Entroncamento "é uma terra de chegada" e "está mais inclusiva e solidária" - Jorge Faria. Foto: mediotejo.net

Jorge Manuel Alves de Faria tem 68 anos de vida, tendo nascido a 11 de janeiro de 1957 na localidade de Valada, freguesia de Seiça, concelho de Ourém, na altura ainda designado por Vila Nova de Ourém, tendo estacionado no Entroncamento desde tenra idade e por causa do caminho de ferro, quando o pai veio trabalhar para a ferrovia. Casado e com dois filhos, Jorge Faria é Licenciado em Economia, Mestre em Sistemas Sócio Organizacionais e Doutor em Gestão de Empresas, os dois primeiros pela Universidade de Lisboa e o doutoramento pela Universidade de Évora.

Na politica, concorreu em 2013 pelo PS à Câmara do Entroncamento, tendo sido eleito presidente, cargo que exerceu até ao dia 31 de janeiro, no último ano do seu terceiro mandato, tendo renunciado ao cargo alegando “motivos pessoais” e para se dedicar aos seus projetos e empresas. Cargos públicos ou de nomeação diz que não quer mais. Ilda Joaquim assumiu a presidência da Câmara a 1 de fevereiro.

Entroncamento “é uma terra de chegada” e “está mais inclusiva e solidária” – Jorge Faria. Foto: mediotejo.net

Como é que veio para o Entroncamento?

Como todos os outros, através do caminho de ferro. A minha vinda para o Entroncamento é o retrato daquilo que são os habitantes do Entroncamento. Viemos para o Entroncamento, neste caso os meus pais, à procura de melhor vida e, em concreto, na ferrovia. O meu pai começou a trabalhar na ferrovia e depois quando a minha irmã, que é mais velha que eu seis anos e meio, teve que iniciar os estudos secundários, como vivíamos nessa aldeia, os meus pais optaram por vir viver em definitivo para o Entroncamento. Mas o que motivou a vinda foi o trabalho na ferrovia. Aliás, eu costumo dizer que a nossa origem, a origem de muita gente do Entroncamento está ao longo das linhas do comboio, linha do Norte, linha da Beira Baixa, linha do Leste…

Eu sou de uma povoação também junta ao apeadeiro de Seiça, perto da linha do Norte. A vice-presidente, os pais dela são originários da zona de Pombal. A vereadora Tília Nunes do Fundão, o vereador Carlos Amaro também era dessa zona do Fundão. Se nós continuarmos há muita gente que a as origens são de povoações que se situavam na linha do Leste, linha da Beira Baixa, linha do Norte e depois há algumas zonas, ali na zona de Portalegre, há muita gente que veio para aqui, de uma série de povoações, por exemplo, Mouriscas, também. Tudo gente ligada à ferrovia, portanto eu fui como os outros, foi essa a razão, com cinco anos, penso eu.

Este é o seu último mandato, em 2025 não poderá recandidatar-se. Fica até ao final do mandato? E depois o que se vai seguir na vida profissional?

Eu começo por dizer que já anunciei aqui internamente e vou comunicar na próxima reunião de Câmara, a minha intenção de renunciar ao mandato no próximo dia 31 de janeiro. Portanto, não vou completar o mandato, por questões de natureza pessoal e questões também que entendo poder dar visibilidade à senhora vice-presidente, que é uma pessoa com capacidade para dar continuidade a este projeto. Em termos da minha vida, obviamente que tenho uma série de projetos que estão interrompidos e quero retomá-los. Algumas atividades empresariais, eu tenho uma empresa, ligada a uma escola de línguas, também estou desenvolver um projeto agrícola vitivinícola, mais precisamente. Já me desafiaram para algum projeto na Universidade de Évora, mas não sei se irei por aí. Mas, se for, serão coisas muito pontuais. Não pretendo estar ligado a mais qualquer cargo de nomeação, seja ele público ou o de eleição.

Porque escolheu esta vida de autarca? O que o motivou? Como é que chegou à Câmara?

A mim, em concreto, desafiaram-me e de alguma forma também, enfim… ao princípio recusei, porque achei que não tinha muitas condições, mas desafiaram-me e perante a possibilidade de podermos fazer alguma coisa pela nossa terra, eu não tendo nascido cá, mas vivo cá desde os 5 anos, com um pequeno interregno durante o tempo em que estive em Lisboa a estudar e, depois, no início da minha carreira profissional. Portanto, foi essa essa presunção, digamos assim, que outros também subscreveram, que eu poderia dar algum contributo para a melhoria da qualidade de vida da nossa cidade. E foi isso basicamente que me motivou. As pessoas pensam muitas vezes que a generalidade das pessoas vêm para estes cargos para benefícios pessoais, eu devo dizer que quer eu, quer a maioria dos autarcas que conheço, são pessoas que não tiram benefícios pessoais e são pessoas muito dedicadas, muito para além daquilo que é exigível no seu dia a dia, e pessoas muito abnegadas na defesa dos seus territórios e das suas comunidades. Penso que também eu e a minha equipa conseguimos fazer isso, dar o máximo que nós conseguíamos e já agora, é também importante dizê-lo, para contrariar algumas… Neste momento, os membros que estão no executivo, qualquer um de nós, veio ter rendimentos mais baixos do que tinha na sua vida profissional.

Há aquela imagem injusta de que os autarcas ganham muito e roubam muito, eu acho que isso é uma grande injustiça que se faz a pessoas que têm grande disponibilidade para servir a causa pública e a sua comunidade. Penso que foi isso também que tentámos fazer.

Entroncamento “é uma terra de chegada” e “está mais inclusiva e solidária” – Jorge Faria. Foto: mediotejo.net

O senhor nasceu no concelho de Ourém, freguesia de Seiça, como é que vem parar ao Entroncamento?

Eu vim parar ao Entroncamento como uma grande parte das pessoas que vive no Entroncamento. Os meus pais, numa dada altura, quiseram uma melhor vida para eles e para os filhos. O meu pai trabalhava já na antiga CP – Caminhos de Ferro, e uma dada altura, para permitir que, quer a minha irmã, quer eu, pudéssemos ter acesso à educação mais facilmente, decidiram vir morar para o Entroncamento. Como digo, o Entroncamento é uma terra de chegada e nós também trabalhamos para criar condições para que continue a ser terra de chegada e não de partida. Mas essa é uma realidade comum a muita gente do Entroncamento e como eu já tenho dito, muitas das pessoas do Entroncamento são originárias de povoações ao longo das linhas do Norte, da Beira Baixa, linha do Leste e também do ramal de Tomar.

Está prestes a terminar este ciclo de três mandatos, vai antecipar a sua saída para 31 de janeiro e não se pode recandidatar por força da lei de limitação de mandatos. Sente que o concelho está melhor depois do seu trabalho? As populações têm melhor qualidade de vida?

Obviamente que tenho a minha opinião e a minha avaliação, mas também há muita gente que poderá ter opiniões diferentes, mas eu penso claramente que a cidade de hoje é uma cidade mais moderna, uma cidade com melhor qualidade de vida das pessoas, melhor acesso a um conjunto de equipamentos públicos, quer na educação, quer na cultura, com mais emprego, com mais emprego qualificado e também uma cidade mais inclusiva e mais solidária. Isso foram desígnios que nós tínhamos nas nossas candidaturas e também conseguimos manter vivo o nosso ADN ferroviário, através quer da reabilitação de património, por exemplo, no Museu Nacional Ferroviário, através da captação de investimentos tecnológicos na área da ferrovia. Por tudo isso, eu hoje penso que é legítimo dizer que do nosso trabalho resultou um contributo muito interessante para a melhoria da qualidade de vida das pessoas do Entroncamento, que era esse o nosso grande desígnio. Também ao nível da Câmara Municipal, claramente hoje é uma estrutura com uma autonomia, uma independência e uma capacidade financeira, que não tinha há 11 anos e hoje ombreia com as melhores Câmaras em alguns aspetos. Temos recebido, por exemplo, um conjunto de distinções que são variadas, desde Cidade Educadora, Entidade Empregadora Inclusiva, Familiarmente Responsável, selo de qualidade da água, Eco-Escolas, Município Amigo do Desporto, Boas Práticas na área da Cultura. Enfim, várias distinções que valem o que valem, mas só são atribuídas quando efetivamente há desempenhos que os justifiquem e muitas delas são distinções que são atribuídas no cômputo alargado de outros municípios… por exemplo, a que recebemos recentemente de Boas Práticas na área da Cultura, foram candidatos 64 municípios e foi-nos atribuído a nós. Portanto, tudo isso são um conjunto de evidências, por exemplo ao nível financeiro, nós quando chegamos ao município a dívida era superior às receitas correntes.

