José Craveiro nas "Conversas com Café". Foto: mediotejo.net

A Biblioteca Municipal do Entroncamento transformou-se na noite desta sexta-feira, dia 9, em ponto de partida para uma viagem no tempo pela tradição. O meio de transporte utilizado na tertúlia “Conversas com Café” foram as histórias tradicionais partilhadas pelo contador José Craveiro, para quem as palavras são a melhor forma de fortalecer os afetos e as raízes populares.

A chuva não afastou as pessoas que quase encheram a sala principal da biblioteca municipal para ouvir as histórias tradicionais de José Craveiro durante a tertúlia “Conversas com Café”. Ao longo de mais de uma hora viajou-se pela tradição do país e, mais concretamente, da terra natal deste contador, Tentúgal (Montemor-o-Velho, Coimbra).

A expressividade esteve lado a lado com a simplicidade nas histórias que José Craveiro ouvia em criança e a plateia foi conhecendo. Uma partilha das partilhas feitas pelos seus avós e outras pessoas mais velhas, “pessoas pobres, mas honestas” nas palavras do contador, durante os serões em que o entretenimento e a preparação das gerações mais novas se fazia através da oralidade.

O contador de histórias tradicionais José Craveiro foi o convidado da sessão de março. Foto: mediotejo.net

Eram também momentos que fortaleciam as raízes da cultura popular, dos quais José Craveiro recordou os passados com o avô Joaquim e a avó Encarnação, com um “coração maior do que o mundo”. Ao longo da tertúlia, denotou-se o carinho pela mulher do campo que nas poucas horas livres dadas pela junta de vacas cantava à desgarrada e curava os outros com as suas “ervinhas”.

A “Ti Conceição” também foi lembrada por saber tocar o “Vira de Todos” na guitarra e se juntar à “Deolinda Marreca” nas noites de lua cheia, a quem faziam uma oração com moedas na mão: “Lua cheia, lua cheia, vês. Dá-me dinheirinho para todo o mês”. Pela biblioteca municipal também passou a Maria Miséria que, segundo a avó Encarnação, anda pelo mundo por ter conseguido enganar a Maria Morte.

Memória atrás de memória, história atrás de história, José Craveiro foi partilhando o que disse ser “histórias da vida”, incluído da sua, como a da “Vitória” que lhe leu a sina depois de tocar bandolim. O ataque de coração profetizado aos 56 anos, assegurou o contador de história considere que já recebeu o pagamento por tudo o que faça na vida.

As histórias foram partilhadas de forma simples e expressiva. Foto: mediotejo.net

Neste mundo em que, segundo José Craveiro, “tanta coisa de verdade mais parece mais ficção do que verdade” surgem coisas aparentemente simples e “vulgares” que no futuro podem transformar-se num “bem de todos”. Uma herança da qual diz não ser digno e que, em declarações ao mediotejo.net, confirmou ter sido o motivo para seguir o rumo de contador de histórias tradicionais e “continuar a dar ao povo”.

Na conversa que tivemos momentos antes da tertúlia desta sexta-feira explicou-nos que “por meio das histórias, fizemos com que as pessoas num serão se animassem, se cultivassem, criassem laços, transmitissem afetos. Isso foi tudo muito bom durante séculos e pode, muito bem, continuar a ser” por isso “eu tenho muito gosto em fazer os possíveis para que continue dessa forma”.

Neste papel de dar voz a estas histórias, o contador lida com diversos tipos de público. Esta sexta-feira, por exemplo, esteve junto da comunidade escolar do concelho de Constância e terminou o dia com a plateia adulta das “Conversas com Café”.

Questionado sobre a reação dos mais novos, para quem as histórias surgem na televisão e na internet, sublinhou que “é muito boa” pois “no fundo, ainda somos pessoas, gostamos de comunicar, de dar e receber”.

José Craveiro e a vereadora Tília Nunes. Foto: mediotejo.net

A “energia” e a “força” das palavras foram destacadas, representando “um veículo para chegarmos aos afetos”. No fundo, foram os afetos dos avós que o marcaram pois compensavam a impossibilidade de lhe darem chocolates com “bocadinhos de broa de milho” e as “histórias” que o deixavam “maravilhado”.

Os netos têm direito aos chocolates, mas também às histórias que lhes conta para que “sintam o que eu senti”, acrescentando que a “árvore sem raiz não vai a lado nenhum. Esta é a nossa raiz”.

A sessão das “Conversas com Café” do mês de março terminou com a habitual entrega da oferenda ao convidado que a Tília Nunes caraterizou como “uma memória viva da História”.

A vereadora da Câmara Municipal do Entroncamento deixou o mote para o mês de abril, cuja sessão está agendada para dia 6 e que se focará em “conversas ferroviárias”.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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