“Era uma vez…” é uma rubrica quinzenal sobre Ciência e História, assegurada pela arqueóloga Sara Cura.
Num mundo cada vez mais interconectado, onde a informação circula à velocidade de um clique, a distinção entre factos reais e fabricados torna-se um desafio constante. Isto acontece em todas áreas, da política à ciência. Por isso semana não vou narrar acontecimentos do nosso passado comum, mas sim abordar as distorções do nebuloso mundo da pseudociência e, subsequentemente, da pseudoarqueologia. Veremos alguns exemplos, perigos e o impacto que têm na nossa vida e na forma como compreendemos do mundo.
Comecemos pela Pseudociência. De que se trata afinal? Sem o saber ficamos muito mais vulneráveis às manipulações e desinformações que nos chegam todos os dias através das redes sociais e de alguns media menos confiáveis.
A pseudociência distingue-se da ciência que se apoia em factos recolhidos e analisados pelo método científico – observação sistemática, fazer perguntas e procurar a sua resposta através de testes e experimentação, usando os métodos dedutivos e indutivos procurando formar e testar hipóteses e teorias – de várias formas. Na sua essência, a pseudociência é infalsificável e propõe teorias e afirmações que não podem ser provadas ou refutadas através de métodos científicos rigorosos. E fá-lo muitas vezes baseando-se em anedotas, em experiências pessoais e testemunhos isolados, em vez de se suportar em investigação sistemática e factos empíricos.
Por outro lado, tende a selecionar os factos que apoiam as suas afirmações, ignorando ou minimizando os que que não as confirmam, distorcendo ainda mais a validade das suas afirmações com estas escolhas a dedo. Além disso, a pseudociência emprega frequentemente expressões e terminologias que parecem científicas, o chamado tecnobabble, utilizadas incorretamente ou de forma completamente absurda, criando assim uma fachada de legitimidade.
Na maior parte dos casos não é plausível porque avança fenómenos sem qualquer explicação credível de como podem ocorrer no seio do que é o conhecimento científico existente e aceite pela comunidade científica. Consequentemente as afirmações feitas pelos seus proponentes são, na maior parte dos casos, extraordinárias ou exageradas, e apresentadas como certas, apesar da falta de provas verificáveis. As suas certezas recorrem a falácias lógicas que nem sempre são fáceis de desmontar rapidamente, faltando-lhes um critério essencial da ciência que é a revisão por pares.
Antes de dados serem divulgados, teorias avançadas, os cientistas vêm o seu trabalho ser avaliado por outros colegas num sistema que assegura a validade e a fiabilidade. O mesmo não acontece com a pseudociência. Imaginemos o que seria submeter para avaliação um artigo sobre a teoria da terra plana a um painel de geólogos como revisores científicos? Claro está que a pseudociência tem o seu mundo alternativo e paralelo.
Mas é um fenómeno novo? Nem por isso.
Desde que a ciência e o método científico emergiram e se consolidaram no mundo ocidental, nos séculos XVI e XVII, que sempre existiram em paralelo afirmações, crenças ou práticas pseudocientíficas. Na verdade, sendo rigorosa, lá bem atrás a pseudociência e o desenvolvimento da ciência tiveram uma relação bem próxima. É relembrar como os alquimistas, movidos por um misto de ambições filosóficas, místicas e proto-científicas, ao procurarem transformar metais comuns em metais nobres como o ouro e a prata e descobrirem o elixir da vida para alcançar a imortalidade, tiveram um papel fundamental no desenvolvimento de métodos científicos e técnicas experimentais. Foram, claro, ultrapassados pelo surgimento da química moderna, mas não sem antes terem sido importantes para a mesma. As coisas nunca são simples de destrinçar.

Outro exemplo bastante conhecido, é a astrologia. Bem mais antiga que a alquimia, a astrologia é uma forma persistente de pseudociência que pretende adivinhar informações sobre as nossas vidas e acontecimentos terrestres através da interpretação dos movimentos e posições relativas dos corpos celestes. O desenvolvimento da astronomia veio demonstrar que a astrologia não tem qualquer fundamento científico, mas pasme-se que Johannes Keepler, figura maior da revolução científica do séc. XVII e um dos pais da astronomia moderna, considerava a astrologia com equivalente importância.
