleitos do PS apresentaram na sexta-feira, 20 de dezembro, na Assembleia da República, um conjunto de perguntas ao Governo, dirigidas à ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e ao ministro da Economia sobre os apoios aos trabalhadores.
“Que medidas imediatas de apoio social estão a ser implementadas para apoiar as famílias em situação de maior vulnerabilidade económica” e que “ações concretas estão a ser tomadas para apoiar os trabalhadores no acesso ao subsídio de desemprego e para promover a requalificação e reintegração no mercado de trabalho dos trabalhadores afetados”, foram algumas das questões colocadas.
Os eleitos lembraram ainda a importância dos trabalhadores estarem “plenamente informados sobre os seus direitos e os recursos disponíveis” e questionaram sobre as “ações concretas” a implementar pelo Governo para “mitigar os impactos socioeconómicos no concelho de Constância, nomeadamente ações específicas de apoio à recolocação dos trabalhadores afetados ou a atração de novos investimentos industriais” para a região.
“Além da perda imediata de postos de trabalho, o declínio do poder de compra resultante da situação fragiliza o comércio e os serviços a jusante, potencia dificuldades financeiras para fornecedores locais e ameaça a sustentabilidade de outras pequenas empresas, agravando o risco de um efeito dominó no tecido económico regional”, sinalizam os deputados do PS.
À data, indicam, “o Ministério da Economia assegurou estar a acompanhar a situação, sem, no entanto, ser do conhecimento público que diligências foram tomadas”, tendo defendido uma “ação urgente” e concertada.
“A realidade vivida em Constância demonstra, ainda, “a necessidade de uma ação urgente e coordenada entre o Governo, as autarquias e os demais agentes económicos e sociais, tendo em vista atenuar os efeitos negativos e, se possível, encontrar soluções estruturais para revitalizar o tecido industrial nacional, garantindo a manutenção de postos de trabalho, a coesão territorial e a resiliência económica regional”, concluem.
Também o SITE-CSRA manifestou preocupação com o futuro dos trabalhadores da Tupperware, tendo defendido a intervenção do governo e do Ministério do Trabalho na proteção social e económica.
“O Estado, e o próprio Ministério do Trabalho, deveria assumir uma postura diferente sobre o assunto porque são 200 trabalhadores, que arrastam atrás de si famílias, com todo o impacto que isto possa ter para a economia local e nacional, e isso preocupa-nos”, disse na sexta-feira Ricardo Rodrigues, do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e Atividades do Ambiente do Centro-Sul e Regiões Autónomas (SITE-CSRA).
“Também sabemos que o município já tomou algumas iniciativas mas, o que é certo, é que até à data do fecho da fábrica a empresa mantém uma postura fechada, de não diálogo, e daí que eu também ache que os organismos públicos com responsabilidade deveriam intervir e de uma forma muito mais ativa”, declarou o dirigente sindical.
Ricardo Rodrigues já havia antecipado à Lusa que “o encerramento da Tupperware, caso se concretizasse, significaria um drama para as centenas de trabalhadores” e “seria igualmente desastroso para o concelho de Constância, para a região e para o país”, tendo defendido que o problema “deve merecer a maior atenção e tomada de medidas por parte do Estado e, em particular, do Governo”.

A Tupperware Brands iniciou voluntariamente o processo do Capítulo 11 no Tribunal de Falências de Delaware, e terá conseguido em outubro a aprovação do tribunal para continuar a operar e facilitar um processo de venda para proteger a marca.
Segundo a AP, um juiz de falências dos EUA aprovou a venda da Tupperware Brands, abrindo caminho para que a empresa saia da proteção do Capítulo 11 e continue a oferecer os seus produtos enquanto passa por uma reestruturação.
A venda estava ainda sujeita a condições de fecho. Segundo os termos do acordo, um grupo de credores está a comprar a marca Tupperware e vários ativos operacionais por 23,5 milhões de dólares em dinheiro e mais de 63 milhões de dólares em redução da dívida.
A Tupperware concordou com a aquisição do credor em outubro, e disse que espera operar como The New Tupperware Co. após a conclusão do negócio.
