Casa Memória de Camões, em Constância. Foto: mediotejo.net

Numa altura em que a Casa-Memória de Camões, em Constância, ganha uma crescente visibilidade, o Presidente da Direção da Associação, António Matias Coelho, fez para o mediotejo.net um balanço do trabalho desenvolvido pela instituição e os desafios que ainda enfrenta, mais de 30 anos passados sobre o início do projeto. A recente audiência com a Secretária de Estado da Cultura, o reconhecimento do interesse público da Casa-Memória pela Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT) e as obras de requalificação no Jardim-Horto de Camões são alguns dos aspetos focados nesta entrevista.

MT – Tem sido notória uma maior visibilidade pública e mediática da Casa-Memória de Camões nos últimos tempos. Como analisa este momento na organização a que preside?

AMC – A Associação Casa-Memória de Camões em Constância vive, de facto, um momento que parece favorável à concretização do maior dos seus objetivos: o da abertura ao público da Casa-Memória. Nos últimos anos e, em especial, nos últimos meses, temos conseguido dar significativa visibilidade ao nosso projeto. A Comunicação Social, quer regional quer nacional (jornais, rádio e televisão), tem tido, neste aspeto, uma ação muito importante que saúdo e agradeço. Tem sido possível congregar apoios, diversos e de todos os quadrantes, para essa causa que é, como temos afirmado e tem sido crescentemente reconhecido, um verdadeiro desígnio nacional. De facto, não tendo Portugal, como deveria ter, uma Casa de Camões e existindo essa casa – nova, ampla, funcional e implantada no centro do país, numa vila, Constância, que tem com a memória de Camões uma relação de afeto como nenhuma outra terra em Portugal –, não faz sentido a situação em que a Casa se encontra, por abrir, num estado de óbvio e intolerável desperdício. A decisão da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT), tomada no final de fevereiro, de reconhecer a importância regional da Casa-Memória de Camões dos pontos de vista da cultura, do desenvolvimento socio-económico e do turismo, constitui um passo muito relevante no sentido de se reunirem as condições para a sua abertura ao público. Tendo sido uma decisão unânime dos 13 municípios do Médio Tejo, que registo com o maior agrado, significa que agora a abertura da Casa-Memória de Camões já não é um objetivo apenas desta Associação e de Constância, mas de toda a região – o que, naturalmente, tem peso, tem significado e há de ter efeitos. Recebi da senhora presidente da CIMT, Dr.ª Anabela Freitas, e de vários presidentes de Câmara com quem tenho falado, palavras de apoio e de incentivo que nos animam neste processo difícil mas que parece, agora, melhor encaminhado. Sobretudo (e isso faz toda a diferença), ao contrário do que se passou durante bastante tempo, não estamos sós neste processo.

com o apoio da cimt, a abertura da Casa-Memória de Camões já não é um objetivo apenas desta Associação e de Constância, mas de toda a região – o que, naturalmente, tem peso, tem significado e há de ter efeitos.

Dália Lacerda-Machado e António Matias Coelho na inauguração da Rota de Camões. Foto: mediotejo.net

MT – Outro facto marcante nos últimos tempos foi a audiência com a Secretária de Estado da Cultura. Que expectativas tem em relação a decisões que possam vir a ser tomadas pelo Ministério da Cultura?

AMC – A audiência que a senhora Secretária de Estado da Cultura nos concedeu, a mim e ao senhor presidente da Câmara Municipal de Constância, foi, estou certo, um outro passo importante no mesmo sentido. Ouviu-nos, tive oportunidade de lhe historiar o longo processo por que passou a Casa-Memória, desde que foi projetada, ainda nos anos 80, até agora, das diligências que fizemos nos últimos três anos junto da anterior equipa ministerial com vista à sua abertura ao público e de lhe entregar um dossiê com documentos sobre o que a Casa é o que pretendemos para ela, designadamente um roteiro de conteúdos que especifica os públicos-alvo que definimos e os conteúdos com que, para cada um deles, gostaríamos de poder dotar os cinco pisos do edifício. Convidei a senhora Secretária de Estado a visitar a Casa-Memória de Camões, convite que foi prontamente aceite. A governante pediu algum tempo para analisar o processo e para se habilitar a dar-nos uma resposta, estando nós neste momento a aguardar o agendamento da visita que, acredito, ocorrerá a breve prazo. A expectativa que tenho é, naturalmente, positiva: espero que a senhora Secretária de Estado nos apresente uma estratégia, por parte do Ministério da Cultura, com vista à abertura ao público da Casa-Memória de Camões. Porque um desígnio nacional, como este é, tem de ter um enquadramento de nível nacional. Nós cá estamos, como nos compete, para fazer a nossa parte, mas o envolvimento do Estado neste processo é indispensável e decisivo. E desta conjugação de esforços resultará benefício não apenas para Constância, mas para o Médio Tejo e para o país.

um desígnio nacional, como este é, tem de ter um enquadramento de nível nacional. Nós cá estamos, como nos compete, para fazer a nossa parte, mas o envolvimento do Estado é indispensável e decisivo.