Já no século XIX, começa-se a falar de pseudociência e a Frenologia, que tanto furor fez, foi cunhada disso mesmo logo em 1843. Fundada por Franz Joseph Gall, a frenologia advogava como a forma e o tamanho de várias partes do crânio podiam determinar os traços de personalidade, o carácter e as capacidades mentais de uma pessoa. O seu apelo era justamente o simplismo do seu raciocínio ao prometer, sem factos empíricos e rigor metodológico, uma base anatómica para a compreensão de comportamentos e características humanas complexas.
Ao longo dos séculos a ciência foi fazendo o seu caminho, claro que a pseudociência também, mas talvez sem o protagonismo ou o perigo que representa hoje neste mundo de pós-verdade e híper aceleração digital. E isto deve-se à natureza de algumas das suas ideias, mas, sobretudo, à enorme facilidade com que elas se propagam e se tornam omnipresentes em alguns ambientes on line.
Talvez um dos exemplos mais conhecidos, relativamente recente e muito perigoso seja, não a negação de que a terra é redonda, mas a negação das vacinas.
O negacionismo das vacinas é um exemplo pungente de pseudociência com efeitos tangíveis e prejudiciais para a saúde pública. Ao contrário de outras crenças pseudocientíficas que podem provocar complicações pessoais, perdas financeiras ou intolerâncias culturais, que sendo graves, não causam danos físicos directos, a recusa em aceitar a eficácia comprovada das vacinas põe diretamente em perigo não só quem abraça estas crenças, mas também a comunidade em geral. A ideia de que as vacinas são desnecessárias ou prejudiciais ignora todo um vasto conjunto de provas científicas que demonstram a sua segurança e eficácia. Durante mais de dois séculos, elas desempenharam um papel fundamental no combate às doenças infecciosas, reduzindo significativamente, se não mesmo eliminando, a prevalência de doenças mortais como o sarampo, a poliomielite e a varíola. A evidência é esmagadora: onde as taxas de vacinação são elevadas, os surtos destas doenças são raros ou inexistentes.
Esta negação, baseada em desinformação e desconfiança na ciência, inverte as grandes conquistas na saúde do séc. XX, contribuindo para o ressurgimento de doenças que outrora estavam sob controlo ou quase erradicadas. Não é perigosa só para quem não se vacina, esta recuso aumanta as hipóteses de surtos que podem afetar mesmo aqueles que são vacinados, em particular a pequena percentagem para a qual a vacina não é eficaz, bem como populações vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas com sistemas imunitários comprometidos.
A pseudociência pode ser bem perigosa, claro está, mas não é só um fenómeno emergente das ciências naturais.
No que diz respeito à arqueologia, é bem conhecida de todos nós – quem nunca ouviu dizer que as pirâmides foram construídas por extraterrestres? Talvez alguns já tenham visto uns episódios da série Ancient Alliens. E quem nunca ouviu extraordinárias teorias acerca da Atlântida?
Há uns tempos fui alertada, num encontro académico, pelo Jornalista Adriano Cerqueira de que a arqueologia não tinha um problema de audiência, mas sim de concorrência com informação falsa e teorias lunáticas na internet, particularmente nas redes sociais. Com este alerta decidi fazer um pouco de pesquisa sobre o tema e encontrei inúmeros sites e páginas nas redes sociais com conteúdos falsos e pseudocientíficos relacionados com Arqueologia e Pré-História.

Em 2022 a Netflix apresentou uma série, “Ancient Apocalypse”, em português intitulada “Revelações Pré-Históricas” que foi um enorme sucesso. O contexto de produção e promoção desta série e do seu autor, Graham Hancock, ilustram bem o desafio de lidar com a produção de conteúdos falsos e sem integridade, mas alegadamente baseados em sólidas evidências científicas, e altamente difundidos nos media.
