Quem é que sabe o código do teu telemóvel?

Sabes muito bem: apenas eu.

Quem sabe as palavras-passe das tuas contas de email?

Sabes muito bem: apenas eu.

E o Facebook? E o Messenger? Tens mais alguma coisa dessas?

Tenho só essas e a resposta é a mesma: apenas eu.

Não estarás a ser muito desconfiada? Qual é o mal de outra pessoa da tua confiança ver os teus emails, as tuas mensagens de telemóvel e as que trocas em privado nas redes sociais?

Não há mal, há a minha vida e o respeito pelas outras pessoas envolvidas nessas conversas. Quando trocamos mensagens com alguém partimos do princípio que as conversas são privadas. O conteúdo dessas mensagens é de quem as emite e de quem as recebe. E se as minhas relações pessoais são genuínas, o conteúdo dessas mensagens nunca as colocará em causa.

Percebes que parece que estás a esconder coisas?

Talvez… E a verdade é que, às vezes, tenho a vontade e a tentação de mostrar mensagens e mails para provar determinadas coisas. Outras vezes, é mesmo preciso mostrar, para nos defendermos. Mas defender é uma coisa, necessidade de se provar o que não tem que ser provado é outra coisa bem diferente.

Pelos vistos, há muita gente, incluindo muitos jovens, que acha normal pedir para ver as mensagens que os/as namorados/as trocam com outras pessoas…

Pois, também há muita gente que acha que perseguir outras pessoas é um ato de amor e, na verdade, é crime!

Como há muita gente que aceita relações violentas porque não percebe a gravidade da situação.

Pois, também há muita gente que acha que pode dizer tudo o que lhes apetece nas redes sociais sobre os outros…

Como há muita gente que não reage a humilhações porque acha que tem que aguentar.

Sabes, tudo isto me deixa muito preocupada. Parece que toda a informação que se possa dar nunca é demais. É assustador pensar que cerca de um quarto dos jovens acha que vários comportamentos violentos são normais. Ver mensagens do outro é uma forma de violência. Impedir conversas com amigos é violência. Dizer para mudar de roupa é violência. Mas eles acham normal!

Mas isso sempre aconteceu… E nunca se considerou violência.

Claro, é o Amor! Só vou ao cinema com ele porque o Amo e não preciso de mais ninguém. Mudo de roupa se ele me disser porque vou ficar mais Bonita perante os seus olhos. Deixo de vestir roupas que ele acha provocantes porque a minha vida só faz Sentido em função dele. Vou mostrar-lhe as minhas mensagens para lhe mostrar Confiança. Vou deixar de falar com os meus amigos porque ele me faz sentir Completa. É isso, não é?

Eu sei que não! Mas o meu papel aqui é o de questionar, fazer pensar, relativizar. Assim sendo, não te parece que muitas das pessoas que o fazem é mesmo por essas razões e que não se sentem violentadas quando o fazem?…

Então teremos que meter a colher entre marido e mulher!

Que direito tens tu de estar a interferir?

Direito? Tenho é a obrigação! Temos a obrigação. Ou queremos mais crianças e jovens a transformarem-se em adultos que acham normal a anormalidade?

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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