Nossa Senhora de Fátima. Fotografia: Arlindo Homem

Por iniciativa do Papa Francisco, decorre hoje em simultâneo, em Fátima e em Roma, a cerimónia de Consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria.

A Celebração da Penitência inicia-se às 16h00, sendo em Fátima presidida pelo cardeal Konrad Krajewski, como Legado Pontifício. A Consagração a Maria será realizada às 17h30 pelo Papa Francisco, que convidou bispos de todo o mundo pare se unirem numa oração pela paz.

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“Nesta hora, a Humanidade, exausta e transtornada, está ao pé da cruz convosco. E tem necessidade de se confiar a Vós, de se consagrar a Cristo por vosso intermédio. O povo ucraniano e o povo russo, que Vos veneram com amor, recorrem a Vós…”.
Esta será uma das passagens centrais da oração que o Papa Francisco vai proferir esta tarde, e que foi divulgada previamente pelo Vaticano.

A história das consagrações do mundo, e da Rússia em particular, ao Coração Imaculado de Maria, começa em 1942, quando Pio XII o faz numa radiomensagem em português no encerramento da celebração dos 25 anos das Aparições de Fátima.

Desde então, foram várias as ocasiões em que os pontífices – Pio XII, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco – o fizeram, em resposta à mensagem que os videntes de Fátima – Francisco, Jacinta e Lúcia – terão recebido de Nossa Senhora na Aparição de julho de 1917:

“Para impedir a guerra virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos Primeiros Sábados”.

“Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”, escreveu a Irmã Lúcia nas suas “Memórias”.

Em carta a Pio XII, em 1940, Lúcia pediu ao pontífice que cumprisse o pedido da Virgem, tendo o papa consagrado o mundo e a Igreja ao Imaculado Coração de Maria, em 31 de outubro de 1942, renovando a consagração da Rússia, em 07 de julho de 1952, gesto que foi repetido em 21 de novembro de 1964, por Paulo VI, na presença dos participantes no Concílio Vaticano II, como recordou a agência Ecclesia.

O Papa João Paulo II consagrou o mundo a Maria, perante a imagem de Nossa Senhora de Fátima, a 25 de março de 1984. Créditos: Vatican News

Em 25 de março de 1984, foi a vez de João Paulo II presidir à consagração do mundo ao coração de Maria, no Vaticano, diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima, venerada na Capelinha das Aparições, a mesma que, em 2000, colocou entre os bispos de todo o mundo, consagrando-lhe o terceiro milénio.

Em 13 de outubro de 2013, coube ao papa Francisco consagrar o seu pontificado a Nossa Senhora de Fátima, no Vaticano, diante da imagem da Capelinha das Aparições, transportada excecionalmente para a Praça de São Pedro, num pedido que tinha sido feito pelo seu antecessor, Bento XVI.

Cronologia das Consagrações a Maria

31 de outubro de 1942 Pio XII fez consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria em radiomensagem em português no Encerramento da Celebração dos 25 anos das Aparições de Fátima;

08 de dezembro de 1942 Pio XII renovou a consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria, na Basílica de S. Pedro;

07 de julho de 1952 Pio XII publica a Carta Apostólica “Sacro Vergente Anno”, na qual são consagrados explicitamente “todos os povos da Rússia” ao Coração Imaculado de Maria;

21 de novembro de 1964 Paulo VI, no discurso de encerramento da terceira Sessão do Concílio Vaticano II faz a renovação da Consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria;

07 de junho de 1981 João Paulo II, em radiomensagem a partir da Policlínica Gemelli, em Roma, onde recupera do atentado sofrido na Praça de São Pedro, em 13 de maio desse ano, “consagra e confia à Mãe dos homens e dos povos a inteira família humana para que a tome sob a Sua proteção Materna”;

08 de dezembro de 1981 João Paulo II repete, na Basílica de Santa Maria Maior a Consagração anterior (Ato de Consagração da Igreja e do Mundo a Maria Santíssima na festividade da Imaculada Conceição);

13 de maio de 1982 João Paulo II, em Fátima, faz a consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria;

16 de outubro de 1983 João Paulo II, durante o Ângelus, repete o texto da Consagração efetuada em maio de 1982 em Fátima;

25 de março de 1984 João Paulo II, em Roma, diante da Imagem de Nossa Senhora de Fátima venerada na Capelinha das Aparições, em união com todos os bispos, faz a consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria;

13 de maio de 1991 João Paulo II, em Fátima, faz a renovação da “consagração filial do género humano”;

08 de outubro de 2000 João Paulo II procede ao ato de consagração a Maria Santíssima, no Jubileu dos Bispos, em Roma;

12 de maio de 2010 Bento XVI, em Fátima, faz a consagração dos Sacerdotes ao Imaculado Coração de Maria;

13 de outubro de 2013 Francisco faz consagração a Nossa Senhora de Fátima no final da Missa por ocasião da Jornada Mariana, no “Ano da Fé”.

