Há algum tempo atrás estive a falar com um jovem amigo meu, um músico, Natanael Teixeira, que agora vive e atua no Brasil. Começámos a falar de muitas coisas e, como de costume, de arte. De como podemos gostar da arte e, sobretudo, do que é a arte.
Conversa complicada mas agradável. Vimos que a arte teria de ser “comunicação”, seja na música como na arte visual. Esta comunicação deve ser neste sentido: o artista “sente” algo e quer escrever isso em notas ou em pinceladas, melhora, aperfeiçoa e fica feliz. Ao fim da “criação”, a obra está completa.
Agora o artista vai “expor” o que idealizou. Um concerto, uma exposição numa galeria são os momentos excelsos para comprovar se os sentimentos incluídos nas obras estão a ser assimilados ou entendidos pelos visitantes, o que “sentem” eles.
É aqui que a comunicação entra, é aqui o “contacto” com os outros seres que podem “sentir” os mesmos sentimentos.
Naturalmente, devido às diferenças que existem entre os humanos e os gostos que os identificam, há pessoas que gostam do jazz ou de Emanuel, do cubismo ou do surrealismo, que compram discos de Enzo Avitabile ou de André Rieu ou quadros de Almada Negreiros ou de João Miró.
Isto acontece porque são despertados sentimentos no nosso interior que se aproximam ao que vemos e ouvimos e é assim que nasce a comunicação na arte.
Não podemos dizer “isto é artístico”, ou não, de forma leviana. Podemos dizer sim que esta obra não se aproxima de mim, que não a sinto, que os meus sentidos não são despertados por estas notas ou cores e formas.
E aqui entrou por acaso o Kandisky. Falámos do seu livro de teoria artística “do espírito a arte” (se não me falha a memória), de como ele entendia as cores, as formas e de como as representava, e sabemos que ele foi um grande artista e um grande teórico e muita gente gosta do seu trabalho, compra, expôe e pesquisa, e respeito isto, mas eu não o “sinto”.
Acho que isto é compreensível, há pessoas que vão ouvir um concerto ou ver uma exposição e não gostam nada e na mesma altura há outros que ficam empolgados e apaixonados, esta é a realidade.
Mas eu estou a falar de artistas, de pessoas que sofrem, suam, empenham-se e que põem algo de próprio nas suas obras (propriedade intelectual), pessoas que acreditam no que fazem, os que são indubitavelmente ARTISTAS.
Não estou aqui a falar, naturalmente, dos muitos que copiam as ideias alheias (sem a perceberem), as regurgitam e depois as põem na moldura, as assinam e pensam ser “artistas” fazendo exposições frias e sem “sangue e calor”.
Só assim encontramos felicidade em atuar, sentimo-nos mais completos e satisfeitos e espero que estas minhas dissertações possam ajudar seja a quem é artista como a quem a observa e preza.
E talvez só assim estejamos no caminho certo.
