Aqueles que por ali passam, não ficam indiferentes à figura que, há dezenas de anos, dá brilho aos pés dos abrantinos, junto à Estrada Nacional 2, na localidade de Barreiras do Tejo, sempre de manhã, e aos fins de semana. Chama-se Carlos Fernandes e tem atualmente 75 anos. Nasceu em Abrantes, cidade que para além de berço foi também casa ao longo de mais de sete décadas, sendo hoje uma das figuras emblemáticas deste concelho e um dos últimos exemplos da profissão.
Muitos conhecem o seu trabalho, mas poucos conhecem a história do menino que aos onze anos se tornou homem, deixando a escola para trás e enveredando pela arte da sapataria. O mediotejo.net esteve à conversa com Carlos Fernandes no seu habitual local de trabalho onde, entre polimentos e limpezas, o “mestre dos sapatos” recordou uma “vida de trabalho” que iniciou precocemente.
É com um sorriso no rosto que recua até à infância e recorda os “tempos de garoto”. Filho de pais humildes, Carlos Fernandes vivia nas traseiras do atual cemitério de Abrantes, local que é hoje ocupado pelo Hospital de Abrantes.
Em criança, conta que frequentava a creche da “Casa da Criança”, situada junto à Igreja de São João, no centro histórico da cidade, local que é hoje conhecido como Patronato Santa Isabel.
Ao mediotejo.net, Carlos Fernandes contou que as memórias que guarda do local nem sempre foram felizes e que ainda hoje recorda os momentos de violência sofridos. “Os meus colegas batiam-me muito. Eu era novato, mas cheguei a um ponto em que não aguentei e dei de volta”.

Tendo em conta a situação, Carlos acabou por ser castigado e “levado para a casa da lenha”, onde viria a adormecer e “ser esquecido”. “Todos se foram embora. A minha mãe começou a estranhar eu não aparecer e foi à minha procura”.
No percurso da creche até casa, Carlos tinha um habitual ponto de paragem, na então Taberna do Felício, em Abrantes, que lhe preparava sempre “um papo seco” para que pudesse comer no caminho até casa, recomendando-lhe que fosse “sempre pela beirinha”.
Sabendo de tal facto, a mãe decidiu deslocar-se até ao estabelecimento para saber do paradeiro de Carlos, sendo informada de que o filho ainda não havia passado por ali, dado que a “merenda ainda lá estava preparada”.
É então que chega à creche e o filho lhe é entregue, embora “não lhe tivessem explicado o que tinham feito”, afirma Carlos. “Eu tinha apenas cinco anos. No dia seguinte disse que não punha os pés na Casa da Criança, mas a minha mãe obrigou-me”. E lá foi.
Corria o mês de fevereiro, período em que Abrantes se preparava para receber a feira anual, pelo que junto ao cemitério – local onde se encontra hoje a ponte sobre a Avenida Dr. Francisco Sá Carneiro – se encontrava uma carrinha da Câmara de Abrantes a descarregar areia.
“A feira era em fevereiro, nesse tempo chovia muito e espalhavam a areia por todo o largo da feira”, explica. Nesse dia, Carlos decidiu sair de casa, mas não concluiu o percurso até à creche.
“Cheguei ao pé do cemitério, onde estavam os montes de areia molhada, porque tinha chovido muito e descalcei-me, pus-me lá a brincar. Houve quem me dissesse para me levantar e ir para casa, mas enterrei os pés e acabei por me deixar dormir”, conta.
“Quando me tentei levantar, não fui capaz. A areia estava molhada, estava muito frio e apanhou-me a perna e o pé… estive demasiado tempo”. Carlos acrescenta que chegou ainda a realizar um “tratamento com choques”, mas a “resfriação” que lhe “apanhou os ossos e os nervos”, viria a deixar-lhe a perna paralisada.