Nós tínhamos uma dívida cerca de 136% das receitas correntes. Neste momento, a nossa dívida é cerca de 40% das receitas correntes e vai subir este ano por via, de facto, dos fortes investimentos que estamos a fazer porque, efetivamente, o Entroncamento e muitos municípios, e bem, estamos a procurar aproveitar os fundos disponíveis, quer através do PRR, quer através do Portugal 2030, e foi por isso também que o orçamento para 2025 foi o maior orçamento de sempre. Mas obviamente que isto tem aqui alguns momentos em que há algum aumento relativo da dívida, mas mesmo assim vamos fechar o ano de 2024 com uma dívida de cerca de 40% daquilo que são as nossas receitas correntes, quando há 12 anos era 136%.

Depreendo das suas palavras que deixa uma boa herança financeira a quem lhe suceder?

Sem dúvida, não irá ser só herança financeira, como também um conjunto de projetos que estão em execução, que estão planeados, em fase final de aprovação das suas candidaturas. Nós neste momento temos duas candidaturas que estamos a aguardar resposta no 2030, que só por si esgotam quase a totalidade dos fundos que nos estão disponibilizados no 2030, no âmbito do Pacto de Coesão. Mas são projetos que já estão feitos, já estão aprovados, só estão à espera… por exemplo, a Nova Centralidade e a Nova Biblioteca, que é um investimento que vais vai chegar aos 5 milhões de euros. Só estamos, de facto, à espera da aprovação formal da candidatura aos fundos comunitários, que temos a garantia que vai ser aprovada. Já está incluída no nosso pacto, o próprio vice-presidente disse-me que, no máximo, dentro de uma semana teríamos a resposta, acabou ontem essa semana, espero que esteja a chegar.

Há um conjunto de investimentos que estão a ser lançados, com a devida sustentação financeira e técnica, que não tenho dúvidas que quem vier para a Câmara encontrará uma situação de grande segurança e com projetos de grande dimensão em curso.

Entroncamento “é uma terra de chegada” e “está mais inclusiva e solidária” – Jorge Faria. Foto: mediotejo.net

A partir de 31 de janeiro, será a atual vice-presidente, Ilda Joaquim, a assumir a presidência. E nas eleições autárquicas, já se sabe quem vai suceder como candidato do PS à Câmara do Entroncamento? Será Ilda Joaquim, fala-se também de Mário Balsa…

[Ilda Joaquim] Vai assumir a partir de 1 de fevereiro. Eu acho que essa é uma resposta que tem que ser dada pelo Partido Socialista. Eu, de facto, devo dizer que a minha preferência, iria para uma candidatura conjunta da Ilda Joaquim com o Mário Balsa, essa era a minha preferência. Penso que seria uma equipa ganhadora e uma equipa com grande potencial para dar continuidade a este projeto e dar continuidade por longos anos. Agora será uma decisão final do Partido Socialista, também não sei se eles têm esse entendimento. Era a solução que eu gostaria. (Nota – O PS local indicou já Mário Balsa como candidato).

Qual é a herança de que se orgulha? Que obra gostaria de ter realizado e não vai conseguir?

Quando olhamos para um conjunto de anos de atividade e quando há um conjunto de realizações muito diversificadas, não é fácil dizer que é esta ou aquela obra que eu tenho mais gosto. Mas devo dizer que, por exemplo, na área cultural, nós quando chegámos à Câmara, não tínhamos um único equipamento cultural disponível. O único espaço cultural que havia, que era temporário, era pontual, era quando havia alguma realização cultural, era feita numa parte do pavilhão, numa parte de trás das balizas do pavilhão… tinha ali uma cortina a isolar do resto do pavilhão e eram aí que se desenvolviam algumas poucas iniciativas culturais. Ora, também com prejuízo do próprio pavilhão, porque quando se fazia uma atividade cultural, não podia haver em simultâneo outras atividades. Hoje nós reabilitámos o Cineteatro São João, que era um ícone da cidade e é uma obra que, em termos arquitetónicos, me dá muita satisfação. Desenvolvemos o Centro Cultural para o afetar, de facto, à área da cultura e não porque, quando chegámos, a ideia era de um conjunto de bares que nunca funcionou. Abrimos o Museu Nacional Ferroviário em 2015, é um dos bons equipamentos da região e nacional, então ao nível ao nível da ferrovia é um dos bons museus ao nível da Europa. Temos uma Galeria Municipal que desde praticamente o início tem tido exposições permanentes, que vão rodando de 15 em 15 dias. Temos uma lista de espera que eu acho que neste momento já deve ter 3 ou 4 meses, ou seja, é contínua, demos também aí muita possibilidade de expressão aos artistas locais, regionais, alguns nacionais. Tem havido um aumento do público, nós hoje temos cerca de 3400 visitantes por ano, estávamos nos 2800… Não é muito, mas é um crescimento sustentado desta atividade que tem, por exemplo, horários desfasados para mais facilmente poder ser visitável. Isto só para falar dos equipamentos culturais que não tínhamos e que hoje temos.

Temos hoje também já concluída a reabilitação dos bairros ferroviários, nomeadamente o Bairro do Boneco e temos já aí três excelentes espaços, um museológico, outro para instalar o Centro Nacional de Documentação Ferroviária, que está na estação do Oriente e que virá em definitivo para o Entroncamento. A Câmara Municipal e a Assembleia já aprovaram a subconcessão desse espaço ao Museu para instalar o Centro Nacional de Documentação Ferroviária. Ao nível da Fundação, está-se a trabalhar para fazer a transferência desse espólio. É um espólio dos mais importantes na área da documentação ferroviária. Também um novo espaço expositivo nesse Bairro do Boneco e também estamos a trabalhar para instalar o Centro de Ciência Viva da Ferrovia.

No equipamento que estamos a lançar da Nova Biblioteca, que já falta neste momento só a aprovação formal do financiamento, está incluído não só uma nova biblioteca, como espaços expositivos. Ou seja, um conjunto de equipamentos de cultura que nestes anos conseguimos disponibilizar ou projetar e pôr ao serviço da cidade, que de facto há 12 anos não existiam.

Por exemplo, também posso dizer o desporto. Nós sempre fomos visto nos últimos anos como tendo boas infraestruturas desportivas e de facto temos. Mas por exemplo, ao nível de pavilhões, quando chegámos tínhamos um pavilhão único afeto aos desportos de pavilhão e, como disse há pouco, em algumas alturas era limitada a sua utilização, porque aí também funcionavam iniciativas culturais. Hoje temos três pavilhões afetos às atividades de pavilhão e estamos a trabalhar para brevemente ter um novo pavilhão, porque a reabilitação da escola secundária, que está em fase de projeto, quando ficar concluída, o pavilhão da escola será igualmente, nas horas de não utilização para a área educativa, afeto às atividades da comunidade em geral. Portanto, foram contributos que eu penso que são muito importantes e obviamente que isso tem gerado um conjunto de iniciativas por parte da nossa comunidade. Por exemplo, ao nível cultural, nós tínhamos um orfeão, agora temos o orfeão e temos mais o Concórdia, que é mais um grupo de grande qualidade na área da música. Temos um grupo de teatro com grande dinamização, que tem neste momento cerca de 40 pessoas ou mais, a participar nas suas atividades.

