“Encontros Vicentinos do Sardoal – Gil Vicente, Outros Quinhentos”. Créditos: mediotejo.net

“A arte é uma narrativa de identificação” no “modo como ela pode transitar pelo tempo”, começou por dizer Francisco Oliveira, do Teatro Académico Gil Vicente, de Coimbra, que ao lado do presidente da Câmara Municipal de Sardoal, Miguel Borges, abriu a sessão, no primeiro de três dias dos “Encontros Vicentinos do Sardoal – Gil Vicente, Outros Quinhentos” que decorreram na vila sardoalense.

“Este pequeno ciclo que fomos imaginando em diálogo, é uma oportunidade de uma maneira complementar haver uma experiência de revisitação por um lado dos contemporâneos de Gil Vicente e por outro lado o Gil Vicente na contemporaneidade. Imaginando então que a figura do Gil Vicente é um ponto contínuo de reflexão que durante três dias se faz “em diálogo, pensamento, partilha” desde logo do projeto de pesquisa e investigação histórica fundamental sobre a música no tempo de Gil Vicente levado a cabo por Paulo Estudante, deu conta Francisco Oliveira.

ÁUDIO: FRANCISCO OLIVEIRA

A ação, enquadrada pelo projeto “Caminhos Literários, nasce da ligação de Gil Vicente ao Sardoal e visa ser um encontro bienal dedicado à obra do primeiro dramaturgo português. Este encontro constituiu-se como uma oportunidade para criadores teatrais, académicos, especialistas, mediadores e o público interessado se encontrarem e partilharem os seus trabalhos.

“Encontros Vicentinos do Sardoal – Gil Vicente, Outros Quinhentos”. Créditos: mediotejo.net

Tal como disse Miguel Borges na sessão de abertura Gil Vicente refere Sardoal em pelo menos três das suas obras: ‘Juiz da Beira’, ‘Auto da Barca do Inferno’ e a ‘Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela’.

“O que aqui temos durante estes três dias nos ‘Encontros Vicentinos do Sardoal – Gil Vicente, Outros Quinhentos’ é uma ideia antiga, que já tem alguns anos que resulta desta relação, da importância que Gil Vicente deu ao Sardoal”.

Para Miguel Borges “é nossa responsabilidade como decisores políticos com responsabilidades públicas, como bem sabeis no Sardoal assumimos muita essa responsabilidade no âmbito da Cultura porque para nós é tão importante o investimento na área da Cultura, das políticas públicas na área da Cultura, como a Saúde, a Educação, como o Desporto e outras mais”.

Acrescentou que esta aposta em Gil Vicente também tem “o seu quê de desenvolvimento económico, no desenvolvimento turístico, no desenvolvimento da nossa atividade” porque entende o autarca que “o turismo não se faz só com passadiços, com baloiços e com outras coisas mais”.

A iniciativa insere-se no projeto “Caminhos Literários”, que resulta de uma candidatura conjunta apresentada pelos Municípios de Abrantes, Constância e Sardoal ao Programa Operacional Regional do Centro 2014-2020. O projeto, que explora os territórios ligados a António Botto, Camões e Gil Vicente, pretende disponibilizar o usufruto da arte em locais públicos e de acesso livre e trará a estes territórios vários espetáculos de música, artes visuais e cinema documental, entre outros.

Nesse âmbito, o presidente da Câmara Municipal referiu que está a ser desenvolvido “um produto de atratividade” tendo aproveitado o momento para dizer que “gostaria de ver a plateia mais composta” mas que ainda assim “não contem connosco” para “atirar a toalha ao chão e fazer com que estas coisas que achamos que são importantes não aconteçam. Vamos continuar a fazer com que elas aconteçam! Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, garantiu.

ÁUDIO: MIGUEL BORGES
“Encontros Vicentinos do Sardoal – Gil Vicente, Outros Quinhentos”. Créditos: mediotejo.net

Durante os dias 4, 5 e 6 de novembro foi feita uma revisão dos últimos estudos sobre a obra de Gil Vicente e houve oportunidade para se analisarem as ramificações e a presença da obra vicentina no teatro contemporâneo. Esta ação de três dias integrou um conjunto diverso de atividades, incluindo debate, oficina, palestra e um concerto sobre a cultura musical ibérica no tempo de Gil Vicente.