“Houve uma pessoa que me arranjou umas bengalas para meter em baixo dos ombros. A minha mãe sentava-me numa cadeira de palha, com as pernas ao sol e a cabeça à sombra. Ali estava todo o dia”, conta.
Completados os seis anos, Carlos Fernandes ingressa no ensino primário, tendo decidido colocar “as bengalas de lado”. “O médico disse que quando fosse para a idade viria a precisar, mas até hoje ainda nunca precisei. Mas tenho dificuldades… quando é no inverno, o sangue circula mal e se bater com o pé na calçada acabo por cair”, explica.
O percurso escolar viria a revelar-se curto, tendo começado a aprender a arte de sapateiro aos onze anos, momento em que abandonou a escola. Para poder contribuir para o humilde lar da família, o “menino Carlos” rapidamente cresceu e deu lugar ao homem que começaria a “trabalhar de sapateiro”, na Sapataria Lagarto, onde recebia 15 escudos por semana.
É então que decide começar a engraxar sapatos durante os fins de semana. Para o efeito, mandou fazer uma caixa de engraxador, equipamento que viria a fazer parte da sua rotina até aos dias de hoje. Adquiriu escovas e todo o material necessário e saiu à rua. “Devia ter os meus 13 anos. Levava 2 escudos nessa altura”, conta.
Da juventude recorda memórias passadas nas Barreiras do Tejo, onde “havia muito pouco”. “Trabalhava durante a semana e aos fins de semana ia com a rapaziada até ao Rossio, para o café. Íamos muito para lá ver televisão, que aqui não havia e jogar matraquilhos”, recorda.
De sapato em sapato, o engraxador das Barreiras do Tejo foi dando brilho aos pés daqueles que com ele se cruzavam, marcando gerações que ainda hoje o recordam. “Todos conhecem o engraxador das Barreiras do Tejo, ou então o Carlos sapateiro, como também me chamam”.
Embora não lhe permitisse “fazer uma fortuna”, afirma que aquilo que ganhava “já era uma grande ajuda”, razão pela qual não abandonou a atividade.
“Depois como tinha os conhecimentos, dediquei-me a trabalhar em casa de sapateiro, mas isto aqui nas Barreiras do Tejo não dava nada. As pessoas queriam o calçado arranjado, eu arranjava e depois não pagavam. Cheguei ao ponto em que já nem dinheiro tinha para comprar o material, ia pedir o dinheiro e ainda era maltratado”, afirma.


Certo dia, enquanto engraxava sapatos na berma da estrada, Carlos Fernandes foi abordado por um senhor que lhe ofereceu trabalho, dando “serventia a pedreiro” e que prontamente aceitou. Terminada a habitação em que estavam a trabalhar, voltou a ficar desempregado.
“Estava aqui a engraxar e o patrão do meu pai veio-me perguntar se queria trabalhar. Disse logo que sim e fui fazer areão e carregar camionetes para o Tejo. Fui para lá coxo e às vezes as pessoas comentavam que eu não iria aguentar. Mas fiz-lhes ver como é que eu era e ainda andei lá oito anos”, recorda.
“Dali passei à camionagem. Eles tinham quatro camionetas e meteram-me como ajudante de motorista e o meu pai era o descarregador”, trabalho que considerava ser duro e que chegava a durar cerca de catorze horas, “embora no horário de trabalho apenas constassem oito horas”.
A vida foi seguindo, “sempre a trabalhar de engraxador”, até que o amor lhe “bateu à porta”. Viria a casar-se aos 24 anos com a mulher com quem teve três filhos, embora apenas dois tenham sobrevivido.
“A minha mulher tinha princípios de leucemia. Naquela altura ela tinha 25 anos, as coisas estavam a correr mal e ficou em estado de coma. Já estava internada em Abrantes há 2 meses e os médicos não conseguiam fazer nada dela”, explica.
É então que Carlos decide levá-la para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde a esposa recuperou, voltou a andar e regressou a Abrantes. “Os médicos deram-me uma carta para entregar ao médico dela, a explicar que ela iria precisar de ser internada aqui”.
“No dia em que ela iria à consulta, eu não estava em casa, o meu pai teve de chamar uma ambulância porque ela tinha entrado em estado de coma. Acabou por falecer à entrada do hospital”, lamenta.
Viúvo e com duas filhas, com dois e três anos, a sua vida viria a sofrer outra reviravolta com o diagnóstico da filha mais velha.
“Ela não andava, íamos ao médico a cada quinze dias e não melhorava nada. Era um caso sério. Só soube mais tarde que ela tinha uma veia entupida no crânio e não podia ser operada cá, só no estrangeiro, mas eu não tinha capital”.

