A vila de Ferrel, no concelho de Peniche, comemorou por estes dias os seus 43 anos de luta conta a instalação de uma central nuclear. Nesse momento, o povo saiu para a rua e conseguiu evitar a central, que Fausto definiria, na sua Rosalinda, como “Mortal”. E foi – em boa hora – evitada. Hoje já não restam quaisquer dúvidas que a energia nuclear é algo que a evolução e a História já abandonaram como paradigma de futuro.
Foi por isso um enorme privilégio ter sido convidado a participar no domingo, 17 de março, como interveniente num dos painéis inseridos no seminário internacional sobre Energia e Ambiente que se realizou para evocar esta data, em plena vila de Ferrel onde realizei uma intervenção na defesa da sustentabilidade e da transição energética. O exemplo da luta do povo de Ferrel contra o nuclear é inspirador para todos nós. De notar que uma eventual construção de uma central naquele território iria acarretar múltiplas consequências para a nossa região e também para o país, uma vez que um eventual risco de acidente nuclear continuar a gerar preocupações, ou não estivesse a central nuclear de Almaraz em Espanha, a cerca de 100 km da fronteira, junto ao Tejo. Também esta central já se encontra obsoleta e devia ter encerrado no ano de 2010.
Os recentes acidentes nucleares demonstram as fragilidades desta tecnologia que, obviamente, muitos ainda tentam colocar e vender como a solução de todos os males. Economicamente hoje nem o preço é apelativo porque a energia renovável baixou o preço.
Um dos maiores problemas da energia nuclear é mesmo esse: não é fácil o encerramento de centrais nucleares, já para não mencionar a questão dos resíduos. Uma nota para referir que, tecnicamente, na questão do despacho elétrico, a energia nuclear por ser uma constante acaba por não fazer muito sentido. E Portugal deve ser olhado como exemplo, afinal de contas somos o terceiro país da Europa em energia renováveis, com mais de 50% na eletricidade. Um exemplo aplaudido e, desse modo, reconhecido internacionalmente.
É verdade que no contexto da integração do MIBEL – Mercado Ibérico de Eletricidade, continuamos a consumir, em média, entre 1 e 2% de energia de fonte nuclear, mas isso torna-se totalmente irrelevante quando as fontes renováveis se situam atualmente nos 54%. As interligações existentes com Espanha – mas também as que estão a ser preparadas com França – permitem isso mesmo.
Os objetivos de neutralidade carbónica em 2050 e o cumprimento das metas do Acordo de Paris obrigam a uma centralidade das políticas públicas nesta matéria. Os preços da energia para os consumidores continuam a ser um paradigma muito relevante. Mas hoje, como há 43 anos atrás, em Ferrel o nuclear continua a não ser – e bem – opção para Portugal.

