“Ler é essencial, para quem procura estar acima do vulgar.”
– Jim Rohn
Dizem-me alguns bons amigos para não escrever crónicas tão longas porque “assim, as pessoas não lêem”. Compreendo bem o conselho, ou não fosse eu professor de comunicação (não imune a erros, naturalmente, inclusive de comunicação). Mas, com excepção de uma ou outra crónica e para desilusão desses meus bons amigos, continuarei a escrever como escrevo, endossando aos destinatários da minha sofrível prosa a responsabilidade pela sua (não) leitura. Afinal, é uma liberdade que têm e eu jamais a questionaria, embora me alegre e motive saber que me resta alguma audiência.
Não se trata de um qualquer “autismo escrevedor”. Além de um estilo pessoal, trata-se sobretudo da vontade de partilhar conhecimentos e não apenas meritórias opiniões, reflexões ou estados de alma. Por alguma razão sou professor, naquilo que o determinou e, consequentemente, bem ou mal me moldou. “As pessoas não lêem porque as tuas crónicas são longas”, insistem, sem todavia criticarem o seu conteúdo. Terão elas palha, floreados ou vangloriosos rodriguinhos? Não me parece. Algumas palavras “caras” ou menos comuns, talvez, mas não terão elas justificação no contexto, desde que não abuse?

Ainda sou do tempo em que o dicionário era a bíblia literária de sequiosos autodidactas, objecto de leitura obrigatória e prazerosa a cada deitar. Assim eram aprendidas muitas palavras e novos significados, não necessariamente para exibir frívola cagança, mas para saciar estimulante curiosidade, vontade de aprender e gosto em inovar. Não sou escritor nem pretendo sê-lo, tendo até de mim a ideia de que escrevo de forma (por vezes demasiado) sintética. Daí a falta de vocação para a escrita criativa, embora me esforce por tornar os textos minimamente interessantes de ler.
Estivesse eu a escrever para um reclame comercial e a abordagem seria diferente. A “Peixaria do Manel”, por exemplo, poderia ter como slogan “Aqui vende-se peixe fresco”. Mas, para quê o “Aqui” se o estabelecimento não é noutro sítio? E, qual a justificação do “vende-se” se o negócio tem fins lucrativos? Ademais, o que venderia necessariamente uma Peixaria senão “peixe”? E bom, quanto ao “fresco” seria preciso que não fosse congelado nem exalasse molesto fedor. Logo, o slogan seria redundante e desnecessário, pese embora o facto de o pleonasmo até poder ter excepcional utilidade (neste caso, para o Manel “vender o seu peixe”).

Imagem: Anúncio da marca de calçado Friedman-Shelby (1954)
Defendida a minha visão do verbo e do conhecimento, só posso lamentar que as pessoas não leiam. Diz-se que lêem cada vez menos e mal, privando-se do contributo essencial da leitura para a estruturação neuronal que viabiliza a inteligência. Afirma-se que preferem ouvir e ver sem esforço, privilegiando a televisão e o scrolling nos visores dos dispositivos pessoais. “Boa sorte!”, diria o cínico, eu digo que é uma pena e que devia fazer toda a gente reflectir e dar meia-volta literária. Não tarda, estão a dizer-me “Não escrevas, fala, as pessoas não lêem!”. E fico a pensar se, pelo andar da carruagem, não acabaremos todos um dia a roncar e gesticular…
E depois há os outros, os que temem o verbo alheio, os que temem que se diga qualquer coisa, seja lá o que for. Porque eles são os ‘intelectuais’ e ‘especialistas’, donos do saber e da verdade. O saber olímpico de uma certa academia, elitista e situacionista. E a verdade dogmática da autoridade dominante, anestesiante e infantilizante. Pois eu defendo o verbo, seja lá de quem for e sobre o que for, sabendo que o silêncio imposto não substitui a pedagogia, dificulta a aprendizagem e definha o indivíduo, em todas as suas dimensões. Porque o verbo é – já Nietzsche o afirmava – poderoso e redentor: “Tudo o que eu preciso é de uma folha de papel e de algo com que escrever. Com isso, viro o mundo ao contrário”.
*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.


Texto muito presunçoso. É pena, pela mensagem que se propõe.
Cara Paula Henriques, intimista talvez, presunçoso não creio. Mas não posso ser juiz em causa própria, pelo que me limito a respeitar a sua opinião. Obrigado por comentar.