Nossa Senhora de Fátima. Fotografia: Arlindo Homem

Novo livro sobre Pio XII lembra primeira consagração da Rússia

O ato de consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria, que hoje decorre em Roma, com ligação a Fátima, não é o primeiro a envolver a pátria de Putin.

A primeira vez que a Rússia foi consagrada ao Imaculado Coração de Maria aconteceu em outubro de 1942, pelo papa Pio XII, depois de Lúcia, uma das videntes de Fátima, se ter dirigido diretamente ao pontífice por carta.

“Em várias comunicações íntimas, Nosso Senhor não tem deixado de insistir neste pedido, prometendo ultimamente – se Vossa Santidade se dignar fazer a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, com menção especial pela Rússia (…) – abreviar os dias de tribulação com que tem determinado punir as nações de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de várias perseguições à Santa Igreja e a Vossa Santidade”, escreveu a vidente na carta ao papa, em plena II Guerra Mundial.

O episódio é recordado pelo historiador José de Carvalho no seu novo livro “Pio XII, o Papa Amigo do Portugal de Salazar”, que será lançado na terça-feira.

Esta primeira consagração foi feita numa radiomensagem em português: “Aos povos pelo erro ou pela discórdia separados, nomeadamente aqueles que Vos professam singular devoção, onde não havia casa que não ostentasse a Vossa veneranda ícone (hoje talvez escondida e reservada para melhores dias), dai-lhes a paz e reconduzi-os ao único redil de Cristo (…)”.

José de Carvalho, no seu livro, sublinhou que, “nesta altura, o Papa consagrou a Igreja e o género humano ao Imaculado Coração de Maria, ato renovado a 08 de dezembro. Mas o texto fazia apenas uma alusão velada à Rússia, sem a mencionar explicitamente”.

“Em carta de 04 de maio de 1943 ao padre Gonçalves, a Irmã Lúcia afirmou ter tido outra revelação de Nosso Senhor, prometendo ‘o fim da guerra para breve, em atenção ao ato que Sua Santidade se dignou fazer. Mas, como ele foi incompleto, fica a conversão da Rússia mais adiante’”.

Dez anos depois, em 07 de julho de 1952, Pio XII, “plenamente convencido de que era necessário corresponder aos apelos da Mãe de Deus, consagrou os povos da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, sem associar os bispos do mundo, na sua Carta Apostólica Sacro Vergente Anno”, recordou o autor da biografia “Pio XII, o Papa Amigo do Portugal de Salazar”.

Segundo o testemunho dos videntes de Fátima, na aparição de 13 de julho de 1917, Nossa Senhora ter-lhes-á dito: “Para impedir a guerra virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos Primeiros Sábados”.

“Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”, escreveu a Irmã Lúcia nas suas “Memórias”.

No seu livro, José de Carvalho recordou as várias consagrações do mundo ao Imaculado Coração de Maria até ao pontificado do Papa Francisco e dá a conhecer as ligações de Eugénio Pacelli (Pio XII) a Fátima, desde logo pelo facto de ter sido ordenado bispo no dia da primeira aparição na Cova da Iria, em 13 de maio de 1917.

O livro faz uma incursão, também, pelo papel do Papa Pio XII durante a II Guerra Mundial, defendendo que “embora o Papa seja acusado de não ter feito o suficiente, de não se ter oposto ao Holocausto, de forma clara e direta, nem ter denunciado os horrores do regime nazi, foi o homem certo para conduzir a Igreja num período de grandes perturbações e conflitos”.

“Após escrever esta biografia, fiquei com uma certeza: o Papado de Pio XII é de uma complexidade sem igual neste fascinante mundo da História. Para uns, o ‘Papa de Hitler’. Para outros, o ‘Papa dos Judeus’. Para nós, portugueses, o ‘Papa de Fátima’, o Papa que amou Portugal e os portugueses. O Papa que esteve para exilar-se em Portugal. Mas também o Papa da Concordata, o Papa amigo de Salazar, o Papa amigo de Cerejeira”, considerou José de Carvalho.

*Com Lusa

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