Foto: mediotejo.net

A exposição, coordenada por Fernando Coimbra, arqueólogo e especialista no período romano, contou ainda com o lançamento de um catálogo pormenorizado, que transpõe e consolida uma mostra que veio encaixar numa das salas do museu, junto dos elementos que se fundem com o património e a identidade cultural ortiguense, nomeadamente a sua relação com a arte da pesca e com o Rio Tejo.

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A sala conta com painéis informativos e explicativos, além de expositores com diversos objetos, achados arqueológicos das últimas décadas divulgados a público de forma inédita, que permitem uma relação com o passado do território, nomeadamente em tempos da presença romana, em especial no Vale do Junco, sítio arqueológico da freguesia de Ortiga, que será palco de novas escavações em maio de 2023, depois de as últimas escavações ali terem decorrido em 1986, pela mão de Rogério Carvalho.

Diversos artefactos e objetos divididos por diferentes temáticas, da agricultura à tecelagem, e também à metalurgia, construção, cerâmica, artes, alimentação, religião e equipamento militar, onde se dá destaque logo na entrada à estatueta de bronze, que é capa do catálogo alusivo a esta mostra, e que foi recolhida pelo arqueólogo Félix Alves Pereira, em 1921, no sítio de Vale do Junco.

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Na inauguração, o arqueólogo Rogério Carvalho, nascido em Torres Novas há 74 anos, deu conta da sensação de estar a retomar os trabalhos de investigação e escavação no Vale do Junco, 36 anos depois de ali ter sido o último arqueólogo a dirigir esse trabalho.

Ao mediotejo.net manifestou agrado por se voltar a estudar a estação arqueológica do Vale do Junco, “aquilo que revelou através do espólio dos primeiros trabalhos penso que é um grande desafio cotinuar a escavar um sítio que oferece pelo menos uma problemática, de contextualizar o Vale do Junco com a romanização desta região, não esquecendo que estamos também a face de um município que é Aritium Vetus, e que com certeza deve ter tido grande papel na romanização de todo este território”.

Para o arqueólogo “os achados em si são de menor importância”, pois o mais importante passa pelo registo dos achados.

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“Uma escavação arqueológica é sempre uma leitura definitiva. Está-se a ler e a destruir o que se está a ler. Isto é como aquele livro do Gabriel García Márquez, «Cem anos de Solidão», em que o livro vai desaparecendo à medida que se vai lendo. E no fundo qualquer escavação arqueológica é a leitura de um achado, enquanto que um arquivo de papel pode ser lido e interpretado ‘n’ vezes, a escavação arqueológica não permite senão aquela interpretação. Independentemente do material em si – e obviamente que os materiais são importantes – mas é necessário proceder ao registo meticuloso porque quem vier a seguir, como neste caso com as novas escavações, certamente vão ter que partir das anteriores interpretações”, explicou Rogério Carvalho.

Luiz Oosterbeek, diretor do Museu de Mação, presidente da direção do Instituto Terra e Memória, também investigador e docente do IPT, valorizou na inauguração da exposição os “projetos de proximidade à comunidade, pensando nas pessoas” e relevou os desafios e diferenças que se colocam no acesso à cultura atualmente.

Perante a exposição, mencionou decorrer do “trabalho feito há longo de décadas, olhando para um sítio arqueológico muito importante na região”, o Vale do Junco, em Ortiga.

Recordou que Rogério Carvalho foi um dos arqueólogos que mais trabalhou no sítio, mas antes, lembrou, outros houve, como Bairrão Moleiro e Maria Amélia Horta Pereira, dois vultos da arqueologia em Portugal.

Terminou sublinhando tratar-se de um “sítio muito importante” e que “vai dar trabalho” sendo um sítio romano, pois “tem certas exigências e complexidades pelas estruturas e dimensão, irá requerer muita prudência”.