O Jardim-Horto de Camões foi projectado pelo arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, nos anos 80. Foto: mediotejo.net

MT – Nesta altura decorrem obras no Jardim-Horto de Camões. Qual o ponto da situação? Que melhorias foram feitas?

AMC – No nosso mandato anterior (de abril de 2016 ao final de 2018), o Jardim-Horto já tinha beneficiado de significativas melhorias. Foi então feita a substituição da parte mais degradada do piso em tijoleira por calçada à portuguesa. Foi instalado, também em calçada, um tabuleiro de xadrez gigante que Manuela de Azevedo muito gostaria de ver no jardim e não conseguiu realizar. Realizou-se a substituição das velhas placas identificativas das espécies por outras novas, esteticamente mais interessantes e mais ricas e rigorosas em informação, quer de natureza botânica, quer de natureza literária. E, sobretudo, procedeu-se a uma profunda intervenção ao nível das plantas, com replantações, tratamento de pragas e melhoria das condições de vida das espécies. Este trabalho, realizado por uma empresa especializada, teve como objetivo, respeitando o projeto inicial do arquiteto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles que desenhou o Jardim-Horto nos anos 80, beneficiá-lo, conferindo-lhe mais coerência, maior vitalidade e melhor aspeto geral. Nestes primeiros meses do atual mandato já vimos erguido o novo edifício de entrada, mais amplo e com muito melhores condições para receber os visitantes e expor materiais para venda. Os trabalhos de construção civil estão concluídos, faltando agora a colocação da Rota de Camões na parede exterior, que irá proporcionar um novo enquadramento do conjunto em relação com o Monumento a Camões. Na mesma lógica, iremos também, com a colaboração da Câmara Municipal de Constância, rearranjar o espaço adjacente ao novo edifício, exterior ao jardim. Por outro lado, durante o mês de maio avançam as obras de restauro do Pavilhão de Macau. Construído há cerca de 30 anos, este símbolo da nossa ligação ao Oriente encontra-se bastante degradado e a precisar de uma urgente e profunda intervenção. Os trabalhos serão realizados por uma empresa especializada e permitirão a reabilitação daquela belíssima estrutura, sendo ainda criada uma cascata que estava prevista no projeto original e nunca chegou a ser instalada. Embora não fazendo parte desta empreitada, estamos também a tratar da recuperação do lago que apresentava problemas estruturais e necessita igualmente de uma profunda intervenção. Esperamos que até ao final deste ano o Jardim-Horto, uma vez concluídas todas estas obras de recuperação, possa apresentar-se em toda a sua beleza, louvando Camões, enquanto monumento vivo, através das plantas que o poeta cantou.

Esperamos que até ao final deste ano o Jardim-Horto possa apresentar-se em toda a sua beleza, louvando Camões, enquanto monumento vivo, através das plantas que o poeta cantou.

MT – Que tipo de apoios tiveram para a intervenção no Jardim-Horto?

AMC – Tivemos apoios de diversos tipos, indispensáveis para fazer avançar as obras e minimizar os custos. Gostaria de destacar, em primeiro lugar, o apoio do criador do Jardim-Horto – o arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles – e da sua família. O senhor arquiteto deu-nos a honra da sua visita ao jardim logo no início do processo, tendo tido oportunidade de se inteirar do que pretendíamos realizar e dando-nos, inclusive, algumas importantes sugestões. Todos os trabalhos de projeto do novo edifício, realizados por arquitetos e engenheiros amigos, foram oferecidos à Associação. A Câmara Municipal de Constância deu-nos o seu empenhado e indispensável apoio na resolução dos pequenos e grandes problemas que uma obra realizada num espaço como este inevitavelmente implica. Para a obra do novo edifício apresentámos uma candidatura aos fundos comunitários (Portugal 2020), em resultado da qual esperamos receber uma comparticipação que deverá rondar os 25% do custo. A obra de restauro do Pavilhão de Macau, que envolve verbas completamente fora do alcance da Associação, só é possível graças ao patrocínio da Caima, a quem quero aqui deixar um agradecimento muito especial, sublinhando a atenção e o carinho da Caima para com esta Casa e para com esta causa.