Na primeira conferência do programa Paulo Estudante, da Universidade de Coimbra, explanou sobre ‘A cultura musical no tempo de Gil Vicente’ assumindo ser a do próprio, falando e apresentando peças musicais de um período em que a arte polifónica estava a consolidar-se, começando por peças compostas por Josquin Desprez a 24 vozes como por exemplo a ‘Qui Habitat’, tratando-se de um salmo, música litúrgica.

Referiu a influência da composição franco-flamenga, da importância da ligação da Península Ibérica à Flandres, das consequências musicais da religião luterana que deu origem à igreja anglicana. Uma das peças apresentadas foi ‘If ye love me’ de Thomas Tallis (1585).

Falou ainda noutro ponto fundamental dessa época: “o advento da produção musical”. No início do século XVI teve lugar a primeira impressão de polifonia musical e daí decorreu uma “enorme circulação musical”. Foi, segundo Paulo Estudante, “o momento de charneira de mudanças de mentalidades, o Humanismo2 num momento de “grande apogeu da Península Ibérica” muito graças ao Tratado de Tordesilhas que dividiu o Mundo entre Portugal e Espanha.

E revela os cancioneiros que estão em concordância com os textos de Gil Vicente.

“Encontros Vicentinos do Sardoal – Gil Vicente, Outros Quinhentos”. Créditos: mediotejo.net

Segundo o investigador Manuel Morais em ‘Música para o Teatro de Gil Vicente’ “este foi seguramente o imenso ‘mar de música’ ” na conferência abordado parcial e fugazmente “em que Gil Vicente se banhou quotidianamente”.

Ou seja, explicou Paulo Estudante, são muitos os testemunhos da presença musical na obra de Gil Vicente, transformando-a mesmo numa fonte primária para a História da Música Portuguesa e Ibérica. Nomeadamente nas referências ao instrumentário da época (viola de mão, guitarra, alaúde, flauta, gaita, charamela, corneta, trombeta, atabales, tambor, etc); na referência aos músicos da época; nas referências a danças da época (folia, chacota, mourisca, tordião, baixa, etc); nas referências explícitas à execução de peças musicais, muitas delas hoje identificadas entre os cancioneiros e outras fontes musicais que nos chegaram; e nas referências avulsas, às vezes apenas de um verso, às vezes traduzidas ou alteradas, de vilancetes ou romances da época.

Explicou, no âmbito do cancioneiro quinhentista, que “algum deste património, essencialmente ibérico, de vilancetes, cantigas ou romances chega-nos através de vários cancioneiros hoje conservados em Espanha com particular destaque para o Cancioneiro de Palacio (Biblioteca do Palácio Real, Madrid).

Chega-nos igualmente através de quatro cancioneiros quinhentistas portugueses: Cancioneiro da Biblioteca Nacional (copiado entre 1530-1570); Cancioneiro de Paris (copiado em meados do século XVI, Bibliothèque de l’École Supérieure de Beaus-Arts, Paris); Cancioneiro de Elvas (copiado entre 1560 e 1575, Biblioteca Pública de Elvas); Cancioneiro de Belém.

MÚSICA ‘NINHA ERA LA INFANTA” PRESENTE NA OBRA DE GIL VICENTE
“Encontros Vicentinos do Sardoal – Gil Vicente, Outros Quinhentos”. Créditos: mediotejo.net

No sábado a iniciativa contou com a presença de várias personalidades da área da cultura, como a atriz Maria do Céu Guerra ou o músico Chullage. Todas as iniciativas foram de participação gratuita.

“Encontros Vicentinos do Sardoal – Gil Vicente, Outros Quinhentos”. Créditos: mediotejo.net

PROGRAMA

Sábado 5
17h00
Debate: Os Contemporâneos de Gil Vicente
José Camões (Universidade de Lisboa) e José Alberto Ferreira (Universidade de Évora)
Moderação: Fernando M. Oliveira (TAGV – UC)
18h00
Mesa Redonda: Gil Vicente nosso contemporâneo.
A criação de espetáculos a partir da obra de Gil Vicente
António Durães – ator e professor de interpretação na ESEC
Maria do Céu Guerra – atriz
Chullage – rapper, músico
Moderação: Jorge Louraço Figueira

Domingo 6
18h00
Concerto: ŨA ENSELADA IBÉRICA. Conexões Poético-Musicais Peninsulares nos Sécs. XVI e XVII
Bando de Serunyo (Grupo de Música Antiga – Interpretação e investigação de música dos séculos XVI e XVIII).

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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