Há casos em que não há meios-termos, e este é um deles: uma única vacina “desviada” chegaria para me revolver as entranhas. Todos os casos que sejam devidamente comprovados têm de ser sancionados pelas autoridades competentes e devem merecer o nosso repúdio moral. Posto isto, não podemos cair no excesso de apontar o dedo indiscriminadamente e de fazer julgamentos sumários em público com base em boatos e no diz-que-disse.
A comunicação social tem nestes momentos uma responsabilidade acrescida – o que distingue uma notícia de um qualquer texto publicado numa rede social é o facto de os jornalistas estarem obrigados à confirmação das informações com diversas fontes, devendo também tentar, por todos os meios, ouvir os visados pelas notícias.
Além disso, é preciso dar contexto à informação e, não raras vezes, interpretá-la e descodificá-la, tornando assuntos complexos mais claros para o público. Nos casos em que fazemos o nosso trabalho mesmo bem, conseguimos até que os temas mais cinzentos (e que interessariam a poucos) cheguem ao grande público. Como nos ensinaram os velhos mestres da imprensa americana, é essa uma das principais missões do jornalismo: “tornar interessantes assuntos relevantes”.
No mediotejo.net recebemos muitas denúncias de leitores. É um sinal de confiança no nosso trabalho, e que agradecemos. Mas tal como temos a obrigação de manter o sigilo das fontes que nos enviam informações, essas mesmas “informações” nas mãos de um jornalista não podem ser mais do que pistas para seguir um caminho. O nosso trabalho é avaliar se valerá a pena o investimento (de tempo e de meios) para desbravar esse caminho e ver onde ele vai dar. Por vezes há notícia; noutras é só mesmo um beco sem saída.
Aos jornalistas cabe também a missão de procurar outros pontos de vista, olhar para os assuntos de outra perspectiva e questionar o que está em causa. Neste momento, é nosso dever averiguar e noticiar os abusos que possam ter acontecido no processo de vacinação para a covid-19 em diversas instituições, mas sem perder de vista o todo. E no todo há gente canalha, é certo, sempre houve. Mas há muito mais gente a fazer o que está certo – e a fazer até muito mais do que lhes compete, tantas vezes sem meios e com um esforço pessoal imenso, numa luta contra o tempo. Saibamos também agradecer-lhes, não misturando alhos com bugalhos.
