A falta de médicos de família continua a assombrar as populações de norte a sul do país, com o facto a provocar mais constrangimentos em freguesias e municípios do Interior do país com maior necessidade de cuidados médicos e acompanhamento permanente, nomeadamente por que os utentes são na sua maioria população mais envelhecida.
O problema arrasta-se desde início do ano, e outros casos se verificaram devido a aposentações de médicos que deixaram vagas por preencher em postos médicos como o de Mouriscas e o de Alvega, mas com tentativas para solucionar as faltas com médicos colocados a tempo parcial pelo ACES Médio Tejo. No caso de Alvega, que mantém serviços de enfermagem e administrativos também condicionados, há consulta uma vez por semana e pode demorar mais de um mês a espera por uma marcação e consequente atendimento médico.
Porém, em Rio de Moinhos as coisas são mais graves, pois não tem sequer tido consultas médicas este ano, havendo apenas serviço de enfermagem e secretaria duas vezes por semana.
O deputado João Paulo Rosado (PSD) voltou a alertar, cinco meses após ter abordado o tema em Assembleia Municipal, que a situação continua na mesma.

“A população de Rio de Moinhos e parte da população de Aldeia do Mato e Souto não têm médico de família. Estamos perante uma população idosa e carente deste serviço básico de saúde. As pessoas que necessitam de médico estão a dirigir-se a Abrantes de madrugada e correm o risco de ir para o Hospital de Abrantes entupir as urgências, como aliás acontece em todo o país”, começou por descrever.
“Proponho que a Câmara Municipal de Abrantes e a Junta de Freguesia de Rio de Moinhos encontrem uma solução semelhante a outras localidades onde existem consultas de médico de família pelo menos duas vezes por semana. Ou estão à espera que, gradualmente, as pessoas peçam transferência para Abrantes, se forem aceites, claro. Tenho percebido que também não há vagas. E assim o problema vai-se resolvendo por ele mesmo. Quando já não houver pessoas, já não é preciso médico”
Também sobre o assunto, pronunciou-se o presidente de junta de Rio de Moinhos, Rui André (MIFRM), que referiu se esta a “principal preocupação da Assembleia de freguesia de Rio de Moinhos e da população”.
“No início do ano o médico aposentou-se e já não temos consultas, nem a população de Rio de Moinhos nem parte da população de Aldeia do Mato e Souto”, sublinhou, perguntando ao presidente da Camara Municipal de Abrantes “que respostas o Sr. Presidente e o executivo municipal podem dar aos utentes da extensão de saúde de Rio de Moinhos acerca desta problemática”.

Manuel Jorge Valamatos (PS) interveio, respondendo que este é um problema nacional, e referente à falta de médico de família em Rio de Moinhos lembrou que a responsabilidade deve ser partilhada e que deve existir união de esforços.
“Estamos os dois metidos nisto, não coloque a questão só para cima de mim. Porque o senhor tem tanta responsabilidade como eu”, afirmou o edil Manuel Jorge Valamatos.
O autarca deu conta de estar a trabalhar neste assunto juntamente com a vereadora com o pelouro da saúde. “Um dos assuntos que temos em mãos, e estive hoje com a vereadora Raquel Olhicas e temos procurado trabalhar nisso de forma incessante, é a questão dos médicos de família”, adiantou, frisando tratar-se de “um problema nacional” mas que “é evidente que se expressa de forma mais aguda em determinados municípios”.

O presidente de Câmara introduziu, durante a intervenção, a intenção de um projeto de uma USF no norte do concelho que faz parte do plano de ação socialista em Abrantes.
“Nós temos este pensamento de construção de uma USF a norte do concelho. Não pretendemos esvaziar o que quer que seja, nem pretendemos ‘engordar’ o que quer que seja… precisamos criar os modelos organizativos de acordo com aquilo que são as soluções e melhores estratégias. Estamos a trabalhar de forma cirúrgica para resolver esta situação em Rio de Moinhos. Na próxima semana teremos conversações com o ACES do Médio Tejo, e temos vindo a resolver, mas debaixo de uma grande pressão e com grande sacrifício”, notou.
Manuel Jorge Valamatos sublinhou, ainda assim, que esta não é uma competência das autarquias locais, mas sim da Administração Central, crendo que o poder local não pode estar sempre a substituir o dever do Estado.

“Não é uma competência da CMA. Estamos neste momento a concretizar a transferência de competências na área da saúde no que toca aos equipamentos, assistentes operacionais… não podemos andar a substituir o Estado a todo o tempo. Mesmo assim fazemos muito e o Estado central sabe disso. E o poder local precisa verdadeiramente de ser respeitado”, concluiu o autarca.
Na mesma sessão da Assembleia Municipal, também o presidente de junta de Tramagal se queixou de recorrentes encerramentos do centro de saúde da vila, por carência de médico, situação que leva muitas pessoas a terem de se deslocar à USF de Rossio ao Sul do Tejo para terem acesso a cuidados de saúde.
Refira-se que em abril deste ano faltavam 31 médicos de família para 55 mil utentes do ACES Médio Tejo, um défice que representava 24% da população sem médico de família atribuído. Até ao dia 1 de abril, já haviam saído 13 médicos de família, mas apenas dois tinham entrado.
Em julho, a Comissão de Utentes da Saúde do Médio Tejo (CUSMT) reivindicou em Abrantes por mais médicos de família. Em Abrantes, segundo dados apontados nesta concentração, 9990 utentes não tinham médico de família atribuído num universo de 35.362 pessoas.
