Até este domingo, dia 2 de junho, são esperadas 50 mil pessoas na 3º edição do Portugal Air Summit, em Ponte de Sor. Com os melhores do mundo da aviação tem chegado à cidade uma lufada de arrojo e de novos investimentos. O presidente da autarquia, Hugo Hilário (PS), diz que a sua grande ambição é deixar um melhor concelho do que aquele que encontrou quando se sentou pela primeira vez na cadeira da presidência. Para isso em muito contribuirá o ‘cluster’ aeronáutico ali criado mas esse, defende, é apenas um ponto de partida: “Atrair capital humano qualificado para Ponte de Sor é o grande desafio do futuro”.
A cimeira Portugal Air Summit decorre pela terceira vez em Ponte de Sor. Como surgiu a ideia de criar uma cimeira aberta ao mundo no Interior de Portugal? É um ‘bebé’ seu?
É um ‘bebé’ nosso, do município de Ponte de Sor e da empresa The Race, que é nossa parceira desde a primeira hora. Nasceu em consequência do nosso investimento na criação de postos de trabalho e na captação de investimento externo. Tudo começou há alguns anos com a construção do Aeródromo Municipal, na época fruto da visão do anterior presidente da Câmara, Taveira Pinto, no sentido de dar execução à carta estratégica do concelho de Ponte de Sor que já indicava as potencialidades de localização geográfica, de meteorologia, da orografia do terreno e até, para dar apoio a algumas pequenas indústrias existentes na área da aeronáutica.
Passados uns anos o município candidatou-se num concurso estatal para ser sede dos meios aéreos da Proteção Civil, e felizmente ganhou esse concurso. Entre os requisitos obrigatórios, foi aumentada a pista para garantir que um meio aéreo que o Estado planeava comprar pudesse operar no aeródromo. O Estado acabou por não comprar esse meio aéreo, optando pela aquisição de helicópteros, e ficámos com uma pista com quase dois quilómetros… Há males que vêm por bem, pusemos os pés ao caminho para rentabilizar a infraestrutura e conseguimos.
O Aeródromo de Ponte de Sor emprega hoje mais de 300 pessoas, tem uma dúzia de empresas, entre as quais a maior escola de pilotos da Europa, uma das maiores empresas europeias de fabricação e operação de drones, outra de produção de máscaras de oxigénio para a aviação pressurizada, a sede de meios aéreos da Proteção Civil, e muitas outras, que nos dão a garantia de consolidação e de sustentabilidade deste investimento.

O passo seguinte foi então a promoção?
Quando ficámos suficientemente atrativos para o investidor começámos a promover o ‘cluster’ fora de portas e, em 2016, decidimos fazer um evento lúdico com uma corrida de aviões, que de alguma forma nos dava a imagem e a publicidade que precisávamos. Mas em 2017 quis algo com mais conteúdo, que pudesse dar um contributo a Ponte de Sor, ao aeródromo e ao sector da aeronáutica no País. Quando consultámos os ‘players’ e ‘stakeholders’ do sector percebemos que toda a gente tinha vontade de que existisse um fórum desta natureza para poder discutir os assuntos. Depressa passámos de uma manhã de conferências com uma corrida para três dias de conferências e um dia lúdico.
E Ponte de Sor tem as características necessárias para o crescimento do sector?
Sim. Ótima infraestrutura, pela centralidade – uma hora e pouco de Lisboa, uma hora de Espanha, uma hora de Leiria –, e as condições meteorológicas são absolutamente diferenciadoras para uma escola de aviação, não há comparação com o que são em Londres ou em Amesterdão, ou noutro lado qualquer. Aqui os alunos da escola começam a voar às 07h00 e param quando entendem – até à meia-noite se quiserem, porque a pista tem iluminação noturna. As horas de sol por ano são muito mais do que noutros locais com aeródromos deste género, os dias de chuva também são menos, o vento é regrado e fácil de se prever e controlar e, principalmente, não há congestionamento de tráfego aéreo.
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Hugo Hilário nasceu há 40 anos em Portalegre mas sempre viveu em Ponte de Sor (excepto o tempo passado em Coimbra, onde se formou em Engenharia Química). Cumpre o seu segundo mandato como presidente da Câmara Municipal, eleito pelo Partido Socialista, mas antes de assumir funções partidárias foi diretor industrial na Corticeira Amorim durante dez anos e encara a política como um serviço com um tempo determinado, não como uma carreira profissional.
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Quantas pessoas e quantas empresas estiveram em 2018 no Air Summit?
