Enquanto se fala de malas, malotes e outros males (menores e outros com menores) até à exaustão, reduz-se ao mínimo a informação e o debate, no espaço mediático, de problemas graves que o país enfrenta e que as políticas de direita agravam – agravaram e agravarão.
Por outro lado mais polido, o que são as negociatas com o novo aeroporto em pista, os perdões de centenas de milhões à cartelização bancária, a falta de acesso a cuidados de saúde e o aumento de despedimentos coletivos, perante supostas candidaturas e não-candidaturas à presidência da república, daqui a cerca de um ano – não obstante, umas fazem barulho que há de ecoar até lá, outras são convenientemente silenciosas, e todas evitam abordar o papel fundamental e primordial do Presidente da República de “cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa”.
Os charlatães do Séc. XVIII usavam fumo e espelhos para ludibriar o público, alegando a invocação de espíritos, causando o pânico da plateia, que gritava e fugia daquelas almas-penadas de fachada.
A charlatanice populista dos nossos tempos também invoca espíritos, que tomam a forma que bem convém a quem a financia. Enquanto o povo foge das falsas avantesmas, dispersando-se, não se organiza para exigir os seus direitos. Enquanto as pessoas se munem de cruzes, sal e outros placebos, para afastar os fantasmas, as portas franqueiam-se e deixam entrar os vampiros que comem tudo e não deixarão nada.
Os vendedores da banha da cobra impingem assombrações que, replicadas ad nauseam, criam a “perceção” de que são o que gora as expectativas das pessoas e que apodrecem os frutos do seu trabalho. Com o pânico instalado, a narrativa do “salvador da pátria”, seja o que “diz as verdades” ou aquele “forasteiro ao sistema que porá o sistema na ordem”, cai melhor e entranha-se facilmente.
Note-se que não estou a desenvolver os casos concretos que têm dado forma às parangonas dos jornais, preenchido as bocas dos pivots e possibilitado “comentarice” infinita. Tampouco estou a apelar a que não se regozijem com a queda das peles-de-cordeiro que põe a nu a hipocrisia lupina. Falo de ilusões mediáticas que assumem aspectos abstractos, mas que têm consequências bastante concretas.
É necessário estar atento àquilo que realmente prejudica o povo e o país – depois de dissipado o fumo e quebrados os espelhos, vê-se bem que não é daí que vem o “azar”, e que o ruído só tenciona calar quem se opõe.
Não podemos desviar o olhar, a análise e a acção revolucionárias do grande capital que tenta deitar a mão aos bens públicos. Não podemos dar descanso às forças partidárias cuja existência e prática se fundam na missão de desbravar caminho para deixar a mão capitalista (liberalmente) passar e roubar os frutos dos esforços de quem cá vive e trabalha – para além da mais-valia, tomam de assalto os Serviços Públicos, tentam fazer a Segurança Social refém, condicionam os direitos.
Somente o povo pode reclamar aquilo que ao povo pertence. Com muito esforço e luta, é certo, mas o PCP está na linha da frente dessa batalha, dando força aos trabalhadores e ao povo, para se organizarem, para combaterem, para conquistarem o que lhes é privado, mas que é seu por direito.