Casa-Memória de Camões em Constância: a Casa de Camões que Portugal não tem e deve e pode ter | Foto: DR

MT – Aproxima-se mais um 10 de junho e mais uma edição das Pomonas Camonianas, mais uma oportunidade para a promoção do Jardim-Horto…  

AMC – Sim, temos feito um esforço significativo para promover o Jardim-Horto. Participaremos, naturalmente, nas Pomonas Camonianas, criadas em 1994 pela fundadora e então presidente da nossa Associação, Manuela de Azevedo. Este ano teremos a honra de apresentar, no auditório da Casa-Memória, na tarde do 10 de Junho, uma conferência sobre Camões pelo Prof. Carlos Ascenso André, um dos mais reputados camonistas portugueses, professor da Universidade de Coimbra e membro do Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos. E, posso desde já anunciar, teremos em 18 e 19 de outubro a presença, para uma aula e uma conferência, de um dos maiores especialistas internacionais em Camões, o Prof. Josiah Blackmore, professor de língua e literatura portuguesas da Universidade de Harvard, nos EUA. Vamos prosseguir este ano a animação de primavera e verão com a realização, de maio a outubro, de cinco concertos de música medieval e renascentista pelo grupo TINTINNABVLVM da associação CICO, de Constância, com a qual temos um protocolo de colaboração. Em parceria com o Grupo de Teatro da Escola Luís de Camões de Constância continuamos a disponibilizar, nas tardes de quarta-feira, visitas guiadas ao Jardim-Horto com representação da peça de teatro Tomem lá do Camões, destinadas a alunos das escolas de todo o país. Vamos ainda integrar o Jardim-Horto nos circuitos de visitas à região, de que é exemplo a nossa adesão ao programa Fátima-Tomar StayOver, promovido pela CIMT.

“A obra de Manuela de Azevedo em Constância tem de prosseguir e de ser completada”, diz Matias Coelho | Foto: Câmara Municipal de Lisboa

MT – Como gostaria de deixar a Casa-Memória no final do mandato?

AMC – Gostaria, claro está, de a ver aberta ao público e a funcionar, com um Serviço Educativo para receber e informar, de forma criativa e interessante, as crianças e os jovens estudantes e com condições para receber condignamente os visitantes, nacionais e estrangeiros, que venham ver a Casa-Memória de Camões e informar-se sobre o nosso épico, o seu tempo, a sua vida, a sua obra, a relação de Constância com a sua memória e a universalidade da língua e da cultura portuguesas. Serão, não tenho dúvida, muitos milhares.

gostaria que se pudesse constituir em constância  uma biblioteca camoniana de referência, a trabalhar em rede com outras bibliotecas especializadas.

Gostaria que a Casa-Memória tivesse condições para desenvolver um programa de atividades mais intenso e mais diversificado do que tem hoje, realizado com os escassíssimos meios de que dispomos. Gostaria de ver tratado e ao dispor do público, dos investigadores e, em especial, dos camonistas, o fundo documental reunido durante uma vida inteira pela nossa fundadora, a jornalista Manuela de Azevedo, acrescentado de outras obras que com ele constituíssem uma biblioteca camoniana de referência, a trabalhar em rede com outras bibliotecas especializadas. Gostaria, em suma e como corolário, de ver realizado o sonho de Manuela de Azevedo, alimentado durante mais de meio século, de ter a funcionar em Constância – a terra que, segundo diz o povo, acolheu o poeta no seu desterro em jovem – um Centro de Estudos Camonianos e um pólo de dinamização cultural em torno da profunda ligação de afeto de Constância à memória do nosso épico. Esse seria um serviço inestimável que a Casa-Memória prestaria à vila e à região mas, sobretudo, a Portugal. Assim nos ajudem a consegui-lo!

José Gaio

Ganhou o “bichinho” do jornalismo quando, no início dos anos 80, começou a trabalhar como compositor numa tipografia em Tomar. Caractere a caractere, manualmente ou na velha Linotype, alinhavava palavras que davam corpo a jornais e livros. Desde então e em vários projetos esteve sempre ligado ao jornalismo, paixão que lhe corre nas veias.

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