Na edição passada estiveram no Portugal Air Summit perto de 30 mil pessoas. Estiveram 70 empresas representadas, este ano vamos ter mais de uma centena. O evento em 2017 correu muito bem e o desafio era ver o que acontecia em 2018, porque estávamos todos com uma expectativa elevada. Voltou a correr muito bem. Tivemos de juntar alguns esforços, pedir ajuda e criar sinergias a nível institucional, nomeadamente com o Ministério da Economia, com o Ministério da Defesa, com o Ministério do Planeamento e Infraestruturas, Autoridade Nacional da Proteção Civil a própria NAVE e outras entidades que se mostraram disponíveis para nos apoiar.
Note-se que Ponte de Sor é o único município membro do Cluster Nacional para a Aeronáutica, Espaço e Defesa, também para partilhar este risco com quem está mais ligado ao sector, porque estamos a falar de um evento cujo orçamento é dez vezes superior ao maior evento que Ponte de Sor alguma vez tinha organizado. Neste momento o Air Summit custa perto de 800 mil euros.

Algo mudou no concelho ao acolher esta cimeira, que está em crescimento, mas será sustentável a longo prazo?
A sustentabilidade deste tipo de evento depende dos apoios a nível institucional e governativo, apoios públicos, mas passa muito pela presença do privado, da indústria que está a começar a vir agora, das próprias companhias aéreas, das empresas de componentes, das escolas de aviação. O objetivo do Portugal Air Summit no futuro é alargar cada vez mais as suas áreas de intervenção e não estar só com universidades ou escolas de aviação. Neste momento, 30% do orçamento do evento é assegurado pelos privados que participam.
O que fez mudar o concelho não foi propriamente o Air Summit, que são três dias de muito movimento na cidade e no concelho, mas foi a riqueza e a criação de postos de trabalho que o sector da aeronáutica dá a Ponte de Sor. O meu foco é aí: só crescemos se houver criação de riqueza, só possível se vierem mais empresas, mais indústria e mais conhecimento, se os jovens formados se fixarem na terra, se o concelho tiver capacidade de atrair populações de outros concelhos. E isso está a acontecer!
Este ano o tema prende-se precisamente com “capital humano”. Se há 10 anos Ponte de Sor tinha 1.400 desempregados, agora necessita de 400 pessoas qualificadas para trabalhar no concelho. Como é que se atrai essa mão-de-obra qualificada?
A cimeira reforça Ponte de Sor como um polo atrativo do investimento, coloca-nos no mapa internacional do sector da aeronáutica, mas não é de todo a solução para o que aconteceu em termos de criação de emprego. Com a infraestrutura que temos, com as nossas possibilidades, com as vantagens do território, cada pessoa que conhece o Aeródromo Municipal tem de ser obrigatoriamente um embaixador do nosso propósito no mundo. Temos de mostrar às pessoas os terrenos baratos e hangares de ultima geração construídos pelo Município que disponibilizamos a uma renda baixa às empresas que quiserem vir para cá, desde que criem os tais postos de trabalho.
O que distinguiu Ponte de Sor foi a visão estratégica de alguém que decidiu contra o mundo construir um aeródromo, se calhar muitos pensaram que seria uma posição um bocadinho lunática, mas aconteceu. Agora, trazer para o Interior mão-de-obra qualificada é o nosso maior desafio, daí este Portugal Air Summit ser focado no ‘Powering Human Capital’. Cada vez mais temos de nos preocupar com a qualificação dos recursos humanos. Com um plano e uma candidatura, já aprovada, que apresentámos ao Portugal 2020 para a ampliação do centro de negócios do aeródromo, vamos ter mais quatro ou cinco empresas no nosso tecido económico para criar entre 300 a 400 postos de trabalho. Só há duas hipóteses: formar os que temos cá e atrair outros de fora.
Se algum dia me perguntarem “o que mais o orgulha?”, falarei com certeza da criação de emprego nestes últimos anos.
Nem nas minhas melhores expectativas previa passar de 1.400 desempregados para 300 em tão pouco tempo
Quantos milhões estão investidos naquele espaço?
Cerca de 30 milhões de euros, em 17 anos, financiados a 70% por fundos comunitários e o resto do orçamento da Câmara Municipal. O retorno do investimento no aeródromo começou a chegar há dois ou três anos, com a quantidade de empresas ali instaladas e a utilização da pista. São mais de 10 as universidades que trabalham connosco, e isto tudo movimenta muita gente. Temos 40 mil movimentos anuais na pista e sempre que os aviões aterram pagam uma taxa. Os hangares estão arrendados às empresas e são outra fonte de rendimento para o município.