Temos também, enfim, algumas dinâmicas culturais. Hoje temos uma programação cultural contínua. Podia ser melhor, podia ser pior… é, de facto, uma programação cultural de acordo com aquilo que são os equipamentos que temos disponíveis. Temos um conjunto de iniciativas no âmbito do Museu Nacional Ferroviário, não só o Festival a Vapor, mas eu gostava também de realçar que, pelo terceiro ano consecutivo, nós vamos ter no Entroncamento em maio, a realização do Railway Summit, que é o maior evento da ferrovia nacional e que se pretende, cada vez mais, que tenha não só a participação de entidades espanholas, mas também de toda a Europa. São iniciativas destas, a reabilitação dos bairros ferroviários que constitui um cartão de visita, temos até mesmo ao nível do Museu, organizado inicialmente em conjunto com a Câmara Municipal, visitas guiadas aos bairros ferroviários e que nós temos recebido, felizmente, muitas felicitações pelo trabalho que conseguimos fazer na perpetuação dessa memória, que é importante essa nossa memória da ferrovia. Esse será, talvez, também um dos aspetos que eu achava relevante que era, ao contrário de algumas e orientações estratégicas anteriores, nós optámos por reabilitar o nosso património ferroviário e valorizar aquilo que nos distingue e aquilo que faz de nós diferentes.

A requalificação e a devolução à população desses bairros ferroviários, com o momento em que entregou as chaves a dezenas de cidadãos, é um dos momentos que se pode destacar?

Claramente. Até porque quando se entrega casas a pessoas e aquelas não são casas de habitação social, são casas de rendas a custos controlados, quer dizer que são a prossecução de uma política pública que nós, no passado, apenas estávamos a habituados a que essas políticas públicas apenas acontecessem nas grandes cidades. Nas pequenas cidades houve há 30 anos algumas iniciativas dessas, mas é muito importante, sobretudo hoje quando se fala tanto nas dificuldades de acesso a habitação, que as entidades públicas, central ou local, possam promover habitação para os seus cidadãos a custos a custos acessíveis, como acontece, aliás, na generalidade dos países europeus, independentemente de serem mais ou menos liberais. Isso, de facto é muito importante e dignificante porque é um contributo para manter condições para que os jovens e as famílias possam continuar a viver nossa cidade e aqui fazer as suas vidas.

Bairro ferroviário do Boneco foi requalificado e devolvido à comunidade. Foto: mediotejo.net

Que obra gostaria de ter realizado e não vai conseguir?

Há sempre novos projetos a realizar e tal como eu não posso dizer assim “estas obras foram mais relevantes”… de facto, o Cineteatro, por aquilo que representava para as pessoas e para a cidade e o resultado final que conseguimos, eu acho que foi interessante. Mas, por exemplo, nós fomos talvez dos primeiros municípios a fazer a transição energética, temos painéis fotovoltaicos, aliás, vê-se ali nos vários edifícios municipais desde 2014. Temos uma frota de autocarros elétricos, praticamente suprimos as nossas necessidades de transportes coletivos através de energias renováveis. A iluminação pública, as piscinas, etc, não é fácil responder à sua questão… E também não pretendo estar a dar orientações, porque quando sair da Câmara, saio da Câmara, não pretendo andar por aí, como se costuma dizer.

Eu acho que a evolução normal aqui da cidade de Entroncamento é avançar para projetos que incorporem cada vez mais software e menos hardware. Nós gostávamos de ter feito o projeto que era a construção de 100 fogos a custos controlados, foi uma perda para a nossa cidade, chumbado pela oposição. Porque nós íamos colocar no mercado 100 fogos a rendas acessíveis .

Atualmente devem estar em projeto ou a ser construídos, cerca de 775 apartamentos no Entroncamento. Mas não era suficiente e esses 100 fogos iria permitir baixar, o custo das rendas, obviamente que com mais oferta diminuía-se  esse custo. Isso era muito importante termos feito, como também gostava de terem sido já realizados alguns investimentos privados que estão a ser desenvolvidos, mas que a Câmara sempre trabalhou nesse sentido e que têm vindo a atrasar-se, nomeadamente o investimento da Medway.

Há também um conjunto de outros investimentos que temos vindo a trabalhar, espero que algum deles se materialize, porque é um contributo muito grande para a consolidação e melhoria do nível de emprego, com maior nível tecnológico e claramente que dá um novo passo da nossa cidade. O grande investimento passa por começar a desenvolver projetos muito ligados à integração das mobilidades. Obviamente que a estação é, de facto, daquelas coisas que eu fico com água na boca de não ter sido feita a sua requalificação e modernização. Infelizmente, não depende de nós. Nós temos uma das estações, ainda hoje, com maior número de passageiros diários, de chegada e de partida e uma das estações mais desatualizadas. A única coisa que fizeram, em 2012, foi aquela passagem superior, que não tem condições de segurança adequadas nem conforto. Já reportei isso a todos os sucessivos Governos, às sucessivas administrações da IP e da CP.

Tínhamos uma ideia inicial, que era promover a realização de um túnel que ligasse as duas partes da cidade e que também dividisse os acessos à estação pelo lado norte e pelo lado sul. Quando nos disseram que eram um investimento que ia muito além, que era um investimento perto de 30 milhões e a IP dizia que só tinha 6 ou 7 milhões… nós não tínhamos o restante, mas depois avançámos para um projeto que já entregamos há cerca de 3 anos, um estudo prévio à IP, para estar dentro daquilo que era o orçamento que eles tinham. Andam a dizer-me que está a ser feito um estudo prévio desde essa altura, portanto… agora pensando, face à sua questão, esse é, de facto, o grande investimento que eu gostava de ter feito, embora, lamentavelmente, não depende de nós, porque esse investimento da modernização dos acessos e melhorar a segurança, ainda por cima agora com a aposta que tem sido feita na ferrovia, era de facto um investimento que também iria ajudar a modernizar a cidade.

Estação ferroviária do Entroncamento. Foto: Arlindo Homem

Não obstante, nós ao estarmos a fazer o novo investimento que chamamos a Nova Centralidade, em frente do Museu Nacional Ferroviário, onde também vamos construir um novo espaço biblioteca, é justamente para repartir as áreas de apoio e de acesso à estação. Nós temos uma realidade que é a seguinte: temos duas freguesias que são separadas por um rio seco, que é a linha de caminho de ferro. Na freguesia de Nossa Senhora de Fátima vive cerca de 65% da população, na outra vivem os restantes 35%. A freguesia de Nossa Senhora de Fátima ainda com pessoas relativamente mais novas, população ainda mais ativa. O que acontece é que as pessoas, embora hoje com a alteração das formas de acesso aos comboios, já não é preciso para todos os comboios comprar o bilhete na bilheteira, mas o que é um facto é que quem quiser vir apanhar o comboio e tiver que comprar bilhete tem que vir para a freguesia de São João Batista. Ou seja, tem que passar pelo cento da cidade, arranjar um estacionamento, quando 65% vive do outro lado.

A nossa estratégia com a criação de uma nova centralidade é também permitir que haja dois acessos à estação. A modernização da estação é, de facto, uma obra que eu penso que qualquer presidente que estivesse aqui teria gosto em ter sido feita.

Entroncamento “é uma terra de chegada” e “está mais inclusiva e solidária” – Jorge Faria. Foto: mediotejo.net

Com a grave crise no Serviço Nacional de Saúde, ao nível dos profissionais e do investimento, como tem sido a questão dos cuidados de saúde primários no concelho? Pacífica ou uma dor de cabeça?

