Foto: mediotejo.net

Em outubro de 2016 Manuel Fanha Vieira apresentava a demissão do cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Entroncamento e a notícia confirmava os rumores de que a instituição se encontrava numa situação instável. Seis meses depois da criação da Comissão Administrativa presidida pelo padre Ricardo Madeira, Firmino Falcão assumiu o cargo. Um ponto de viragem do qual quisemos conhecer o antes e o depois na entrevista com ambos a poucos dias da tomada de posse dos novos órgãos sociais que se realizou esta sexta-feira, dia 28.

A Santa Casa da Misericórdia do Entroncamento foi inaugurada a 9 de fevereiro de 1950 e no primeiro meio século de existência afirmou-se na vida da região através dos serviços de saúde e apoio social prestados à população através do Hospital S. João Baptista e do Lar Fernando Eiró Gomes. No século XXI a oferta foi reforçada com o Lar da Santa Casa da Misericórdia e a Unidade de Cuidados Continuados Integrados.

Tudo apontava para o crescimento da instituição até ao surgimento dos rumores de atrasos nos pagamentos que reforçavam a ideia da grave situação financeira ter motivado o fecho do serviço de radiologia no Hospital S. João Baptista. Os rumores passaram a notícia quando, em outubro de 2016, Fanha Vieira se demitiu do cargo de Provedor durante uma reunião na Câmara Municipal do Entroncamento convocada pelo Bispo da Diocese de Santarém, D. Manuel Pelino Domingues.

Ricardo Madeira durante a entrevista. Foto: mediotejo.net

O padre Ricardo Madeira assumiu então a responsabilidade da Comissão Administrativa criada com o objetivo de preparar a eleição dos novos órgãos sociais e na passada sexta-feira Firmino Falcão tomou posse como novo Provedor. Um processo de seis meses que também envolveu a criação de um Plano de Reestruturação com o objetivo de, nas suas palavras, dar “estabilidade” à instituição e devolver a “serenidade” aos colaboradores.

A equipa composta por sete elementos, diz, integrou pessoas “que conheciam a Misericórdia”, nomeadamente elementos dos órgãos sociais anteriores que “estavam preocupados com o que estava a acontecer”. Firmino Falcão acrescenta que os valores das dívidas avultadas eram do conhecimento dos irmãos que participavam nas Assembleias Gerais e confirma que foram as “dificuldades de gestão”, aliadas ao estado de saúde de Manuel Fanha Vieira que ditaram a demissão do ex-Provedor.

Firmino Falcão durante a entrevista. Fotos: mediotejo.net

Os números exatos não foram avançados, mas situam-se na ordem dos milhões de euros e na génese dos problemas financeiros terá estado a construção das valências mais recentes, em 2009 e 2010. A situação foi-se agravando até atingir um estado de insustentabilidade em que, segundo Ricardo Madeira, “as próprias instituições bancárias não concediam mais crédito”. A Comissão Administrativa deparou-se com um cenário de atraso nos pagamentos a colaboradores e fornecedores e serviços “desaproveitados ou mesmo desativados”.

Nos últimos seis meses, reconquistou-se a confiança das entidades bancárias, pagou-se a fornecedores, reativaram-se serviços e contrataram-se novos colaboradores, que rondam os 400 (345 diretos), superando o “primeiro princípio” apontado por Firmino Falcão: o de “não despedir ninguém”. Integraram-se e requalificaram-se recursos humanos e houve uma adaptação “às necessidades” das quatro valências em estreita colaboração com os “responsáveis funcionais”.

Ambos confirmam que os resultados se refletiram em quem trabalha na Santa Casa da Misericórdia do Entroncamento, que o segundo aponta como sendo “os grandes obreiros desta mudança” uma vez que o Plano de Reestruturação foi desenvolvido com base em “medidas [a médio e longo prazo] apresentadas pelos colaboradores”. As “negociações”, diz Ricardo Madeira, terminaram nas últimas semanas e o plano está “a ser cumprido na totalidade” para a “melhoria dos serviços, dos proveitos e da imagem da Santa Casa”.

Bispo da Diocese de Santarém, D. Manuel Pelino Domingues e a Mesa Administrativa. Fotos. mediotejo.net

Com a eleição dos novos órgãos sociais, em que o ex-Provedor não esteve presente, Firmino Falcão passa a ocupar o cargo máximo da Mesa Administrativa e António Miguel e Jorge Faria assumem a presidência da Assembleia Geral e do Conselho Fiscal, respetivamente. O momento representa o culminar deste ponto de viragem e o quadriénio 2017/20 assume uma relevância elevada na história da instituição uma vez que os primeiros passos foram dados, mas os problemas financeiros não estão sanados e há muitos desafios pela frente.

O novo Provedor, natural do distrito de Bragança e residente no Entroncamento, encara a nova missão “não como uma questão de realização pessoal”, mas a forma que considerou ser a mais acertada para “mudar alguma coisa” depois de se ter visto confrontado com uma situação que colocava em causa “uma instituição desta natureza, que tem de ser saudável para o bem da comunidade”.

“Para a comunidade local e regional”, destaca Ricardo Madeira, pois os serviços de saúde prestados são feitos numa ótica de “colaboração e complementaridade” aos hospitais do Centro Hospitalar do Médio Tejo, em consultas de especialidade, exames e fisioterapia. Nos planos futuros estão incluídos “estreitar esta relação”, a requalificação do Lar Fernando Eiró Gomes e a aposta em serviços que não existem atualmente. Entre eles encontra-se o alargamento de especialidades existentes, como a de cardiologia que passará a integrar fisioterapia.

A questão sobre a atual situação financeira impõe-se e Ricardo Madeira responde que o Plano de Reestruturação gerou “resultados quer na poupança, quer no aumento de proveitos”, concluindo que “hoje a Santa Casa está segura no caminho que está a percorrer”.

Firmino Falcão acrescenta que o grande desafio dos novos órgãos sociais – compostos por caras conhecidas no concelho – é “continuar este processo de reestruturação porque isto gera sustentabilidade”, a par “da continuidade da qualidade”, exemplificando com a recente atribuição do nível “Bom” à Unidade de Cuidados Continuados Integrados pela Direção Geral da Saúde.

O novo Provedor fez especial menção dos colaboradores da Santa Casa agradecendo a adesão e zelo no exercício das respetivas funções fazendo apelo à mesma atitude nesta fase em que a Santa Casa regressa ao regular modelo de gestão consagrado no Compromisso com a nova Mesa Administrativa.

“Aliás, é indispensável que Órgãos Sociais e Colaboradores se sintam como equipa global na prossecução dos fins sociais e objetivos  da Santa Casa”, defendeu.

Sónia Leitão

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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1 Comentário

  1. Boa tarde,

    Infelizmente, a paciência falta-me para voltar a citar alguns apontamentos que considero importantes no sentido de se fazer uma análise às mesmas.
    Compreendo e aceito que o Sr. Provedor seja uma pessoa totalmente ocupada diariamente para não poder atender-me.
    No entanto, atrevo-me a sugerir que nomeie alguém para o substituir, porque o que passei numa consulta é totalmente inaceitável e como tal bem censurável.
    Levaria tanto tempo a escrever e alguém a ler, que o mais aconselhável será ser ouvido calmamente, para se tirar as devidas ilações.
    Entendo que fico por aqui, na expectativa de que será frutuoso dar a conhecer o sucedido de modo a que não se volte a repetir, porque mancha a reputação da instituição.
    Cumprimentos.

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