Na série, Graham Hancock, que se autointitula jornalista, na senda dos seus livros pseudocientíficos contra o que designa de arqueologia mainstream, postula que uma “civilização avançada” terá florescido durante o período Pleistoceno, e terá sido a origem de várias realizações culturais, incluindo a agricultura e as pirâmides, e terá originado o desenvolvimento de crenças religiosas centradas na morte e em contos mitológicos com heróis culturais que mais tarde foram deificados. De acordo com Hancock, todas as provas tangíveis desta civilização foram eliminadas devido à queda de cometas e por uma inundação global cataclísmica durante um período denominado Younger Dryas.

A ideia é que povos da Europa Central e Oriental transmitiram conhecimentos sobre agricultura a sociedades de caçadores-recolectores “mais simples” do Médio Oriente, do Mediterrâneo, do Sudeste Asiático e das Américas. Hancock argumenta que as autoridades responsáveis, isto é a arqueologia baseada na ciência, pelo estudo da Pré-História humana estão deliberadamente a ignorar ou a ocultar os verdadeiros fundamentos do nosso mundo atual.
Ora esta é uma forma de pensamento claramente conspirativa. A pseudociência e as teorias da conspiração andam muitas vezes de mãos dadas. Mas será perigosa? Não é como espalhar ciência falsa contra as vacinas que, como vimos, coloca vidas em risco. Mas eu diria que tem alguns níveis de perigosidade. Além de corroer a confiança nos arqueólogos e na ciência, os defensores destas crenças (Hancok está longe de ser um caso isolado) afirmam a validade das suas teorias, apoiando-se em fontes obviamente não fiáveis e chegam mesmo a conduzir investigações não autorizadas, levando à destruição de sítios arqueológicos. Por outro lado, estas teorias sugerem que os povos indígenas vivos não têm uma ligação genuína à sua própria herança, atribuindo-a a uma “civilização avançada” esquecida, da qual se acredita que a sua cultura derivou imperfeitamente. A falsa afirmação de que todas as sociedades complexas tiveram origem numa cultura superior (em alguns casos inequivocamente apresentadas como brancas) tem inerente o racismo e a exclusão cultural. Há, na verdade, apropriação e manipulação de algumas das teorias pseudoarqueológicas por movimentos nacionalistas, propensos a apresentar alegados passados míticos, quase tribais, e grandiosos das nações.
Poder-se-ia pensar que estes fenómenos de pseudoarqueologia ou manipulação mítica do passado não ocorrem em Portugal, mas veja-se o caso de uma estátua erigida num parque em Faro em homenagem à Atlântida e ao povo Atlante. O texto na placa de homenagem é bem exemplificativo deste tipo de pensamento: “(…) Apesar dos fortes indícios, talvez nunca se possa confirmar com toda a certeza, que aqui existia a mítica civilização da Atlântida. Contudo, também não o podemos negar. Acima de tudo, esta é uma homenagem às primeiras grandes civilizações sedentárias e aos nossos antepassados, que sempre tiveram uma forte relação com o mar, aliada à constante vontade de criar um mundo melhor.”
Onde estão os fortes indícios da Atlântida no Algarve? Não sei. Mas não me espantaria que a inspiração para este monumento e placa evocativa fosse o livro “Os impérios da Atlântida: As origens das civilizações antigas e das tradições de mistério ao longo dos tempos” de Marco Vigato, autor que aparece como especialista na série “Revelações Pré-Históricas” e cujas teorias são completamente bizarras.

Há quem argumente que reagir à pseudoarqueologia apenas a legitima, criando a perceção de que existe uma verdadeira controvérsia. Embora concorde com este ponto de vista, também penso que ignorá-la tem um efeito semelhante. Afinal de contas, uma das suas alegações centrais é que existe uma conspiração no seio da arqueologia dominante para suprimir o seu trabalho. Mais, estes alegados especialistas ameaçam o património cultural e algumas das suas teorias favorecem a intolerância cultural e reforçam nacionalismos que enfraquecem as democracias.
Então sim, vale a pena desmontar a pseudoarqueologia, como vale a pena desmontar toda as teorias pseudocientíficas. Com maior ou menor risco para nós, uma coisa é certa, todas elas diminuem a riqueza e diversidade do nosso mundo e a nossa capacidade de o compreender.