“Tinha de fazer de pai e mãe, com a ajuda do meu pai. Um fazia as compras para casa, outro fazia o comer e assim íamos vivendo”, afirma.
Com o material de sapateiro em casa, pronto a ser utilizado, Carlos decidiu dar um novo rumo à sua vida. Adquiriu a sua primeira máquina de sapateiro, em segunda mão e começa a trabalhar a partir de casa. Para o efeito, foi reformado por invalidez, devido à condição que ainda hoje lhe limita a locomoção.
“Tinha 30 e poucos anos. Fui inspecionado e reformado. Quando perguntei se podia fazer uns biscates a partir de casa, disseram-me que sim. A reforma não era muito grande e comecei a fazê-lo para ganhar mais algum”.
“Comecei a fazer a vida de outra maneira. Fui trabalhando de sapateiro e como engraxador, para conseguir fazer as compras para a casa e sustentar as crianças. A minha vida começou a melhorar, o que não estava a melhorar era a situação da minha filha mais velha. Continuava na mesma”.
Com a filha nos braços, Carlos Fernandes parte com destino à capital, ao Hospital D. Estefânia. Após a consulta, foi-lhe recomendado que Maria Júlia fosse internada numa clínica de recuperação, que viria a acontecer em Portalegre.
“Eu ia lá todas as semanas. Levava sempre um saco arranjado com bolos e tudo para a minha filha”. As melhorias foram notórias, permitindo-lhe começar a andar embora ainda se deparasse com limitações na fala e em algumas atividades quotidianas, como a higiene pessoal.
Ainda hoje Carlos Fernandes parte com destino a Portalegre “sempre que consegue”, para poder visitar a filha que lhe coloca um sorriso nos lábios sempre que nela fala.
Recuando até ao passado, o sapateiro lembra que chegou a ter “uma freguesia boa”, o que permitiu ao seu pai reformar-se aos 65 anos e vir auxiliá-lo no serviço. “A reforma dele também era pequena… ele engraxava os sapatos e eu ia arranjando o calçado”.
Nos “tempos áureos” o trabalho era abundante, tendo chegado a tratar dos sapatos dos “pupilos de Santarém e até dos militares do Entroncamento”. “Andei muito tempo também a colocar as solas nas botas da tropa. Tinha uma freguesia muito grande de Abrantes, do Rossio, de Alferrarede, do Souto, Carvalhal, de vários sítios… Fui trabalhando sempre. De semana trabalhava de sapateiro e aos domingos engraxava”.

A caixa que utilizava para engraxar foi evidenciando sinais de desgaste, levando Carlos Fernandes a adquirir um caixote para, com as suas próprias mãos, fazer a caixa que ainda hoje utiliza. “Já tem mais de 30 anos na minha mão a trabalhar de engraxador, a vir sempre para aqui aos fins de semana e feriados, até às 13h00”.
Nas visitas que realizava à filha, em que passeava pelas ruas da vila de Portalegre, Carlos Fernandes era acompanhado por uma das senhoras que habitualmente tomavam conta de Maria Júlia, explica.
O “coração começou a mandar mais e começámos a gostar um do outro”, recorda. No entanto, a situação não foi “bem aceite pela família dela. Não queriam que ela namorasse comigo por eu ser coxo”.
O amor entre ambos deu lugar à perseverança, que levaria à consolidação do matrimónio. “Estivemos cerca de vinte e dois anos casados. Criámos o nosso neto desde bebé e ela veio a falecer com 62 anos, vítima de leucemia”.
Em declarações ao jornal, não esconde a tristeza pela partida precoce da esposa, que o viria a deixar “praticamente sozinho”. “Às vezes fico triste. Tinha uma família grande e hoje não tenho quase ninguém, só o meu neto que está quase sempre fora. Perdi a minha mulher que era 7 anos mais nova que eu. Nunca pensei que ela partisse primeiro”.
A saúde de Carlos viria também a pregar-lhe uma partida, tendo realizado um cateterismo cardíaco que “não correu muito bem”. Como resultado, ficou impedido de trabalhar como sapateiro, devido às dores incapacitantes e “às veias entupidas” que representam um risco para a sua saúde. “Tenho de ser operado ao coração. Estou à espera que me chamem, mas não há meio de acontecer”, lamenta.

Enquanto isso, o engraxador das Barreiras do Tejo procura manter-se ocupado e tenta “esticar a reforma” que afirma ser bastante reduzida. No entanto, ao olhar para trás, Carlos Fernandes recorda que são cada vez menos aqueles que procuram o seu trabalho.
“Neste últimos meses perdi cerca de nove clientes. Infelizmente faleceram. Hoje tenho menos clientes, vai-se tendo alguns… mas vou passando aqui o meu tempo a engraxar, é uma forma de me manter entretido e consigo arranjar um dinheirinho”, afirma.
O facto de engraxar os sapatos ser cada vez menos um hábito entre a população, justifica também a reduzida procura pela arte. “Agora não engraxam como antigamente. Procuram muito menos”.
A televisão é a grande companhia dos seus dias, que são preenchidos pela realização das tarefas domésticas. “Faço tudo, limpo a casa, faço as camas, meto a roupa a lavar e a secar. É assim que vou passando os meus dias”, afirma.
Para o futuro, deseja saúde e que a vida lhe permita continuar a engraxar. “A ver se sou operado e se fico bom, para continuar a trabalhar”, concluiu Carlos Fernandes.
*Entrevista realizada em 2025, republicada em abril de 2026


O que mais temos em Portugal hoje em dia são engraxadores.