Nós aí temos todos a mania que somos especialistas, mas na saúde, e todos dizemos mal, mas ainda há duas semanas a Organização Mundial da Saúde apresentou um ranking de acesso a um conjunto de cuidados de saúde e Portugal é o terceiro país com melhores acessos a um conjunto largo de cuidados de saúde. Se nós formos ver os rácios dos médicos por habitantes, Portugal tem quase o dobro dos médicos que tem o Canadá, e nesse ranking da Organização Mundial de Saúde era o país com melhores acessos aos cuidados de saúde. Portanto, o que nós temos aqui na saúde em Portugal, a meu ver, e aí não sou eu que digo, já era o anterior primeiro-ministro António Costa, que o referiu muitas vezes, o problema da saúde é um problema de organização. E é um problema da definição, de uma de vez por todas, do que é que nós queremos em Portugal. Queremos um Serviço Nacional de Saúde público ou queremos um conjunto de serviços de medicina privada, que vivem à conta do orçamento de Estado? Se for ver hoje o orçamento de Estado, mais de 50% do orçamento de Estado, direta ou indiretamente, não vai para o Serviço Nacional de Saúde, vai para os privados, e isso tem levado a um completo descontrolo desta situação. No caso concreto do Entroncamento, nós temos uma Unidade de Saúde Familiar, já temos há uns anos, em que a sua constituição teve na base a iniciativa voluntária dos médicos, dos técnicos e na altura ficaram de fora alguns médicos, um porque não tinha a especialidade, outro porque estava perto da reforma, outros também por interesses profissionais dele… De facto, naquilo que diz respeito à Unidade de Saúde Familiar, nós temos uma cobertura de 100% de médico de família. No que diz respeito à outra área, que é o chamado Centro de Saúde, nós temos para aí 5000 pessoas sem médico de família, num universo de 22.000 pessoas, mas algumas dessas pessoas têm médico, só que não é médico de família porque não cumpre os requisitos da especialidade. O que nós temos defendido é que sejam todos integrados na Unidade de Saúde Familiar, que esta seja aumentada e penso que por aí nós não teríamos muitos problemas de contratação de médicos pela simples razão da nossa centralidade.

Aliás, sei que há um médico ou dois que quer vir para o Entroncamento, mas também percebo que quem gere o sistema também não queira, porque isto puxa a manta e destapa os pés, não é? Também percebo que o presidente da ULS também entenda que não devem vir, porque se vierem para o Entroncamento, vão deixar o local onde estão com mais dificuldades, e eu percebo perfeitamente que haja essa gestão.

Mas eu acho que nós temos um bom acesso à saúde, às vezes temos que esperar horas, é verdade. Pode não ser tão eficaz quanto isso, mas eu já tive alguns problemas de saúde… vou-lhe dizer, tenho aqui seis stent, uma rede aqui nas veias que saem do coração. Eu sou colecionador, é uma das razões também porque é altura de pôr fim à minha vida profissional. Devo dizer, quando tiver problemas de saúde graves, eu quero ir para o Serviço Nacional de Saúde.

Entroncamento “é uma terra de chegada” e “está mais inclusiva e solidária” – Jorge Faria. Foto: mediotejo.net

A Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, também a este nível e a outros se tem pronunciado, tem reclamado por uma reunião urgente com a Ministra da Saúde. Qual é a sua leitura do trabalho em rede intermunicipal, ao nível do Médio Tejo, e se a CIM podia ter um papel mais reivindicativo, de alguma forma, em alguns setores da economia e da saúde?

Eu acho que as comunidades intermunicipais, e concretamente a CIM Médio Tejo, têm procurado criar espaços, desenvolver sinergias e acho que nessa perspetiva, todos nós, porque a CIM é o conjunto de todos nós e o conselho intermunicipal é liderado, neste caso pelo presidente de Abrantes, mas lidera o conselho intermunicipal, mas penso que nestes 11 anos tem sido também muito interessante o trabalho que temos feito em conjunto. Temos tido a capacidade de, na procura da defesa dos nossos territórios, temos conseguido consensos ao nível da Comunidade, que são consensos importantes para todos nós. Por isso eu penso que tem tido um trabalho claramente positivo e tem tido sempre a capacidade de todos os presidentes de Câmara que têm passado pela CIM, nalgumas alturas, prescindirem um pouco de alguma coisa para o seu território, para se conseguir uma solução para a nossa região. Normalmente conseguem-se consensos, apesar de às vezes haver algumas discussões… até porque o Entroncamento tem uma característica que também difere muito dos outros municípios, tem uma densidade populacional muito mais elevada, é um território apenas urbano.

Por exemplo o Meio B, os transportes do Médio Tejo, nós temos uma pequena participação porque nós temos uma particularidade, não temos transportes escolares, conseguimos resolver os nossos problemas com os transportes urbanos. Não temos território para além daquilo que é urbano e por isso às vezes o Entroncamento está ali numa situação ou outra diferente dos outros municípios. Mas não obstante, eu penso que se têm conseguido conquistas para o nosso território, que é o resultado do trabalho conjunto de todos, se podiam ser mais ou menos, é natural que sim, mas eu acho que se tem feito. É um caminho que está a ser percorrido, as comunidades intermunicipais também têm este formato relativamente recente, foi também em 2013, com a alteração das freguesias, nomeadamente, que houve uma evolução também daquilo foi o entendimento, também com a descentralização de competências, também foram contempladas com um conjunto de responsabilidades que até aí não tinham e, portanto, é um caminho que está a ser feito em várias áreas. Por exemplo, hoje tem uma intervenção muito forte ao nível dos sapadores, da prevenção nas zonas rurais, nós não temos praticamente floresta, mas também quando precisamos os sapadores também vêm aí, situações muito pontuais. Só para vincar também a nossa diferença entre o Entroncamento, que é um município que está integrado numa comunidade com características que não há mais nenhum igual. Nós somos completamente diferentes do Sardoal, de Mação… Mas a minha opinião é que tem sido feito um trabalho muito positivo por parte da Comunidade Intermunicipal ao nível de captação de investimentos, temos também tido a capacidade de estar na linha da frente e tendo aqui também um handicap muito grande, que nós estamos dentro e fora da CCDR Centro, nós estamos integrados em termos de território na CCDR LVT e só integramos a CCDR Centro para captar financiamentos. Ou seja, naquilo que são instrumentos de gestão territorial temos direito a voto na CCDR LVT, mas depois para captar investimentos vamos à CCDR Centro e, portanto, temos sempre esta situação de territórios marginais, passo a expressão, relativamente à CCDR Centro e por isso nós queixamo-nos e com alguma razão, que às vezes algumas CIM, como a de Coimbra, a de Aveiro, de Leiria, se calhar mais facilmente conseguem aceder a um conjunto de financiamentos.

Não obstante, a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo tem sido uma daquelas que tem tido maior capacidade de realização e de captação. Isso é o resultado do trabalho que tem sido feito.

E vai avançar para uma nova NUT II para poder responder a estas situações…

Exatamente, eu acho que essa foi daquelas reformas que muita gente não se apercebeu ainda, mas que é das mais importantes para a nossa região, é a criação da NUT II, que vai congregar a CIM Médio Tejo, o Oeste e a Lezíria, um território com alguma unidade espacial e muita ligação, que permitirá dessa forma um outro diálogo com as entidades, quer a nível nacional, quer comunitária para o desenvolvimento da nossa região.

A CIM Médio Tejo é composta por autarcas dos 11 municípios, não são todos da mesma cor política, mas todos têm um salutar convívio, digamos assim, no seio da Comunidade Intermunicipal. Pergunto-lhe se esse era um ambiente são, se era um ambiente que gostava que acontecesse no Entroncamento? A convivência política no Entroncamento é muito diferente da que se vive na CIM?

Absolutamente. Eu devo dizer que na CIM nunca temos presente a natureza partidária de cada um dos presidentes. Como disse há pouco, cada um de nós tenta defender o nosso território, tendo sempre uma perspetiva da importância de consensos para o conjunto e é isso que tem acontecido, independentemente das questões partidárias. Obviamente que as relações que temos ao nível da CIMT são entre pessoas e nunca, ou raramente, está presente a natureza partidária. Se gostava que isso fosse replicado para o Entroncamento? Sim, porque eu devo dizer que em três mandatos nunca tive uma oposição como a que temos hoje na Câmara, em que, na minha opinião, as pessoas não têm em conta os interesses da cidade, não têm em conta os interesses das pessoas, mas têm apenas em conta aspetos, diria eu, de interesse pessoal ou partidário. Não consigo perceber como é que se está num mandato público, neste caso autárquico, com essa visão das coisas. Mas eles poderão dizer o mesmo de mim, agora esta é a minha opinião.

