Ato de Consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria, no Santuário de Fátima. Fotografia: Agência Ecclesia

Um mês depois do início da guerra na Ucrânia, o Santuário de Fátima encheu-se como há muito não se via para assistir ao Ato de Consagração da Ucrânia e da Rússia ao Imaculado Coração de Maria.

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e bispo de Leiria-Fátima, D. José Ornelas, fez a primeira oração na Capelinha das Aparições, perante milhares de fiéis, pouco depois das quatro da tarde.

Eram 17h26 quando o cardeal polaco Konrad Krajewski, enviado especial do Papa Francisco a Fátima para presidir à cerimónia que decorreu em simultâneo com a realizada na Basílica de São Pedro, em Roma, começou a ler em italiano a mensagem escrita pelo Papa, lamentando que os homens tenham esquecido “a lição das tragédias do século passado e o sacrifício de milhões de mortos nas guerras mundiais”.

O cardeal Konrad Krajewski, enviado especial do Papa Francisco a Fátima. Fotografia: Paulo Cunha/Lusa

“Descuidamos os compromissos assumidos como Comunidade das Nações e estamos a atraiçoar os sonhos de paz dos povos e as esperanças dos jovens. Adoecemos de ganância, fechamo-nos em interesses nacionalistas, deixamo-nos ressequir pela indiferença e paralisar pelo egoísmo”, dizia em Roma o Papa Francisco, perante uma imagem de Nossa Senhora de Fátima.

O Papa Francisco na cerimónia de consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria. Fotografia: Vatican News

“Perdemos a humanidade, malbaratamos a paz. Tornamo-nos capazes de toda a violência e destruição. Temos necessidade urgente da vossa intervenção materna.”

“Apagai o ódio, acalmai a vingança, ensinai-nos o perdão; libertai-nos da guerra, preservai o mundo da ameaça nuclear”.

“Enquanto o rumor das armas não se cala, que a vossa oração nos predisponha para a paz; Que as vossas mãos maternas acariciem quantos sofrem e fogem sob o peso das bombas.”

“O povo ucraniano e o povo russo, que Vos veneram com amor, recorrem a Vós, enquanto o vosso Coração palpita por eles e por todos os povos ceifados pela guerra, a fome, a injustiça e a miséria. Por isso nós, ó Mãe de Deus e nossa, solenemente confiamos e consagramos ao vosso Imaculado Coração nós mesmos, a Igreja e a Humanidade inteira, de modo especial a Rússia e a Ucrânia. Acolhei este nosso Ato que realizamos com confiança e amor. Fazei com que cesse a guerra, providenciai ao mundo a paz”.

Terminada a sua oração em Roma, o Papa depositou um ramo de flores junto à imagem de Nossa Senhora de Fátima.

“Religião pode ajudar ao diálogo”, diz Presidente da República

Marcelo Rebelo de Sousa marcou presença nesta cerimónia especial em Fátima e, no final, destacou que “o grande momento emocionante desta consagração” foi quando se rezou um mistério do terço nas línguas ucraniana e russa.

“Isso significa que é possível haver diálogo e deve haver ultrapassagem das armas e o encontro da paz”, destacou, considerando que o Papa Francisco “tem feito tudo o que é possível para que isso seja uma realidade”.

O Presidente da República assistiu à cerimónia entre os fiéis, em Fátima. Fotografia: Paulo Cunha/Lusa

À pergunta se o Papa daria um moderador eficaz para o conflito que opõe Kiev a Moscovo, Marcelo Rebelo de Sousa observou que Francisco “faz os contactos que devem ser feitos e, ao fazer isso, está a intermediar”, assinalando que “a Santa Sé tem uma diplomacia que, muitas vezes não é visível, mas é muito eficaz e é uma diplomacia que tem centenas de anos”.

Sobre o papel que as igrejas Católica e Ortodoxa podem ter na paz entre os dois países, o Presidente da República declarou não ter dúvidas que é importante, considerando que o diálogo entre todas “é fundamental e pode facilitar o diálogo entre os líderes”.

Esta consagração foi feita um mês após a ofensiva militar que a Rússia lançou na Ucrânia e que causou já, entre a população civil, mais de um milhar de mortos e a fuga de 10 milhões de pessoas, das quais 3,7 milhões saíram já para os países vizinhos, segundo os mais recentes dados das Nações Unidas.

