Os leitores apegados à Internet, caso queiram saber o significado de Entrudo: é arrastado para o conceito de Carnaval, após a explicação pormenorizada das celebrações Saturnais, das Bacantes e correlativas festanças em plena Antiguidade Clássica dedicadas a deusas e deuses. Bem estudadas as causas, verificamos quão o Homem apreciou os momentos de lazer onde avultam actividades frenéticas agora ditas licenciosas e bródios alimentares a fazerem esquecer tristes (leiam Três Tristes Tigres) de miséria encapotada de desempacotada conforme a comunidade, o clã ou a família.
Seria descoco aludir a o Entrudo ser considerado como a porta férrea aberta antes das gentes entrarem na Quaresma, assim era como provam os escritos dos místicos e menos dados à oração. No Entrudo passava tudo, literalmente tudo, obrigando os maridos cuidadosos a estarem atentos especialmente quando as consortes (às vezes sem sorte nenhuma) se mascaravam.
Os amigos de lerem as memórias de Casanova ou que viram o filme ‘Carnaval em Veneza’ sabem a índole da alusão, e consequentemente à peça musical ‘Carnaval de Veneza’, do genial Paganini. Peço desculpa, a crónica é sobre comeres entrudais.
No mundo circular de antigamente afagavam-se os estômagos no Domingo Gordo e no celebrado Entrudo, nós por todos bem desde que não faltasse carniça, muita carniça, especialmente provinda de animais nossos amigos, os porcos e as aves de criação. Das uvas vinho e aguardente levando os entusiastas a cambalear ou a caírem de borco. Sileno em variadas composições e representações, sem esquecer a ultrapassagem da barreira dos pecados-capitais que pelo Entrudo centro na Gula e Luxúria. Três dias de festança para a esmagadora maioria das Comunidades ancestrais caracterizadas pela penúria generalizada, a superstição e o medo da danação eterna. Os interessados ganham se lerem ‘O Problema da descrença no Século XVI’, do eminente historiador Lucien Febvre.
Por tudo isso havia que tirar a barriga de misérias consumindo-se coelhos, galos, leitões, porcos e sucedâneos a começar nos enchidos de massa e a acabar nos presuntos em verde, passando pelas farinheiras brancas e pretas que não eram consideradas como enchido de primeira. Nas lareiras os espetos compridos assavam carnes, peças de caça de pêlo e pena, concedendo suculência aos produtos acompanhantes na mesa dos possidentes, os menos abastados e pobres de pedia tinham de se contentar roendo ossos, rilhando carnes duras e secundárias, toucinho rançoso, gordura considerada pelas Mestras de poucos recursos e muito talento imaginativo. Era a festa do Entrudo. Uma cousa igualava ricos e pobres – a luxúria – quando menos se esperava a produzir efeitos passados nove meses.
Bom Entrudo!