Obviamente, gostaria de ter uma oposição preocupada em conseguir e ajudar-nos a conseguir soluções e melhorar a cidade.

Entroncamento “é uma terra de chegada” e “está mais inclusiva e solidária” – Jorge Faria. Foto: mediotejo.net

Na região e no Entroncamento, alguns partidos tradicionais têm vindo a perder terreno e posição na oposição, como por exemplo o PCP, o Bloco de Esquerda, o próprio CDS também já teve representatividade no município e no executivo. Como é a relação com esta nova realidade de vereadores de movimentos independentes, que muitas vezes saltam de partidos, como o Chega?

Relativamente aos chamados partidos mais tradicionais, o CDS, a CDU, o Bloco de Esquerda, nós temos excelentes relações, mesmo com o CDS, só agora na última fase do mandato é que vincaram mais as necessidades entre eles da coligação com o PSD, é que tomaram algumas posições que eu poderia não concordar, mas não tenho que concordar, mas são entidades com as quais temos trabalhado e têm viabilizado também o nosso trabalho e, penso eu, que têm uma boa imagem do nosso trabalho. Relativamente à questão do Chega, é um movimento, um partido novo, uma nova realidade. Eu também não sou sociólogo para fazer essa avaliação, mas tenho as minhas opiniões, mas tem dois tipos de questões: primeiro é um partido, a meu ver, populista, que está a seguir uma estratégia nacional que, a meu ver, é muito perigosa porque é uma estratégia que pode ser ganhadora. Veja-se o que aconteceu, por exemplo, agora nas recentes eleições americanas e por isso, não é um partido que tenha uma orientação estratégica que nós saibamos que eles vão para ali ou vão para a acolá, no sentido do desenvolvimento de uma sociedade. Eles têm uma orientação estratégica só no sentido de obter o poder e são, normalmente, pessoas que depois não são consistentes, não têm uma dimensão, digamos, de consistência para dar continuidade às suas políticas. Depois tem outra dimensão que, ao nível da das eleições autárquicas, já não será tanto nas próximas eleições, mas foi o que aconteceu nas últimas eleições, as listas do Chega foram constituídas por pessoas que não tinham qualquer ligação às suas comunidades, ligação no sentido em que não participavam em associações, sejam elas de que natureza forem, não participavam em intervenções para a comunidade, apareceram só no mote de contra o sistema e algumas delas nem sequer tinham noção daquilo…

Uma das pessoas foi eleita para a Assembleia Municipal achava que estava eleita como vereadora, logo ao princípio, achava, por exemplo, que a partir daí deixava de pagar taxas urbanísticas na Câmara. Ou seja, denota um desconhecimento do funcionamento da sociedade que a mim me surpreende muito, porque é de pessoas que querem dar um contributo e por isso só se refugiam nos contributos negativos, explorarem as emoções, na ofensa, e tentarem denegrir a imagem de quem está a tentar dar o seu melhor, fazendo bem ou mal, mas a tentar dar o seu melhor para a comunidade. Isso, de facto, é uma nova realidade. Não tem nada a ver com o CDS, não tem nada a ver com PCP, com o Bloco de Esquerda, que eram partidos que têm uma construção ideológica, têm ideias e estou a falar justamente do CDS e do Bloco de Esquerda, porque são partidos com quadrantes políticos diferentes, mas são partidos com uma construção ideológica, com objetivos de sociedade. Nós podemos dizer que concordo mais com este ou mais com aquele, mas com quem é fácil estabelecer pontes. Agora com indivíduos que estão aqui e que não têm noção do que estão a fazer, são indivíduos que não têm uma formação cívica e política para darem contributos para a sociedade, que apenas estão aqui para denegrir, para ofender e que só foram eleitos por uma razão.

As pessoas não votaram nos elementos para a Câmara do partido Chega, as pessoas votaram no André Ventura. Porque aliás, também foi o André Ventura que vendeu essa imagem que ele estava presente em todas as candidaturas autárquicas. Havia muita gente que estava a pensar que estava a votar no André Ventura. Portanto, são realidades novas, não sei como é que vai ser nas próximas eleições. Por um lado, o Chega está mais institucionalizado, devo dizer que neste momento a liderança local do Chega, a presidente da concelhia da estrutura local, é uma pessoa já bastante cordata, temos conversado, não tem nada a ver com o indivíduo que está a representar, que agora está independente, mas que foi eleito no âmbito das listas do Chega e que está na Câmara. Portanto, não sei o que é que o futuro vai reservar nesta diferença, num movimento que surge apenas do contra… ainda onde ontem ouvi alguns excertos do discurso do presidente Biden e aquilo que a mim me foi mais relevante foi o pôr em cima da mesa um aspeto que também me preocupa:

Nós estamos neste momento no limiar de sermos controlados por um conjunto de forças não validadas democraticamente, através de ferramentas que a maior parte das pessoas não têm noção, que são as redes sociais que hoje permitem controlar grandes massas com base nas emoções, com base naquilo que são as reações emotivas das pessoas. Vamos ver o que é que o futuro nos reserva.

Não há uma resposta para lidar com este com este fenómeno, mas pergunto-lhe se marginalizar a extrema-direita pode ser bom ou mau para o sistema político?

Eu acho que a resposta tem que passar por uma aposta forte na cultura, por uma aposta forte na informação, mas digo-lhe que mais que isso, eu acho que o que era importante era os povos e os países terem a consciência… vou dar um exemplo, nós temos na Europa, nos países ocidentais, temos um conjunto de reguladores, o Banco de Portugal que regula a questão da moeda, do funcionamento bancário, essas coisas todas. Temos vários reguladores e temos uma lei da concorrência… Agora, relativamente às redes sociais, nós estamos a ficar controlados por dois ou três indivíduos que têm fortunas imensas e obscenas, que não têm qualquer regulação.

Hoje em dia, por exemplo, a inteligência artificial é uma das áreas que todos nós estamos a tentar procurar aprender qualquer coisa em termos de curiosidade, há um conjunto de ferramentas ao nível das redes sociais que permitem que alguém controle aquilo que você vai receber… se calhar tem que se pôr na ordem do dia haver uma regulação, ao nível das sociedades, internacional ou internacional, que permita aqui alguma validação. Ainda agora ouvimos o do Facebook dizer que vai acabar com a validação das notícias, como se aquilo que é feito hoje tivesse algum sentido, porque se há milhões e milhões no mundo de informações a todo momento, alguém a validar meia dúzia delas, não tem qualquer significado estatístico, mas pelo menos havia ali um princípio de, digamos, dar ideia de que era controlada a veracidade.

Portanto, eu acho que aí vai ser um grande desafio, não sei se é a questão de ostracizar ou não a extrema-direita, o mais importante é que as pessoas possam ter ferramentas que permitam ter alguma formação e tomar decisões com consciência.

Neste último mandato a correlação de forças levou a que a gestão do município fosse do Partido Socialista, mas a oposição quando unida, três vereadores do PSD, com um vereador eleito pelo Chega, agora independente, podiam e inviabilizaram várias medidas do PS. Foi muito desgastante? A posição do PSD desiludiu-o, de alguma forma?