As consagrações a Fátima, do Papa Pio XII a Francisco

A história das consagrações do mundo, e da Rússia em particular, ao Coração Imaculado de Maria, começa em 1942, quando Pio XII o faz numa radiomensagem em português no encerramento da celebração dos 25 anos das Aparições de Fátima.

Desde então, foram várias as ocasiões em que os pontífices – Pio XII, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco – o fizeram, em resposta à mensagem que os videntes de Fátima – Francisco, Jacinta e Lúcia – terão recebido de Nossa Senhora na Aparição de julho de 1917:

“Para impedir a guerra virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos Primeiros Sábados”.

“Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”, escreveu a Irmã Lúcia nas suas “Memórias”.

Em carta a Pio XII, em 1940, Lúcia pediu ao pontífice que cumprisse o pedido da Virgem, tendo o papa consagrado o mundo e a Igreja ao Imaculado Coração de Maria, em 31 de outubro de 1942, renovando a consagração da Rússia, em 07 de julho de 1952, gesto que foi repetido em 21 de novembro de 1964, por Paulo VI, na presença dos participantes no Concílio Vaticano II, como recordou a agência Ecclesia.

Em 25 de março de 1984, foi a vez de João Paulo II presidir à consagração do mundo ao coração de Maria, no Vaticano, diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima, venerada na Capelinha das Aparições, a mesma que, em 2000, colocou entre os bispos de todo o mundo, consagrando-lhe o terceiro milénio.

Em 13 de outubro de 2013, coube ao papa Francisco consagrar o seu pontificado a Nossa Senhora de Fátima, no Vaticano, diante da imagem da Capelinha das Aparições, transportada excecionalmente para a Praça de São Pedro, num pedido que tinha sido feito pelo seu antecessor, Bento XVI.

O Papa João Paulo II consagrou toda a Humanidade a Maria, a 25 de março de 1984. Créditos: Vatican News

Cronologia

31 de outubro de 1942 Pio XII fez consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria em radiomensagem em português no Encerramento da Celebração dos 25 anos das Aparições de Fátima;

08 de dezembro de 1942 Pio XII renovou a consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria, na Basílica de S. Pedro;

07 de julho de 1952 Pio XII publica a Carta Apostólica “Sacro Vergente Anno”, na qual são consagrados explicitamente “todos os povos da Rússia” ao Coração Imaculado de Maria;

21 de novembro de 1964 Paulo VI, no discurso de encerramento da terceira Sessão do Concílio Vaticano II faz a renovação da Consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria;

07 de junho de 1981 João Paulo II, em radiomensagem a partir da Policlínica Gemelli, em Roma, onde recupera do atentado sofrido na Praça de São Pedro, em 13 de maio desse ano, “consagra e confia à Mãe dos homens e dos povos a inteira família humana para que a tome sob a Sua proteção Materna”;

08 de dezembro de 1981 João Paulo II repete, na Basílica de Santa Maria Maior a Consagração anterior (Ato de Consagração da Igreja e do Mundo a Maria Santíssima na festividade da Imaculada Conceição);

13 de maio de 1982 João Paulo II, em Fátima, faz a consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria;

16 de outubro de 1983 João Paulo II, durante o Ângelus, repete o texto da Consagração efetuada em maio de 1982 em Fátima;

25 de março de 1984 João Paulo II, em Roma, diante da Imagem de Nossa Senhora de Fátima venerada na Capelinha das Aparições, em união com todos os bispos, faz a consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria;

13 de maio de 1991 João Paulo II, em Fátima, faz a renovação da “consagração filial do género humano”;

08 de outubro de 2000 João Paulo II procede ao ato de consagração a Maria Santíssima, no Jubileu dos Bispos, em Roma;

12 de maio de 2010 Bento XVI, em Fátima, faz a consagração dos Sacerdotes ao Imaculado Coração de Maria;

13 de outubro de 2013 Francisco faz consagração a Nossa Senhora de Fátima no final da Missa por ocasião da Jornada Mariana, no “Ano da Fé”.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.