Quanto à exposição, disse tratar-se de uma mostra do que resultou o trabalho em décadas anteriores, e que se verifica neste sítio “o início da consolidação de um modo de vida rural” com o Vale do Junco a representar “um modo de vida de pescadores/agricultores de beira-rio, com capacidade de subsistência por via de produção artesanal para necessidades básicas e depois integração comercial em redes mais amplas”.

Para Oosterbeek, “esta realidade leva a pensar sobre o que pode ser o futuro dos territórios”, uma vez que “se durante tanto tempo se encontrou um modo de vida relativamente estável, com uma certa orientação, se calhar essa orientação não está tão errada, como às vezes se pensa, numa sociedade muito urbanizada, mas que depois nessa urbanização leva com tudo em cima, da pandemia às guerras”.

Este é um momento relevado também pela autarquia maçaense, que apoia o desenvolvimento das iniciativas do Museu, tanto em termos de dinamização e divulgação do espólio, como no lançamento das novas escavações.

Vasco Estrela, presidente da Câmara de Mação, disse crer que a nova exposição vem “demonstrar e mostrar aquilo que foi o trabalho de muitos no passado” e que se trata de uma “primeira homenagem a todos aqueles que contribuíram para a descoberta dos artefactos e não só”, demonstrando “gratidão” a quem tomou decisões que contribuíram para estas descobertas.

Quanto ao sítio arqueológico de Vale do Junco, frisou ser tempo de “olhar para o futuro”, tendo sido lançado desafio à equipa do Museu para retomar as escavações, e assegurando “todos os cuidados necessários, com autorizações que já tivemos, e investimento por parte da CM Mação”.

“Devemos continuar o trabalho que outros já fizeram no passado, e assim enriquecer a história desta freguesia e do nosso concelho”, afirmou o edil.

Fotografia das escavações nos anos 80, dirigidas por Rogério Carvalho. Foto: mediotejo.net

“É com muita satisfação que estamos a proceder a mais uma inauguração no Núcleo Museológico de Ortiga”, notou o autarca, admitindo que este novo museu era um objetivo que tinha desde os mandatos iniciais, em que se pudesse “criar um polo de homenagem às pessoas da freguesia que trabalharam a arte da pesca e não só”.

Mostrou “satisfação de ver o espaço vivo, com dinamismo” e fez votos que a sua dinâmica “possa ser um bom motivo para que as pessoas possam vir visitar este núcleo para que o investimento da autarquia possa fazer sentido”, desejando ainda sucessos nos trabalhos que se vão iniciar no terreno.

Por fim, deixou agradecimento às pessoas de Ortiga, tomando por certo que irão colaborar para o alcance de objetivos do projeto anunciado.

Já o presidente de Junta de freguesia não escondeu a satisfação com o sucedido e disse que este tipo de iniciativa “é muito boa para a freguesia” e algo que vê com bons olhos. “É bom ver esta continuidade. A exposição que está agora a decorrer tem que ver com o passado e o que já se conseguiu escavar. A partir de maio haverão novas escavações, e mais objetos serão encontrados. Será sempre bom não só para a Ortiga, mas para o concelho e para o país”, adiantou.

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O Núcleo Museológico de Ortiga, a cumprir dois anos de existência, superou as expetativas e tem tido uma boa adesão, com dinamização do Museu de Arte Pré-Histórica e do Sagrado do Vale do Tejo, de Mação, sendo atração especialmente para grupos de visitantes, segundo o presidente de junta, Rui Dias.

O espaço é acarinhado pela população da freguesia, e inclusive, refere o presidente, até os utentes do lar de idosos já ali se deslocaram.

Rui Dias relevou a nova dinâmica instalada na freguesia para aproveitamento turístico, dentro e fora da época balnear, referindo que a autarquia “está de parabéns por se ter virado para o Tejo”, além de relevar as obras de requalificação nas imediações da praia fluvial e parque de campismo, por iniciativa da Câmara Municipal. “Deu-se uma nova imagem, há movimento, as próprias rotas pedestres também atraem pessoas à freguesia. Estou satisfeito”, assumiu o autarca.

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Joana Rita Santos

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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