A posição do PSD eu respeito-a e respeito muitas decisões. Há muitas decisões, ao nível nacional que eu subscrevo, não é pelo facto de ser pelo PSD. Há figuras tradicionais do PSD a nível nacional que eu, de facto, acho que foram grandes estadistas em Portugal. Não é essa a questão. A questão é que eu penso que as pessoas que estão a representar o PSD nas estruturas autárquicas, no Entroncamento, não me parece que tenham uma reflexão sobre aquilo que são os problemas da cidade, sobre aquilo que são as possibilidades. É normal, quando se faz uma candidatura, haver um conjunto de ideias estratégicas e aí devo dizer que nós procurámos e penso que conseguimos realizar o core de todas as nossas ideias estratégicas. Mas depois também temos que ajustar com aquilo que são as ferramentas disponíveis. Eu podia querer dar prioridade ao investimento A, mas se agora os fundos comunitários, porque nós temos que ter noção da realidade, se não fossem os fundos comunitários, a generalidade das câmaras não tinha a possibilidade de fazer os investimentos que fazem hoje. Se os fundos comunitários disponíveis são para o para B, eu tenho que ajustar, não esquecer o A, mas tenho de ajustar para o B. Portanto, as pessoas que estão do PSD não têm o mínimo de cultura técnico-política dessa matéria. Na minha opinião têm sido pessoas que não têm sabido respeitar o esforço de todos aqueles, e não é só dos eleitos, é também dos funcionários. Não têm sabido respeitar o trabalho que aqui é desenvolvido e, por meros caprichos, não aprovam algumas propostas… não percebo que sejam opções ideológicas porque, por exemplo, a construção dos 100 fogos a custos controlados, foi lançada essa premência pelo PS, mas o PSD chegou ao Governo, manteve, e está a dar continuidade e a aprofundar a necessidade de se construírem casas a custos controlados para intervir no mercado. O PSD local não tem esse entendimento. Se fosse uma questão ideológica, o PSD nacional chegava lá e cortava, como cortou com algumas decisões e está no seu direito, está a governar. Por exemplo, o que é que faz o PSD local chumbar o CLDS, um projeto onde o Entroncamento, nas duas edições onde foi possível participar, foi elogiado pela sua competência e capacidade de realização, pelos resultados obtidos em prol da população… O que é que leva eleitos do PSD a chumbar coisas destas? É ideológico?

Obviamente que o eleito do Chega é uma pessoa que não tem qualquer sensibilidade social, não tem qualquer noção do que é responsabilidade social, não tem noção do que é viver em sociedade e respeitar as minorias, desenvolver capacidades para nós podermos ajudar e não deixar ninguém para trás. É isso que a mim me orgulha, de ter trabalhado nesta Câmara e trabalhado também em nome do PS, que é criar condições para que todos possam ter as mesmas oportunidades e não deixamos ninguém para trás. Hoje temos nas escolas um conjunto de intervenções, por isso temos esta designação de cidade educadora, não é por acaso, é porque se desenvolveram um conjunto de intervenções porque nós estamos atentos àqueles que menos condições têm, sejam económicas ou capacidades e estamos a criar mecanismos para os ajudar, para que eles possam ter as mesmas oportunidades que os meus filhos têm. Isso dá-me orgulho. Não percebo como é que nós temos indivíduos que se propõe intervir na sua comunidade, e isso é muito louvável, porque o mais fácil é haver gente a dizer que “eles não sabem nada do que fazem”, mas nunca se propõem fazer nada. Eu não percebo como é que há indivíduos que se propõem fazer, e alguns deles, no caso do PSD, ligados a partidos institucionais, que depois do seu dia a dia, mesmo aquilo que são políticas públicas assumidas nacionalmente, aqui não permitem que se façam só pela simples razão de tentar evitar que este executivo faça. Mas quem perde é a cidade. Eu só perco porque, de facto, era muito mais agradável ter reuniões cordatas do que as reuniões que tenho agora. Isso eu não percebo.

Entroncamento “é uma terra de chegada” e “está mais inclusiva e solidária” – Jorge Faria. Foto: mediotejo.net

A região do Médio Tejo tem recebido, cada vez mais, maior número de imigrantes. No seu concelho, tem esses números? Estão todos a trabalhar? Em que áreas? E o que pensa deste multiculturalismo?

Nós trabalhamos para que seja uma terra de chegada. Obviamente que há muita gente que não gosta de me ouvir dizer isto, mas eu acho que a vinda de pessoas para o Entroncamento é muito positivo, é uma bênção para a cidade. O que acontece hoje não é diferente do que aconteceu no passado. No passado, as pessoas vinham da Beira Baixa, vinham da linha do Leste, da linha do Norte ou vinham de outros pontos do país. Neste momento, vêm da zona da grande Lisboa, vem de países estrangeiros, a maior parte deles de língua portuguesa, Angola, Brasil, São Tomé e Cabo Verde, também Ucrânia, etc. Portanto, ao longo dos anos o Entroncamento sempre teve capacidade para acolher e integrar as pessoas que nos procuravam. É isso que nós tentamos fazer e penso que o estamos a fazer com sucesso. Nós hoje temos mais de 50 nacionalidades na cidade, praticamente 35% dos estudantes do ensino público são filhos de imigrantes que, alguns deles quando chegam cá, sobretudo países asiáticos, não falam a língua sequer. Ou outros, como por exemplo, nós temos uma grande comunidade de miúdos angolanos, eles falam português, mas os currículos são diferentes. Há uma necessidade de integração e de adaptação, que eu acho que tem sido feito com grande sucesso, quer pela Câmara Municipal, quer pelo Agrupamento de Escolas e até pelos próprios alunos. São os próprios alunos que ajudam muito facilmente a socializar aqueles que vêm e têm noção da dificuldade que é o miúdo vir de um país diferente, com realidades diferentes e vir para um local novo. Isso penso que tem sido uma prova de fogo muito grande para o Entroncamento, apesar de algumas mensagens que circulam na internet ou daquilo que algumas pessoas dizem. Obviamente que é assim, nós andamos na rua e ver pessoas de cores diferentes, com formas de vestir diferentes, cria alguma insegurança a todos nós, é uma diferença. Mas depois vamo-nos apercebendo, por exemplo, os angolanos… neste momento, mais de metade dos miúdos que nós temos nas escolas públicas são filhos de angolanos, é uma realidade que nós já tentamos procurar o porquê e tem a ver muito com as pessoas que vêm são aqui bem recebidas, são integradas, arranjam trabalho, passam a palavra e já vem muita gente de Angola dirigida ao Entroncamento. Aconteceu alguma coisa com a nossa emigração nos anos 50.

Também gostava de fazer um agradecimento a todas as pessoas do Entroncamento, porque têm tido essa capacidade de integrar… o mercado de habitação não funcionava e hoje em dia é um mercado florescente, se calhar algo especulativo, por isso é que era importante colocarmos mais casas públicas no mercado. As escolas… imagine o que era o nosso sistema de ensino sem 1250 alunos, era equivalente a fechar a Escola Ruy D’Andrade e se calhar a Escola António Gedeão, que têm na sua totalidade cento e muitos professores e mais de 100 assistentes operacionais. Quantas empresas é que não teriam dificuldade em funcionar se não fossem os emigrantes? Agora, com isto também vêm pessoas que trazem problemas? Obviamente. Mas nós não temos, ao nível do rendimento social de inserção, uma percentagem muito maior de pessoas imigrantes do que o resto. Ao nível dos problemas sociais temos pontualmente algumas famílias, algum acréscimo de necessidade de apoio social, mas não é coisa que nos tivesse criado grandes problemas.

É frequente dizerem que vivem 12 ou 14 numa casa, mas as situações que nós temos conhecimento foram duas até ao momento. Uma está a ser gerida pela Segurança Social, é uma comunidade chinesa, mas também vivem numa casa que é uma vivenda bem grande, não é uma casa de duas assoalhadas. Mas nós estamos atentos ao problema, a Segurança Social está atenta, nem eles sabem exatamente quantas pessoas, mas temos noção que vivem ali pessoas a mais.

Tivemos uma situação pontual em que tivemos aqui um conjunto de paquistaneses que saíram de trabalhos da agricultura nos campos da Golegã ou da Chamusca, que foram aqui colocados numa pensão, mas nós em dois dias resolvemos o problema. Apoiámo-los e canalizámos para os locais devidos. Ou seja, não temos tido, felizmente, problemas nessa matéria.

Nós temos uma iniciativa que já fizemos umas três vezes, que é um encontro intercultural, que tem como objetivo promover a integração também na diversidade, no multiculturalismo, que é muito importante. Temos uma parceria com a Embaixada de Angola, em que já fizemos aqui pelo menos três vezes serviços consulares descentralizados.

