“Era uma vez…” é uma rubrica quinzenal sobre Ciência e História, assegurada pela arqueóloga Sara Cura. Esta é a primeira crónica desta série.
A pergunta “o que queres ser quando fores grande?” deve ser uma das que mais ouvimos até à adolescência. O que determina que escolhamos na vida ser uma coisa e não outra? O nosso caminho rumo à escolha de uma profissão é influenciado por inúmeras coisas, demasiadas para as enumerar, e cada caso é um caso. Mas se eu escolhi ser arqueóloga por influência de circunstâncias, experiências e algumas pessoas marcantes, a verdade é que quando isso aconteceu havia já em mim uma predisposição, uma imensa curiosidade e fascínio pela história do ser humano e do planeta.
E o que criou essa predisposição? Desenhos animados! É verdade. Se quem me lê é da minha geração ou da anterior, já sabe do que estou a falar. As séries francesas do Era uma vez…o homem, o planeta, a vida, o espaço e o corpo humano marcaram decisivamente o despertar da minha curiosidade, mas também da minha sensibilidade para conhecer a nossa história, do nosso planeta, da vida e até do Universo. Não terei sido a única a desenvolver o gosto pela ciência e pela história por causa do “Era uma vez…”, tenho a certeza.
Assim, iniciando hoje uma série de textos sobre Ciência e História, faço honra em chamar a esta rubrica “Era uma vez”, recordando que o conhecimento se pode transmitir nas formas mais criativas e para todas as idades.
O Universo tem uma história, o planeta tem uma história e nós, como espécie, também temos a nossa e conhecemo-la por meio da ciência que, por sua vez, também tem a sua própria história. Eu não acredito que possamos verdadeiramente compreender o presente e ousar um futuro sem entender a ciência, por um lado, e sem conhecer o que nos antecede, por outro. É por isso que, escrevendo sobre ciência, escreverei sempre sobre história, avançando e recuando ao sabor dos temas.
“Não acredito que possamos verdadeiramente compreender o presente e ousar um futuro sem entender a ciência, por um lado, e sem conhecer o que nos antecede, por outro.”
O nosso mundo é hoje totalmente dominado pela tecnologia. Quando é que esta surgiu e qual o seu papel na nossa evolução? Na ordem do dia está a Inteligência Artificial, mas quando surgiu a inteligência, tal como a definimos, na espécie humana?
Fala-se tanto hoje do Chatgpt, que não é mais do que um sofisticado modelo de linguagem, mas sabemos como e quando surgiu a linguagem? Discutimos muito sobre se as máquinas um dia terão consciência, e quando surgiu a consciência? É exclusiva dos seres humanos? E poderão as máquinas vir a ter criatividade artística e simbólica? Quando surgiu esta na nossa história?
A energia é um dos mais urgentes problemas que enfrentamos, mas quando e como viemos a dominar o fogo?
Estamos perante o enorme desafio das alterações climáticas, mas quanto sabemos da história do clima e de como afetou drasticamente a espécie humana, e não só, ao longo do tempo?
Hoje alteramos o planeta e os demais seres vivos de uma forma sem precedentes. Quando é que a nossa marca começou a ser irreversível? Por outro lado, alimentar em segurança um planeta sobrepovoado implica modificar geneticamente plantas para que se tornem mais resistentes e produtivas, e ao mesmo tempo sustentáveis. Quando e onde domesticámos as plantas pela primeira vez? E quando descobrimos que podíamos transformar animais selvagens em animais dóceis e manipulá-los para nosso benefício?
Vivemos tempos de polarização e individualismo, mas o nosso sucesso enquanto espécie foi precisamente o nosso enorme grau de cooperação social. Somos mais uma espécie social do que uma espécie inteligente? Reside precisamente a evolução da nossa intelectualidade na nossa elaborada sociabilidade? Será afinal a afetividade e a extraordinária capacidade dos humanos de sentirem empatia, mais do que a racionalidade, o que nos torna singulares? E será isso mesmo que as máquinas jamais virão a ter? Afetos, empatia e compaixão?
A desigualdade é algo que a muitos revolta, mas quando é que as sociedades humanas se tornaram desiguais? Quando começámos a acumular riquezas que conferiam poder a um círculo restrito de pessoas?
Escreverei mais sobre perguntas do que respostas. Temos algumas, e continuamos à procura. É assim a ciência; pergunta, responde, para logo tornar a perguntar. E é um pouco assim que todos somos – inquietos e curiosos.
Ser inquieto não é o mesmo que ser ansioso e eu acredito mesmo que conhecer com mais profundidade o que nos antecede, entender os processos e ir à raiz das coisas pode aliviar muita da ansiedade e perplexidade com que olhamos para o presente.
Era uma vez estes e outros temas.
