Foto: AdinaVoicu, Pixabay

Não estive de modas e, apesar do feriado, fiz o que me é costume. Passei pela livraria, escrevinhei um pouco, desencantei uns manuscritos, ajeitei o Herculano, lá afaguei o Camilo, aprimorei o Eça e assim terei evitado qualquer ponta de ciúme entre os bustos cá do sítio. Sobrou o sobrolho do poeta, mas a esse não cheguei, que não era dia para tanto.

Era sim, dia da espiga, feriado aqui pelo burgo e talvez aparecesse o Mário. Talvez se lembrasse de mim e com ele viesse um raminho, que ele, nos campos por onde vagueia, vai colhendo e oferecendo a quem entende ou lhe apetece.

Foi assim já noutros anos e o Mário não se tem esquecido. Tarde ou cedo, a espiga aparece, umas vezes mais composta se o tempo para isso dá, outras envergonhada se a chuva a vai definhando. Desta vez, cá fui esperando, mas do Mário nem um vislumbre. Lembrei-me de S. Gião. Confesso que nunca lá fui, lá àquele piquenique. Dizem que é coisa boa, que vale mesmo muito a pena. Que os miúdos se divertem e os crescidos se amiúdam. Mas a mim e ao meu feitio não me dá para aquelas coisas. Sou assim mais de estar sentado, sem barulhos nem confusões, à espera que o trigo nasça ou que a papoila cresça, aqui mesmo no meio dos livros.

Enquanto esperava, ia pondo a escrita em dia. Mas desta vez, nem o Mário, nem o trigo, nem a papoila. E assim, antes do regresso a casa, deliciei-me com o belíssimo texto do António Matias Coelho. Li e reli “A Espiga e a Ascensão na Tradição Ribatejana”:

“… três espigas de trigo, três malmequeres amarelos e três papoilas, mais um raminho de oliveira em flor, um esgalho de videira com o cacho em formação e um pé de alecrim ou de rosmaninho florido. As espigas querem dizer fartura de pão; os malmequeres, riqueza; as papoilas, amor e vida; a oliveira, azeite e paz; a videira, vinho e alegria; o alecrim ou rosmaninho, saúde e força…”

Inspirado, lá me fui. Parei à beira da estrada e de rascunho na mão, por entre oliveiras e pássaros, fui tentando completar o bouquet: três espigas de fartura de pão, três papoilas de amor e vida e três malmequeres de riqueza. Tudo regado com azeite e vinho bom, força e saúde qb, paz e alegria possíveis. Ó Matias, tudo isso num só raminho?

Andei pelo campo, colhi o trigo, as papoilas e o raminho de oliveira. Lá roubei um esgalho de videira. Vi-me e desejei-me para encontrar alecrim ou rosmaninho. Bem suei e transpirei, mas malmequeres, nem vê-los. Antes assim, pensei eu.

Afinal, faltou-me o Mário que terá ido a outras bandas, a gente que mais merece. De resto, tenho tudo o que preciso. Só me faltam os malmequeres. Tenho tudo, valha-me isso…

Adelino Pires nasceu em Portalegre, em 1956, num dia de solstício de verão. Cresceu no Tramagal e viveu numa mão cheia de lugares. Estudou, inspirou, transpirou, e fez acontecer meia dúzia de coisas ao longo do tempo. Alfarrabista no centro histórico de Torres Novas, gosta do que faz e faz o que gosta. Mais monge que missionário, cronista nalguns jornais, publicou um livro em 2015 (“Crónicas Com Preguiça”). É nos seus escritos vadios que, no dia a dia, vai olhando o que sente.

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