A família Prior estabeleceu-se na Matagosa nas últimas décadas do século XIX, quando João António Prior, natural da Boafarinha, concelho de Vila de Rei, casou com Maria Rosa Dias Gaspar, com quem teve duas filhas. Esta descendência também mereceria a nossa melhor atenção, não fosse o objetivo deste texto dar a conhecer a ação da família Prior na Matagosa e nas suas imediações.
Após o falecimento de João António Prior, ainda bastante jovem, o seu irmão, José António Prior, desposou a viúva daquele e desta união nasceram seis rebentos (Acácio António Prior, Maria dos Prazeres Gaspar Prior, Isaura Gaspar Prior, José António Prior, Gabriel António Prior e Joaquim António Prior), alguns dos quais, pela sua ação, ficaram particularmente conhecidos no norte do concelho de Abrantes e também no concelho de Vila de Rei.
Os irmãos Acácio, Gabriel e Joaquim Prior, apesar de terem vivido parte considerável da sua vida em Lisboa e viajado por outras partes do mundo, por serem oficiais da Armada Portuguesa, dedicaram uma atenção especial à sua terra e, após o enchimento da Barragem de Castelo de Bode, em 1951, vislumbraram, desde cedo, o potencial turístico da região.
Esta perspetiva foi defendida publicamente por Acácio António Prior, enquanto Presidente da Junta de Freguesia do Souto, exatamente em meados do século XX. Note-se que, nesta altura, a Freguesia do Souto era a segunda mais populosa do concelho, com mais de cinco mil habitantes, logo a seguir a S. Vicente.
A família Prior foi determinante para que se tenha construído um belo fontanário (1950) e uma elegante capela, em honra de Nossa Senhora da Conceição (edificada em 1951/52 e consagrada a 27 de setembro de 1953), na Matagosa, e um novo edifício escolar (1962), na Matagosinha.
Foi, porém, Joaquim António Prior, o mais novo dos irmãos, solteiro e médico otorrinolaringologista da Marinha, aquele que mais se destacou, pela sua ação cultural.
Em 1964, materializando o sonho de Joaquim António Prior, foi inaugurado o Penedo Furado (concelho de Vila de Rei, ainda que próximo da Matagosa), com os seus miradouros, cascatas e piscinas naturais, encravados no maciço rochoso denominado Bufareiras/Fragas do Rabadão.
Com o apoio dos mecenas da família Prior, construíram-se escadas e caminhos, afixou-se sinalética, escreveram-se, entre penedos, as quadras com as lendas ouvidas e criadas pelo oficial da Marinha. A Bicha Pintada, conhecida por poucos, ganhou fama, justificou romagens ao local e, passados todos estes anos, já desencadeou vários estudos, mesmo no seio da comunidade universitária. A ideia de que por aqueles rochedos havia tesouros fazia sorrir muita gente, mas aqueles que como eu estudaram na Matagosinha, na década de setenta, recordam a seriedade das palavras sonhadoras do velho senhor e conhecem os recantos que nos mostrou, bem como as pedras escondidas a que reconhecia especial valor.

Em 1974, foi a vez de darem corpo à obra do “Castelo”, como é conhecido localmente. No topo do alto monte sobranceiro à Matagosa, à direita de quem se desloca, pela albufeira, da aldeia para o Penedo Furado, a família Prior mandou edificar o monumento a Cristo Rei, com uma grande estátua de mármore a representar Jesus Cristo, encimada por duas enormes placas de betão. Para além deste monumento, surgiram, posteriormente, um relevo a homenagear a mulher portuguesa, em que terá sido usada como modelo Maria Rosa Gaspar, a progenitora desta geração, e também uma grande âncora, a evocar a expansão marítima dos séculos XV/XVI.
Quando solicitamos aos mais idosos alguma informação acerca da família Prior, contam-nos histórias do tempo em que não havia ainda automóveis por estas paragens (o primeiro viria a ser adquirido por esta família), em que recordam o “Tenente Acácio Prior” (chegou a Contra-Almirante) a deslocar-se para a sua casa na Matagosa no seu cavalo branco. Dizem-nos que era um homem muito educado, dirigindo-se mesmo aos mais pobres de forma respeitosa.
Ora, a família Prior deu especial valor ao património natural desta região, valorizando-o da forma que lhe pareceu mais adequada. Trouxe também, de Lisboa, elementos patrimoniais de valor. Para além da âncora que se encontra no monumento ao Cristo Rei, fizeram deslocar para a Matagosa um dos portões do antigo Mercado da Praça da Figueira (demolido em 1949), o qual passou a dar acesso à sua residência.

Homem de cultura, Joaquim António Prior, o mais novo dos irmãos e o último a falecer, nos seus últimos anos de vida convidou jovens da região para o acompanharem a Lisboa a visitar variadíssimos espaços culturais, ofereceu enciclopédias e outros livros a bibliotecas e associações que surgiram na região e propôs vezes sem conta, às populações locais e às autoridades, a abertura de estradas em redor da albufeira de Castelo de Bode, na proximidade da água, neste braço da antiga ribeira do Codes.
Passados estes anos, a abertura recente de algumas vias com estas características e a definição da Grande Rota do Zêzere (menos ambiciosa no traçado do que a que propunha o velho oficial da Armada) provam bem que estamos a falar de alguém que viveu muito à frente do seu tempo. O mesmo pode ser visto na atitude ecologista que o caracterizava quando apontava o dedo a quem caçava ou pescava nos períodos de veda.
O norte do concelho de Abrantes e o concelho de Vila de Rei tinham, especialmente até meados do século passado, uma afinidade e uma proximidade que, em larga medida, a albufeira de Castelo de Bode veio cortar. Ainda assim, quando esta transformação parecia trazer as populações destas aldeias da freguesia do Souto para o Sardoal e Abrantes, a família Prior persistiu em querer orientá-las ainda no sentido de Vila de Rei.
Desde cedo foi alcatroada a estrada entre a Matagosa e o Brescovo, enquanto a ligação entre a Matagosa e S. Domingos só viria a ser asfaltada no final do século passado. Seria por esta família ser originária de Vila de Rei? Talvez, mas terá sido sobretudo porque os “Priores”, como por ali são conhecidos, saberem que entre aquelas fragas e conheiras há mouras encantadas de que é necessário cuidar e que ainda vão dar muito que falar.


Falta dizer quer se goste quer não, que o Presidente da República Américo thomaz era descendente desta família.
História é História e é para ser contada.
É para rir?!
Diz lá Pimenta: era filho, neto, bisneto?
Espero que o Zé Martinho, desminta isso!…..
Os avós do antigo Presidente Américo Tomas, estão sepultados no cemitério do Souto.