Entroncamento promove encontros interculturais. Foto arquivo: mediotejo.net

Temos uma iniciativa gira que são os “políticos de palmo e meio”, e, que todos os anos nós temos aqui, no salão nobre, as turmas do último ano do ensino básico, em que cada turma elege dois delegados e funciona aqui um mini parlamento. Eles trazem os problemas e apresentam. Um até fizemos no Cineteatro e por acaso o Cônsul-Geral de Angola esteve cá e ficou muito agradado com aquilo. Sabe o que é que alguns alunos brasileiros ou angolanos colocam ao presidente da Câmara? Como é que o pai pode ter um emprego mais estável sem ser a contrato. São questões que os nossos miúdos, felizmente, já não têm tanto. Agora acho que nós nos devemos sentir agradados por sermos uma comunidade que tem capacidade de receber pessoas e contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Há quem associe índices de criminalidade à imigração, apontando como responsáveis pela criminalidade a comunidade imigrante. Que leitura faz desta situação, no caso concreto do Entroncamento?

Não subscrevo porque não tenho qualquer indicador que me dê essa informação de associação de maior criminalidade às populações imigrantes. Alguns dos problemas que temos com populações imigrantes, são alguns grupos de pessoas relativamente jovens que pontualmente, em algumas comemorações, são capazes de incomodar com o barulho. Mas eu devo dizer que havia ali alguma queixa num daqueles bares que funcionam junto ao mercado e com razão provavelmente, em que as pessoas se queixavam que estavam lá com música e cá fora alto. Um dia, até depois de ir a uma a uma sessão no Cineteatro, passei lá e falei com as pessoas. Não sei se recomeçaram mais tarde, mas dois minutos depois e acataram logo, começaram a falar mais baixo.

Muitas vezes eles também têm desconhecimento. Dizem que angolanos colocam resíduos nas papeleiras, nós também temos de perceber que eles não têm conhecimento do funcionamento destes equipamentos, que não os têm na terra deles. Nós transmitimos e temos essa preocupação também de informar as pessoas, quando vêm fazer um contrato de água, de que as papeleiras não são para colocar os resíduos normais e as pessoas compreendem.

Nós não temos tido problemas de segurança na nossa cidade que eu diga assim, são associados ao grupo imigrante, A ou B. Podem ser associados a grupos que andam aí nos negócios ilegais, mas que alguns já existiam ligados a determinadas comunidades, que a polícia tem vindo a fazer o seu trabalho.

Ainda há pouco tempo, mais uma vez, Portugal foi classificado como um dos países mais seguros do mundo. As pessoas que vêm para aqui dizem que isto é o paraíso, quem conhece outros países do mundo sabe bem que é assim. De facto, nós tivemos aqui alguns períodos com níveis de insegurança, que eu próprio tinha muita preocupação, sobretudo tivemos muita perceção de insegurança e temos muitas pessoas nas redes sociais, a querer que haja a ideia de que há grande insegurança. Olhe, curiosamente, o pico maior de insegurança que aconteceu no Entroncamento foram nos seis meses que antecederam as últimas eleições autárquicas, com petardos e depois toda a gente falava que era a comunidade A, B ou C. Curiosamente, acabaram as eleições e esse esse nível de insegurança baixou drasticamente. Se calhar estamos aqui perante pessoas que, em vez de pugnarem para melhorar a nossa comunidade ainda gostam que se criem dificuldades.

O certo é que um antigo desejo dos profissionais de segurança, uma nova esquadra da PSP vai mesmo avançar na cidade e também vai ser instalado um sistema de videovigilância. Também pode contribuir para um aumento do sentimento de segurança?

Eu penso que nós temos um défice de efetivos de segurança a nível nacional e no Entroncamento também em particular. Nós temos pugnado por isso. Tenho a garantia do senhor diretor distrital da PSP que, quando a esquadra estiver concluída, pelo menos uma das equipas de intervenção rápida será sediada no Entroncamento e isso é muito importante. Nós não descuramos a possibilidade de trabalhar para melhorar as condições das forças de segurança e para assegurar que tenhamos mais efetivos ou que tenhamos outras ferramentas, como seja a instalação do sistema de câmaras de videovigilância, que neste momento só está dependente da tutela. Mas isso é completamente diferente de andarmos aqui a apregoar que o Entroncamento é uma terra insegura. Eu não tenho nem nunca tive qualquer dificuldade em circular no Entroncamento, noite ou dia, nem vejo que isso seja um grande problema. Mas, de facto, estamos empenhados em concluir a esquadra, era para ficar concluída no princípio do mês de fevereiro, vai haver um adiamento até abril, mas penso que até abril teremos a esquadra concluída.

As câmaras de videovigilância, neste momento tanto podemos ter uma resposta imediata e depois é uma questão só de instalar, desenvolver o projeto para instalar, não posso comprometer-me com prazo. O prazo da esquadra será, em princípio, abril.

No Entroncamento, como em todo o país, está a decorrer uma revolução na habitação. Tem havido, por vezes, dificuldades em conseguir que as empreitadas sejam adjudicadas e a resposta dos setores da construção civil a tanta procura. Apesar dos 100 apartamentos a custos acessíveis não avançarem, o Entroncamento tem sido referência a nível nacional neste processo de habitação. Tem receio de que o que tem em mãos possa ficar pelo caminho pela falta de mão-de-obra?

Voltando atrás e isso é que é estranho, o PSD tem aprovado a habitação social e não aprovou habitação a custos controlados. Não aprovou habitação para a classe média, isso é que é estranho. Nós tivemos a reabilitação dos bairros ferroviários, o bairro Camões e o bairro da Vila Verde com formatos diferentes e que estão já concluídos, em fase final de instalação de novas famílias. Temos agora, no bairro da Vila Verde, mais 22 casas que vão ser sujeitas a concurso nacional e perfeitamente transparente, promovido pelo IHRU, para lá colocar novas famílias.

Depois, ao nível da habitação social, a nossa Estratégia Local de Habitação pressupunha a construção de 120 novas casas e a reabilitação de 104 apartamentos, que já temos. Das 120 novas casas, o ponto da situação é o seguinte: 64 estão em construção, são 8 blocos de habitação e que a sua construção vai ficar concluída até ao verão. Portanto, as famílias serão instaladas nessas casas até ao final do ano, seguramente. Eu até já disse que o normal é as pessoas lá irem passar o próximo Natal. Nessas 64 casas não vejo que haja problemas, a execução está a decorrer normalmente.

Depois, as outras 56 novas casas, nós neste momento já temos os projetos aprovados, temos o relatório final para a adjudicação, quer dizer que já temos um empreiteiro porque, como disse e bem, tem havido algumas dificuldades por parte dos empreiteiros… nós até tivemos várias propostas válidas e, portanto, estamos em condições de fazer a adjudicação. Só falta uma coisa, falta o desbloquear do financiamento parte do IHRU, que neste momento está a ser um grande problema para nós e para todos os municípios que apostaram fortemente em dar seguimento às estratégias da administração central.

Entroncamento avança com construção de 6 blocos de habitação social e 15 moradias. Foto: DR

Os 74 apartamentos que estamos a construir, em termos financeiros, já pagámos mais de 2 milhões de euros e recebemos um adiantamento para isso, mas se não houver agora ferramentas para disponibilizar rapidamente os pagamentos das novas faturas, nós podemos ter problemas de tesouraria chatos. Relativamente às novas 56 casas, nós estamos agora só a aguardar a aprovação formal do projeto. Se a aprovação formal vier amanhã, nós podemos avançar já em fevereiro com a consignação. Se não vier, põem em causa o cumprimento dos prazos do PRR. Nós, neste momento, da nossa parte, temos todas as condições para cumprir a construção das 120 casas até 30/06/2026 se o IHRU desbloquear os financiamentos. Este é um problema nosso, mas também da generalidade dos municípios.