E o ‘cluster’ aeronáutico vai trazer outro tipo de empresas?
É o que já está a acontecer. A promoção do sector da aeronáutica veio ‘vender’ este território de uma forma diferente. Ou seja, a aeronáutica obrigou-nos a trazer para cá universidades, a ter planos estratégicos, a sermos mais rigorosos naquele que é o atendimento aos potenciais investidores, obrigou-nos a redefinir regulamentos de cedência de terrenos ou de benefícios às empresas, a trabalhar outras vertentes – até porque o próprio sector é muito exigente e legislativamente muito controlado. Além de ser muito atrativo tem extravasado a outros sectores e, por outro lado, nunca descurámos os mais tradicionais e que são importantíssimos, como o da indústria de transformação da cortiça, que é o maior sector empregador do concelho. Recentemente assinámos mais um contrato com um grupo económico que vai abrir outra fábrica de cortiça em Ponte de Sor.
Falamos a nível empresarial, mas o turismo é também uma aposta do concelho? Esta estrutura pode ser de alguma forma potenciadora a este nível?
Tem de ser! Estamos neste momento a elaborar um plano estratégico à semelhança do que fizemos com o aeródromo, com a aeronáutica e com a indústria de transformação da cortiça, para a albufeira de Montargil. O que queremos é criar uma resposta pública que seja diferenciadora, como foi a do aeródromo. Interessa ter uma infraestrutura que esteja concertada com todo o desenvolvimento da cidade e do concelho, nomeadamente com o aeródromo. Há pouco tempo foi criado o Aeroclube, que vai oferecer passeios de avião pela albufeira de Montargil, estão a ser criadas mais três unidades hoteleiras próximas da barragem, projetos com orçamentos avultados que criarão mais postos de trabalho, ou seja, dinâmica atrai dinâmica, desenvolvimento requer desenvolvimento noutras áreas e agora é a nossa melhor oportunidade para também no turismo apostarmos em força.
este ano teremos no Air Summit um workshop internacional organizado pela NASA (Agência Espacial Norte-Americana) e pela ESA (Agência Espacial Europeia). Como é que isto se faz? É nunca estarmos acomodados
Sendo assim, para criar riqueza Ponte de Sor ainda precisa de quê?
Continuar a apostar na capacidade de integrar as componentes de que falámos anteriormente, para assegurar uma especialização de Ponte de Sor em áreas de vanguarda e de elevada intensidade tecnológica. É nisto que nos temos de focar, porque as bases estão criadas. O que permitirá concretizar uma das prioridades para o nosso concelho – criação e manutenção sustentada de postos de trabalho qualificados, o nosso maior desafio. Trata-se de colocar Ponte de Sor e o seu potencial em contexto fortemente internacionalizado, junto de investidores e de empresas que pretendam expandir as suas atividades, assegurando a atração de novas oportunidades. A melhor forma de o conseguir é colocar o aeródromo no seio dos grandes eventos europeus do sector, e concretizar em Ponte de Sor uma iniciativa semelhante (como é o Portugal Air Summit) que ganhe progressivamente projeção internacional. No futuro, é sustentar todos os objetivos que temos de alguma forma concretizados.

Para tal contribui a nova travessia sobre o rio Tejo? A ligação do IC9 de Abrantes a Ponte de Sor, aproximando as empresas do concelho às vias rápidas, é imperativa ou defende outra solução?
Sem dúvida! Até entendo que a decisão foi tomada pelo Ministério das Infraestruturas no que diz respeito aos investimentos do Portugal 2030, do Plano Nacional de Investimentos, muito por consequência do que tem acontecido em Ponte de Sor. Obviamente que temos de reivindicar, e queremos as melhores infraestruturas e as melhores respostas para o nosso concelho, mas também temos de justificar que este investimento público seja feito como consequência de um trabalho de casa que se faça nos diversos concelhos. Ou seja; não basta dizer que não tenho investimento porque não tenho acessibilidades, porque Portugal tem das melhores acessibilidades de todo o mundo. Estamos perto de tudo. Estamos a uma ou duas horas de qualquer parte.
Se analisarmos estas temáticas num contexto globalizado… no Brasil, para ir de uma cidade a outras temos de ir de avião ou viajar 10 horas de carro, nos Estados Unidos a mesma coisa, e aqui não. Não será uma falsa questão, mas temos que nos posicionar de forma a que o nosso trabalho justifique haver melhoria também nas acessibilidades como noutros sectores públicos – afinal, falamos de dinheiros públicos.
