O fenómeno religioso de Fátima celebra o seu centenário com a visibilidade mediática internacional exponenciada pela visita do Papa Francisco.
Em tempo de centenário o foco tem de ser necessariamente a fé que este território, do maciço calcário estremenho, acolhe de crentes de todo o mundo, não sendo o tempo para nos debatermos sobre a fundamentação científica e racional dos relatos que estiveram na sua origem.
A fé é uma questão que é vivida por muitos, não toca outros, mas por todos deve ser respeitada. Não pode ser instrumento de radicalizações injustificadas no nosso contexto civilizacional como infelizmente acontece nos últimos tempos fazendo lembrar outros períodos da historia da humanidade.
Em Fátima o fenómeno da fé fez o seu percurso, afirmando-se para os portugueses e para o mundo de um modo que não aconteceu em situações ocorridas, por exemplo, na proximidade como o caso de Nª. Sra. da Ortiga na mesma freguesia, ou na Santa da Ladeira no vizinho concelho de Torres Novas, tal como em muitas outras situações conhecidas.
A hierarquia da Igreja Católica validou e criou as condições para a sua afirmação beneficiando dum contexto histórico e politico favoráveis ao seu desenvolvimento, e a globalização dos últimos anos deu um contributo forte para a sua larga expressão no mundo católico internacional.
Da história e do contexto surgem algumas narrativas que o tempo tem necessariamente de retificar e em especial recuperar, em particular, a imagem de vilão atribuída ao administrador do concelho de Vila Nova de Ourém à época das “aparições”.
Artur Oliveira Santos era um distinto republicano, um homem bom, de espírito humanista, que por força das suas funções administrativas teve de conduzir o processo de inquérito aos pastorinhos, mas não foi um vilão que os prendeu e ameaçou de fritar numa frigideira.
Esse legítimo representante da administração pública, pelo contrário, acolheu-os no seu lar junto da sua mulher e filhos partilhando com eles as suas refeições, e a sua mulher cuidou de alguns pormenores da higiene das próprias crianças. A reparação da sua imagem na história é uma exigência de verdade e de justiça.
O Papa Francisco é o líder que a Igreja Católica e o Mundo precisam nestes tempos tão conturbados. Marcou o nosso tempo com a encíclica” Laudato Si” sobre as questões da sustentabilidade do planeta e da humanidade e todos os dias dá exemplos de coerência e de exigência na relação entre a doutrina e aquela que tem de ser a sua vivência, repescando na história outras figuras marcantes na afirmação duma liderança de humildade carismática e determinante, para a Paz e Esperança de todos os povos.
Reduzir a sua vinda a Fátima à validação de fenómenos de difícil explicação, relatados nas “aparições” aos pastorinhos, é de uma profunda injustiça para com este Homem que todos os dias nos surpreende pela sua coragem e pelo seu exemplo.
O Papa Francisco, pelo que representa e tem demonstrado, reforça com a sua vinda a Fátima a vocação ecuménica que aqui tem sido encontrada, transcendendo a religião católica e transformando este local como polo de peregrinação de crentes de diversas religiões.
A sua marca afirmará que Fátima é prioritariamente um destino de peregrinação e só depois eventualmente um destino turístico.