Teve aqui vários ministros, tanto do PS como PSD, que vieram aqui para conhecer esta realidade, é um sinal que este processo foi bem agarrado?

Eu penso que sim. Relativamente à reabilitação dos 64 fogos, a obra vai ser consignada segunda-feira, tem um prazo de execução de 12 meses, são 1 milhão e 200 mil euros e não vamos ter dificuldades. A nossa dificuldade é se o IHRU não disponibiliza os dinheiros a tempo. Porque nos três processos que temos nesta área da habitação social, nós estamos a falar de cerca de 21 milhões de euros e 21 milhões de euros para o município do Entroncamento, tem capacidade de execução, mas se não houver as contrapartidas em tempo pode criar muitos problemas.

Vou-lhe dar um exemplo da esquadra. Nós somos o responsável da obra com base num contrato inteir-administrativo com o Ministério da Administração Interna. Isto passa-se assim, nós pagamos uma fatura, enviamos para o Ministério e passado um mê, recebemos o dinheiro. Se o IHR fizer a mesma coisa, nós não vamos ter problemas nenhuns e vamos, com certeza, concluir em tempo o parque habitacional e o alojamento das pessoas a que nos propúnhamos.

Entroncamento “é uma terra de chegada” e “está mais inclusiva e solidária” – Jorge Faria. Foto: mediotejo.net

O Entroncamento é conhecido como cidade ferroviária e essa é a sua identidade. É um berço ferroviário, mas também é conhecida como a cidade dos fenómenos. Como é que vê estas duas referências?

São referências completamente diferentes. Eu diria que a ferrovia é o nosso ADN, porque houve alturas em que no Entroncamento trabalhavam mais de 3000 pessoas diretamente na ferrovia. As famílias que vivem cá há mais anos, não há família que ainda hoje não tenho uma ligação direta ou indiretamente à ferrovia. Quem veio das aldeias trabalhar para a ferrovia procurava melhor qualidade de vida para si e para os seus. Eu acho que os ferroviários no passado e hoje, provavelmente, tinham uma característica que valorizava, muito as aprendizagens. Valorizavam o facto de poderem ter acesso à formação para si, mas também promover a formação dos seus filhos. Eu direi que, seguramente, as pessoas da minha geração, nós tínhamos taxas de pessoas licenciadas muito superiores a outras regiões do país. Não era porque nós fossemos mais inteligentes ou menos inteligentes, é porque tínhamos oportunidade, o acesso do comboio a Lisboa, Coimbra e tínhamos também famílias que valorizavam a formação das novas gerações.

Eu vejo isso em alguns grupos, por exemplo os imigrantes de Angola, daquilo que conheço, dão uma importância muito grande à formação dos seus filhos. Portanto, não há miúdos angolanos que vão para a escola e que não vão bem arranjados e que quando chamam os pais dos miúdos, as mães angolanas estão lá sempre. Quer dizer que há uma preocupação com a educação dos seus filhos. Essa era uma matriz da ferrovia, uma matriz que eu acho que nos diferencia enquanto comunidade.

Os fenómenos é uma referência que não tem vindo a ser trabalhada muito bem e eu também falo contra nós, por várias razões. Uma das razões é que quando nós pegámos nesse assunto, concluímos que havia uma entidade privada que tinha registado essa marca em quase em tudo. Portanto, aí houve alguma dificuldade para nós trabalharmos isto de uma forma institucional. Não obstante isso, trabalhamos com essa marca, A Casa Carloto, com no sentido de consubstanciar esse nome, mas são referências completamente diferentes.

Por exemplo, nós temos estado a trabalhar com a Medway, a CP, que estão a desenvolver investimentos que eu penso que irão manter o Entroncamento como o grande cluster ferroviário. A Medway tem em vias de, penso que este semestre, de arrancar o investimento da sua entidade de manutenção de vagões, construção de vagões e locomotivas, de acordo com aquilo que são os projetos que estão definidos. No total, irá empregar cerca de 450 pessoas, neste momento já tem perto de 150. Estamos a falar de mais 250 a 300 postos de trabalho. O Entroncamento é o único local onde existe uma oficina de rodados e com desenvolvimento da ferrovia é preciso mais. A CP vai fazer investimentos aqui nessa área, como também os dois grandes investimentos que a CP está a desenvolver, ao nível de material circulante, uma parte desse material circulante também há de ser feita no Entroncamento. Tal como, por exemplo, o chamado projeto do Comboio Português, que é uma das agendas mobilizadoras da economia, também o Entroncamento tem algumas áreas em que poderá dar contributos. O próprio projeto Medway está integrado numa agenda mobilizadora para a economia, na área dos transportes de mercadorias ferroviárias. Ainda agora está a iniciar-se um novo parque de logística, que até vai ser concorrente da Medway, mas que vai ter também para nós uma grande vantagem, com a entrada e já está a começar a funcionar este terminal logístico do Entroncamento – OJE, um terminal ferro-rodoviário que vai ter aqui uma particularidade que é muito importante. Hoje nós temos ligações diárias de comboio do Entroncamento para o porto de águas profundas de Sines, esporadicamente para Leixões. Com a entrada em funcionamento da OJE, essas ligações passam também a ser diárias para Leixões e até para a Figueira da Foz.

Isto da concorrência é importante, a Medway, apesar das excelentes relações que temos com eles, podem não ter gostado muito, mas penso que a Maersk, que são os dois grandes concorrentes mundiais, vai também estar muito ligada a esse novo parque. Isso é bom em termos de concorrência, em termos de redução dos custos e em termos, sobretudo, de facilidade de importação e de exportação de mercadorias não do Entroncamento, mas da nossa região.

Entroncamento lança concurso de fotografia sobre costumes e tradições. Foto: Arlindo Homem

Neste momento já são movimentados mais contentores na nossa região e Torres Novas do que no porto de Setúbal e às vezes as pessoas podem não ter bem essa noção. Portanto, são áreas de logística e manutenção ferroviária que vão sendo consolidadas e que fazem a diferença no Entroncamento e que mantêm o Entroncamento como o cluster da indústria ferroviária em Portugal.

Pode-se fechar com um brinde ao futuro do Entroncamento, mantendo o ADN e reforçando essa identidade do futuro?

Como habitante do Entroncamento e pessoa que gosta… eu devo dizer que quando andava a estudar e quando dizia que ia passar o fim de semana a casa, perguntavam-me o que é que há lá de especial no Entroncamento. É o Entroncamento, são os amigos e a nossa comunidade. O que eu quero é que seja uma comunidade cada vez mais interventiva, mantenha este cluster ferroviário e sobretudo, uma comunidade aberta, inclusiva, também solidária e uma comunidade moderna, no sentido de poder estar na primeira linha daquilo que são as inovações tecnológicas e de desenvolvimento económico e social.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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2 Comments

  1. Este indivíduo só denegriu o entroncamento, foram de atraso. Arrogante para os funcionários da câmara.
    O pior presidente que já passou no entroncamento.
    Vai e nunca voltes.
    Deixas te uma cidade ao abandono.
    Obrigado por nada.

  2. Eu Albertino Luis, 74 anos «, nascido na Serra de Cima – Sabacheira – Tomar, há 60 anos atrás inaugurei a Escola Industrial e Comercial do Entroncamento (Secção de Tomar). Habitante a 100% desde 1987.
    O Sr. Presidente: Jorge Manual Alves Faria, foi um Sr. presidente sempre a pensar no desenvolvimento, segurança, habitação, um Entroncamento para o povo. Infelizmente as forças politicas do antigo regime começaram a criar-lhe problemas e mais problemas a quando nas votações em Assembleias de Câmara. Porquê a intenção era criar uma instabilidade e má governação, para nas próximas eleições fazerem o assalto ao poder. É certo que a juventude, que vota nestes partidos não sofreu na pele:
    (quem queria comer, tinha de semear e colher).Os anos que se seguem vão voltar. As guerras estão mais próximas do que pensam. Quero desejar ao Sr. Prof. Jorge Faria, as maiores felicidades nos seus projectos. Um bem haja

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