Sabes que num ano foram devolvidas 40 crianças entregues para adoção?
Devolvidas? Só o termo já me incomodada… Devolvem-se crianças?!…
Pelos vistos é algo relativamente comum. Notícias anteriores a esta dizem que acontece a cerca de 20 crianças por ano. Mas entre agosto de 2015 e agosto de 2016 houve 40 casos. Duplicou!
Para além da situação, incomoda-me a expressão ‘devolver’. Parece que estamos a tratar de objetos, que têm um prazo de devolução, como uma peça de roupa.
Na verdade, parece que num período de pré-adoção, de seis meses, isso pode acontecer. E acontece pelas mais variadas razões, que nem sempre são fáceis de avaliar.
Desculpa lá… também se pode devolver filhos biológicos? A quem? Pode haver muita gente que, depois de os ter, sinta que não foi feito para ser pai ou mãe. Que se tenha arrependido. Que não aguente com as doenças. Que não suporte o mau feitio.
Vá, não leves as coisas aos extremos. Pode haver razões para que um casal ou um indivíduo chegue à conclusão que, afinal, a relação com a criança que lhes foi confiada não funciona. E, assim sendo, é preferível assumir o mais rápido possível.
Achas? Mesmo? Andaram a brincar aos pais e às mães?
Sabes, as coisas nunca são só pretas ou só brancas. Como eu costumo dizer, há muitos tons de cinzento.
Pois, está bem! Mas se temos um sistema de adoção tão complexo e demorado, alguma coisa não está a correr bem quando 40 crianças, num ano, voltam para as instituições ou para as famílias de acolhimento por opção dos ‘promitentes adotantes’.
Parece que estás a falar de um contrato…
E estou! Devia ser um contrato para a vida! Os filhos não se escolhem e todos conhecemos casos de filhos que foram verdadeiros problemas para os pais, que nunca desistiram deles.
Mas sabes que, precisamente por as relações entre pais e filhos serem do mais complexo que há, é que os técnicos tentam fazer o ‘matching’ da melhor forma possível.
‘Matching’?!? Outro termo irritante usado nestas coisas…
É disso que se trata: ver qual a criança que melhor se adapta a cada casal ou indivíduo que se propôs adotar.
Então não devia ser o contrário? Procurar a família mais indicada para cada criança?
Sim, imagino que assim seja! Ou então será uma combinação das duas coisas. Daí o ‘matching’.
Eu é que não queria ter essa responsabilidade de fazer esse ‘matching’!
Nisso concordo contigo! Porque o ser humano continua a ser um mistério profundo. Há reações que não conseguimos explicar. Quando somos confrontados com uma possibilidade, é uma coisa, quando essa possibilidade se concretiza, é outra coisa.
Isso é tudo verdade, mas não explica que algumas pessoas possam devolver crianças por razões levianas.
Pois não! Tens razão quando falas em razões levianas. Algumas já foram relatadas, como a estória aberrante da família que devolveu uma criança porque o cão não gostava dela…
Estás a ver? Isso é insuportável!
O problema é que não podemos achar que todas as devoluções sejam de ânimo leve.
Mesmo que não sejam! Já imaginaste a sensação de rejeição que aquela criança vai sentir, depois de, provavelmente, já ter passado por situações bem difíceis?
Claro que posso. Mas também terás que tentar perceber que pode haver razões que justifiquem que alguém que se propôs adotar uma criança tenha que a entregar porque os pressupostos se alteraram. Por exemplo, se um dos membros do casal morre. Ou se deixam de ter condições económicas por uma eventual situação de desemprego. Ou se a criança tem uma doença com a qual não conseguem lidar.
Ai é?! Então quando alguém fica viúvo ou viúva, com filhos biológicos pequenos, o que lhes faz? Ou se ficam sem dinheiro ou se a criança é doente? Dão para a adoção?