Sinto hoje que Ponte de Sor pode e deve reivindicar melhores acessibilidades, melhores recursos e melhores meios, nas áreas da saúde à segurança. Para nós, a ligação do IC9 à A23 e A13 é estruturante, fundamental! Todos os dias saem de Ponte de Sor dezenas de camiões com cortiça para o Norte do País. Se é o ideal? Não! Ideal era uma ligação a Lisboa pelo lado de Coruche e Alcochete, mas temos de ser ponderados e perceber que no passado aconteceram alguns erros. Temos um número de autoestradas em Portugal que nunca vão ser sustentáveis face ao número de viaturas que lá passam.
queremos continuar a apostar numa especialização de Ponte de Sor em áreas de vanguarda e de elevada intensidade tecnológica
A corrida de aviões no Air Summit tem atraído multidões. O concelho está preparado para acolher estes milhares de pessoas?
Não temos o alojamento necessário. É preciso, está a acontecer. O Hotel Sor, o único dentro da cidade, esteve encerrado durante 10 anos e reabriu há 4, funciona bem, conta com uma boa taxa de ocupação, tal como o hotel de cinco estrelas em Montargil. Foi criada uma dezena de alojamentos locais, estão a ser construídos três hotéis, o Charcas Lagoon Resort encerrado há uns anos também já foi adquirido para reabilitação… portanto as coisas estão a acontecer, mas para o Air Summit não chega. Temos um protocolo com a Câmara de Abrantes para nos ajudar nestes dias da cimeira, comprometendo as unidades de alojamento local e hotéis de Abrantes, Alter do Chão, Avis, Coruche, Gavião… vamos mexendo com toda a região.

Quais as expectativas para esta terceira edição e quais as novidades em 2019?
Serão três dias de conferências e workshops e um dia lúdico, com demonstrações de voo e airshow. São duas as novidades: teremos 3 auditórios e não apenas um, pois vamos acolher também a 2ª edição do Encontro de Aviação dos Países Lusófonos (Lusoavia), e o encontro anual do workshop Partnership for Global Sustainability, liderado pela NASA e ESA, que irá discutir estratégias e as tecnologias para o crescimento sustentável dos aeroportos. Esperamos 50 mil visitantes, quase para o dobro do ano passado, e vamos ter próximo de 200 oradores em três dias, algo único em Portugal. Esperamos dar um bom contributo ao sector da aeronáutica, que tem todas as possibilidades de se desenvolver cada vez mais em Portugal.
Não temos o alojamento necessário para receber todos os que vêm ao Air Summit. enchemos unidades de alojamento local e hotéis de Abrantes, Alter do Chão, Avis, Coruche, Gavião… vamos mexendo com toda a região
Qual a ambição de um presidente de Câmara de um território como Ponte de Sor?
A ambição não tem limites do ponto de vista de querer o melhor para a sua terra e para desenvolver a sua comunidade. Nunca pensei seguir uma carreira política nem penso fazê-lo, sou muito executivo, gosto de ver as coisas acontecerem, de ter indicadores que avaliem o impacto das minhas medidas, gosto de desafios concretos, e isso só se pode fazer em duas ou três posições políticas. Um presidente de Câmara consegue avaliar, consegue medir o impacto das ações do seu Executivo, mas a minha atuação está temporariamente limitada por imperativo legal, portanto sei que vou sair. Nunca pensei que fosse uma função tão exaustiva e ao mesmo tempo tão desafiante.
Tem valido a pena?
Se algum dia me perguntarem “o que mais o orgulha?”, falarei com certeza da criação de emprego nestes últimos anos. Nem nas minhas melhores expectativas previa passar de 1.400 desempregados para 300 em tão pouco tempo, e vendo, além disso, uma cidade mais dinâmica e que hoje toda a gente conhece por bons motivos. Nunca pensei que acontecesse tão rápido. Voltando à pergunta anterior, a ambição é mesmo essa: não quero ter um único desempregado, e embora praticamente impossível, vou lutar para isso. Há dois indicadores que considero preponderantes na missão de um presidente de câmara: criar postos de trabalho e parar o êxodo demográfico, num território que tem cada vez menos gente. Nestes dois últimos anos tivemos mais alunos matriculados na escola, um crescimento que não acontecia em Ponte de Sor há 30 anos. Se no Census de 2021 tiver a felicidade de ter mais uma pessoa que no de 2011… será mais uma batalha ganha.
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