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Por estes dias muitos de nós, dos que viraram pais, vivem tempos novos. Falo deste tempo em que um dos nossos filhos é finalista do secundário. Tempo que nos traz de peito cheio, mas simultaneamente com um aperto no peito. Tempo que nos faz um enorme nó na garganta, mas que nos enche de um orgulho imenso.

Com este misto de sentimentos, ou emoções, quando o primeiro dos meus quatro filhos é finalista do secundário, não me foi difícil preparar um monólogo para uma colega fazer no Sarau de final de ano do Agrupamento de Escolas de Mação. Porque é uma reflexão sobre este fim de ciclo de uma das crias. E que hoje partilho convosco, pais de finalistas.


Há um primeiro olhar, um primeiro choro, aquele primeiro momento, aquela milésica de segundo em que o coração dilata para sempre e que nunca se esquece. 

É quando nos nasce um filho.

E explodimos de amor.

Vem a primeira febre, cólicas, noites sem dormir, dúvidas e questões permanentes: tem frio? Tem calor? Bebeu o leite? Bolçou?! Vem a primeira sopa, tão bom, a primeira sopa.

E explodimos de amor.

Nasce o primeiro dente. Baba, dores, choro. Damos colo, rogamos por pomadas mágicas. Quando é que isto passa? E em menos de nada um sorriso fofo numa boca cheia de dentes.

E explodimos de amor.

Vem, num dia de muita luz, a primeira palavra. Ah!… a primeira palavra…. Deliramos de orgulho, contamos a todos os conhecidos e escrevemos no livro do bebé: primeira palavra…. Papá….

E explodimos de amor.

Mas quando dão os primeiros passos… ui! Os primeiros passos. Ai que cai, olha o móvel, fechem as portas, cuidado com as escadas. Tão bonito ver os primeiros passos, o início da caminhada….

E explodimos de amor.

A entrada na escola. A mochila, a lancheira, os livros, o estojo mais piroso que decidem escolher. E recebemos o primeiro desenho no dia da mãe, que colamos no frigorífico. Aprendem as letras, os números. Conhecem o mundo. Vêm os fins de tarde de volta dos trabalhos de casa.

E explodimos de amor.

Um dia partem a cabeça no recreio. Ou uma perna. Esfolam os joelhos no futebol ou “a não sei quantas disse que não tenho roupa de jeito”. Fazemos curativos, vamos às urgências, compramos maquilhagem e ensinamos a dar respostas sábias. 

Levamos um à natação, o outro ao futebol. Mais a dança, o karaté, a catequese, a música e festas de anos, tantas festas de anos. Tornamo-nos um táxi. A uber.

E explodimos de amor.

Há depois um dia, aquele dia, o dia em que vão sair com uns amigos. Engolimos em seco. Sorrimos. Damos conselhos. Queremos ser uns pais fixes, não é?! Mas nós sabemos que começou uma nova fase. 

Vais com quem? Voltas a que horas? Com quem?! É preciso boleia? Tens dinheiro? Não gastes muito. Não bebas. Não bebas muito. Bebe só um bocadinho. Cuidado com as amizades. Quem é aquele????! Leva um casaco. Olha que está frio. 

E vão. E nós sentamo-nos no sofá e adormecemos até que cheguem.

E explodimos de amor. 

Ajudamos a fazer matrículas. A escolher cursos. Damos conselhos que não nos pedem. Vemos as médias de entrada na universidade. Aqui. Ou ali. Ou além. Pesquisamos preços de quartos.

Consultamos horários de transportes. Somos chatas como um raio e sabemo-lo porque nos chamam chatas 5 vezes a cada 4 conversas. 

Sabemos que vem aí uma nova fase. Cuidado com as saídas.  Estuda. Faz pela tua vida. “Olha que a cama que fazes é onde te deitas”. Leva um casaco. Olha que está frio.

E explodimos de amor.

E pensamos que foi ontem. Bolas que parece mesmo que foi ontem que nasceu. Foi ontem aquele primeiro choro, aquele primeiro olhar. 

Crescem tão rápido. Não, não é cliché, caramba. Vocês crescem mesmo rápido. 

E um dia destes vão também dizer: estuda. Tens testes? Lava os dentes. Que roupa é essa? Tens dinheiro? Cuidado com as amizades. Quem é aquela?! Leva um casaco. Olha que está frio. 

E vão explodir de amor.

Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação. Licenciada em Sociologia, trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica.
Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é.

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