Em novembro de 2003, já lá vão 20 anos, a notícia do falecimento de Eduardo Campos espalhou na região, em particular no concelho de Abrantes, enorme consternação. O funeral foi um dos mais concorridos a que alguma vez assisti na cidade, o que é sintomático relativamente ao reconhecimento que a comunidade abrantina por ele nutria (e nutre).
Seis meses após as I Jornadas de História Local e a publicação do número inaugural da Zahara, atividades iniciais do CEHLA – Centro de Estudos de História Local, partia Eduardo Campos um dos principais impulsionadores e fundador do projeto. Recordo ainda, nessa génese do CEHLA, o entusiasmo de Eduardo Campos nas reuniões que fizemos no Edifício Carneiro ou na conferência da imprensa que promovemos na saudosa livraria Contracapa.
E lembro também como Eduardo Campos, a dar-nos o exemplo, nos guiou, no primeiro Passeio com História, pelo Centro Histórico de Abrantes. Há segredos e histórias que aprendi naquela manhã que me ocorrem sempre que passo em determinados locais. Só se ama aquilo que se conhece.
Em novembro de 2003, numa fase adiantada da doença que o acometia, Eduardo Campos deu tudo por tudo para me fazer chegar o artigo sobre o Orfeão de Abrantes, que então cumpria 75 anos.

Nas I Jornadas de História Local, por sugestão de Eduardo Campos, a intervenção de fundo foi de responsáveis do Programa de Apoio da Rede de Arquivos Municipais (PARAM).
Trabalhava com um objetivo, o de garantir um futuro digno para o “seu” Arquivo Histórico, onde era guardião de um acervo documental que ajudou a salvar e que organizou de forma competente. Reconhecidos arquivistas e historiadores reconheceram-lhe esse mérito.
Pouco depois, a Câmara Municipal de Abrantes entendeu-se com o PARAM e a opção foi a construção do Arquivo Municipal, cujo patrono viria a ser Eduardo Campos, na Zona Industrial, a vários quilómetros do centro histórico.
Reagi, nessa altura, face a esta decisão política de juntar o Arquivo Histórico com o Arquivo Intermédio e de o novo edifício nascer num espaço tão pouco digno e tão distante do coração da cidade. Acenaram-nos, numa sessão de debate público, com a ideia de que, a curto prazo, todo o acervo seria digitalizado e que quem desejasse aceder aos documentos poderia fazê-lo, via internet, a partir de sua casa. Já passaram duas décadas, que percentagem da documentação histórica do Arquivo Municipal Eduardo Campos está acessível online?
A localização do Arquivo Municipal foi uma má decisão política no que concerne à divulgação e estudo da história e do património de Abrantes e não dignificou a memória de Eduardo Campos e daquela que foi a sua ação. Jamais conheceremos o quanto perdemos com tal decisão.

Depois de ter organizado e catalogado um vasto acervo documental, determinante para a investigação do passado de Abrantes, Eduardo Campos desenvolveu um trabalho de produção historiográfica sem paralelo, de elevada qualidade, em que abordou múltiplos temas que cobrem um vasto período, desde a Idade Média ao século XX.
Entre outras publicações, destacam-se: Imprensa periódica de Abrantes: tentame de catálogo, 1993; Cronologia de Abrantes no século XX, 2000; Cronologia de Abrantes no século XIX, 2005, que tive o privilégio de apresentar; Notas históricas sobre a fundação de Abrantes, 3.ª edição revista e aumentada, 1995; Solano de Abreu: vida e obra, 2002; Toponímia abrantina, 2.ª edição revista e aumentada, 1989; Abrantes 1916: processo de elevação a cidade, 1992 (em coautoria).
Uma parte significativa destes estudos são obras de referência que, para além de constituírem uma importante fonte de informação para o público em geral, são ferramentas incontornáveis para quem investiga a história da região de Abrantes.
Nos últimos meses de vida de Eduardo Campos, houve quem propusesse a homenagem de Eduardo Campos por parte dos órgãos políticos locais, nomeadamente pela Assembleia Municipal. Não se criaram condições para que tal acontecesse. Vinte anos volvidos, estarão os políticos abrantinos disponíveis para homenagear condignamente Eduardo Campos? Fica o desafio.

