O Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Médio Tejo tem atualmente 24% da população sem médico de família atribuído, cerca de 55 mil utentes, com as aposentações a agravarem um défice que é hoje de 31 profissionais.
“Neste momento temos 55 mil utentes sem médicos de família, o que corresponde a 24% dos utentes inscritos e frequentadores”, disse em Abrantes a diretora executiva do ACES Médio Tejo, Diana Leiria, dando conta que estão em falta 31 profissionais para servir a região, situação que gera um “impacto enorme” na população e que tem sido agravada nos últimos anos por um défice entre a entrada de médicos e as saídas por aposentação.
Segundo a responsável, o ano passado houve “22 médicos a sair e apenas nove entradas por concursos”, e, este ano 2022, “até ao dia 1 de abril, já saíram 13 médicos e apenas entraram dois”, tendo feito notar ser “muito difícil fazer face a este défice”.
ÁUDIO | DIANA LEIRIA, DIRETORA EXECUTIVA ACES MÉDIO TEJO:
Diana Leiria falava aos jornalistas na quarta-feira, à margem de uma visita ao Gabinete de Saúde Oral da Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados de Abrantes, no Centro de Saúde de Alferrarede, e às instalações da Unidade de Cuidados na Comunidade onde foram realizadas obras de remodelação do espaço interior para a criação de gabinetes para a saúde pública, num município onde a falta de médicos afeta cerca de oito mil pessoas.

“Para os oito mil utentes sem médico de família em Abrantes nós temos quatro médicos a trabalhar connosco, três prestadores de serviços e uma médica aposentada que aceitou fazer contrato connosco, ainda que a tempo parcial”, afirmou, tendo feito notar que tal permite “manter uma série de extensões abertas”, e assegurar “consulta de recurso para todos os utentes sem médico, de manhã e à tarde”, até que se consiga reforçar o quadro.
A solução de recurso aplicada em Abrantes é extensível aos 11 municípios abrangidos pelo ACES Médio Tejo, sendo que Diana Leiria deu conta da previsão de mais aposentações até ao final do ano, e de uma realidade que revela um quadro clínico com desequilíbrio geracional, com médicos muito novos e outros em idade de aposentação.
“Também é certo que houve aqui um “boom” nos anos 80 de colocação de médicos, que neste momento estão-se todos a aposentar, e nós aqui no ACES Médio Tejo sofremos muito com isso”, notou, dando conta que o ACES “tem vindo a tentar minimizar sempre que possível este impacto e a falta de médico, recorrendo um bocadinho, também, à prestação de serviços, e também recorrendo à oferta de contratos a todos os médicos que se aposentam”.

“Não há médico nenhum que se aposente nesta casa que eu não lhes esteja logo a telefonar mal saía a aposentação a pedir para ficar connosco e a tentar negociar no sentido de ficar. Por vários motivos. Primeiro porque efetivamente é um problema, não temos médicos de família em número suficiente e por outro lado, porque são pessoas muito válidas, especialistas, com muita experiência, muito habituados à medicina geral e familiar e, portanto, são uma mais-valia. Temos vindo a tentar fazer isso. Temos também tentado demonstrar e a nossa tutela está conhecedora disso, das nossas dificuldades e necessidades, temos vindo a fundamentar a necessidade de vagas e vamos aguardar agora para ver quantos médicos conseguimos recrutar”, disse Diana Leiria, que deu conta ainda de uma aposta na vertente formativa.
“A nossa grande aposta tem sido sempre na formação específica, porque os médicos já de si fazem um curso de seis anos, depois fazem a formação geral de mais um ano, sete anos, e depois vêm fazer a formação específica, portanto a gente ou os apanha nessa altura, altura em que se decidem casar, ter filhos e tentar fixá-los e fazer com que gostem de estar no nosso território e gostem de estar nas nossas unidades, ou então será muito mais difícil depois no futuro recrutar”, defendeu.
Com cerca de 55 mil utentes atualmente sem médico de família, a situação agudizou-se no ACES do Médio Tejo nos primeiros meses deste ano, devido à aposentação de 13 profissionais, sendo que, com 31 médicos atualmente em falta, a perspetiva é que o número irá “inevitavelmente aumentar”, uma vez que, para este ano, a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) disse à Lusa haver um total previsto de 25 médicos que “atingiram, ou irão atingir, a idade da aposentação” neste ACES.
“Durante este ano irão ainda decorrer os concursos de acesso à carreira especial médica de Medicina Geral e Familiar, nos quais, certamente, nos irão ser atribuídas vagas que esperamos vir a conseguir preencher. Até lá, temos recorrido quer à contratação de médicos aposentados, quer à prestação de serviços médicos, de forma a chegar ao maior número de utentes e, desta forma, tentar minimizar as dificuldades de acesso à prestação de cuidados médicos”, disse à Lusa fonte da ARSLVT.
Em declarações aos jornalistas, o presidente da Câmara de Abrantes disse que “sempre esteve e estará disponível para ser parte da solução e não do problema”, tendo lembrado que o município de Abrantes assinou, em março, o auto que concretiza a transferência das competências para a autarquia no âmbito da Saúde, continuando a ser o Governo a deter competência e responsabilidade quanto à contratação e gestão do profissional médico e de enfermagem.
“Estamos disponíveis para encontrar as melhores estratégias com o Ministério da Saúde e com o ACES Médio Tejo para minimizar o problema e para ajudar a procurar as soluções para captar médicos, enfermeiros e técnicos de saúde para que possam desenvolver a sua atividade profissional em Abrantes”, disse Manuel Jorge Valamatos (PS).
ÁUDIO | MANUEL JORGE VALAMATOS, PRESIDENTE CM ABRANTES:
O ACES Médio Tejo tem 2.706 quilómetros quadrados e abrange 11 municípios com cerca de 225 mil utentes/frequentadores, sendo composto pelos municípios de Abrantes, Alcanena, Constância, Entroncamento, Ferreira do Zêzere, Mação, Ourém, Sardoal, Tomar, Torres Novas e Vila Nova da Barquinha.
C/LUSA

