Foto: Carlos Alves

O vento sopra em grande escala. O outono despediu-se, deixando uma alcatifa de folhas douradas.
Ao contemplar o fim da estação das folhas caídas, somos confrontados com a desarmonia da vida, onde a transição pacífica da natureza convive com a violência implacável que por vezes infligimos ao nosso próprio ambiente. Talvez, ao reconhecermos a beleza efêmera das folhas dançantes, possamos também refletir sobre a fragilidade da paz e a importância de preservar a harmonia que a natureza, em sua sabedoria, nos oferece.

Numa cidade, numa vila ou em qualquer outro lugar onde o frio aperta, as noites são mais escuras simbolizando a chegada de uma estação que, para alguns, representa uma melodia de cores e para outros, um desafio que precisa ser superado. À medida que o frio nos avermelha as extremidades, podemos encontrar uma alegoria expressiva para a efemeridade da vida.

O solo antes coberto de folhas caídas é um campo fértil, pronto para receber as sementes do próximo ciclo. Uma coreografia silenciosa que transforma a paisagem e desafia os tratadores urbanos. Nesta entrelaçada agitação da natureza, as árvores preparam-se para despojar-se da sua roupagem verde, trocando-a por tons dourados e rubros. É a estação da transformação, um momento em que a natureza se renova para o ciclo que se segue. No entanto, este espetáculo não é apenas estético. É uma recordação silenciosa da constante transfiguração que a vida enfrenta.

Assim, quando as folhas ocultaram as nossas ruas e parques, é importante refletir e olhar para além da superfície. Vejamos não apenas o trabalho laborioso de limpeza, mas a poesia do ciclo natural. A queda das folhas é mais do que um inconveniente sazonal. É uma lembrança gentil de que, mesmo em meio ao pandemónio, a beleza persiste, renovando-se a cada ciclo que a natureza nos oferece.

Cada folha que repousa no chão é uma folha pronta para contar uma história, um verso esperando para ser escrito pelos poetas. Em vez de encarar isso como um incómodo, considerem-no como uma dádiva da natureza, uma inspiração constante para criar um ciclo estético que une a beleza caótica da queda das folhas com a expressão artística dos que as reúnem.

Neste palco findável, cada folha é uma página em branco, pronta para ser preenchida com a tinta da criatividade. Que possamos, juntos, aceitar e abraçar a dança das folhas como parte essencial do nosso ciclo estético, onde a natureza e a arte se entrelaçam em harmonia.

Neste espetáculo de resignação, as folhas caem, desprendendo-se das árvores com uma elegância forçada. São como pensamentos desvanecendo-se na mente, incapazes de resistir à gravidade do mundo. Cada folha, ao tocar o chão, torna-se uma metáfora da fragilidade que permeia a nossa existência, uma vulnerabilidade compartilhada com o destino que nos aguarda.

À medida que o vento carrega as folhas para um destino incerto, podemos vislumbrar a analogia com o nosso mundo contemporâneo. Vivemos em um tempo onde o rumo é incerto, um caminho destituído de reflexão. Assim como as folhas são pisadas e esquecidas, a nossa sociedade muitas vezes negligencia a importância da introspeção, permitindo que as correntes da inércia nos conduzam sem um destino claro.

As folhas caídas tornam-se reflexos do estado atual do mundo, onde a superficialidade muitas vezes prevalece sobre a profundidade. Vivemos numa era onde a pressa e a distração encobrem a contemplação, onde a reflexão é substituída pelo frenesim infindável. Nesse cenário, o destino das folhas, pisadas e esquecidas, reflete a superficialidade com que muitas vezes tratamos nossas próprias vidas e o mundo ao nosso redor.

Neste momento de queda silenciosa, é imperativo resgatar a capacidade de reflexão perdida. Assim como as folhas precisam de solo fértil para renascer, o nosso mundo necessita de um solo enriquecido pela introspeção, pela pausa necessária para entender o significado subjacente das escolhas que fazemos. Somente ao reconhecer a fragilidade das folhas caídas e a direção incerta do mundo atual podemos aspirar a uma renovação que suplante a mera fantasia.

Para aqueles tratadores da limpeza urbana, a queda das folhas pode parecer um desafio gigantesco. No entanto, pelo meio da aparente desordem, há uma oportunidade para a reflexão. Em vez de encarar isso como uma maçada, podemos transformar a tarefa num ritual de renovação, reconhecendo a importância de preservar a harmonia entre o ambiente urbano e a natureza circundante.

A analogia poética entre o cair das folhas das árvores e as balas que são enviadas pelas máquinas de guerra oferece um intrigante paralelo entre a serenidade da natureza e a crueldade da atividade humana. Ao explorar essa analogia poética, revela-se uma descrição profunda que reflete sobre a debilidade da existência e a aflição constante entre a paz e a guerra. Mesmo metaforicamente, o homem deve preocupar-se em primeiro lugar pelos danos das balas e não pelo dano das folhas.

É albicastrense de gema, mas foi em Malpique (Constância) e em Tramagal (Abrantes) onde cresceu e aprendeu que a amizade e o coração são coisas imprescindíveis na valorização do ser humano. Vive no Entroncamento. Estudou conservação e restauro e ciências sociais. É membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Trabalha na área de informática. Participou em várias Antologias Poéticas e escreveu o livro “Diálogos da consciência” que serviu para se encontrar consigo próprio numa fase difícil da sua vida. Acha que o mundo poderia ser melhor, se o raciocínio do Homem fosse estimulado. A humanidade só tem um caminho que é amar, amar por tudo e amar por nada, mas amar.

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