Os dados revelados esta semana pelo INE na sua Síntese Mensal de Conjuntura apresentam-se claramente negativos com respeito à evolução do investimento na economia portuguesa.
O Indicador mensal de Formação Bruta de Capital Fixo do INE (a azul no gráfico em baixo), cujos valores são uma indicação razoavelmente segura do investimento em capital fixo, em contas nacionais (a laranja), caiu para 0,5% (variação homóloga) no último trimestre do ano, depois de ter marcado 12,4%, 8,4% e 6,0%, respetivamente no 1.º, 2.º e 3.º trimestres, respetivamente. É assustador.
As variações homologas trimestrais do investimento em capital fixo (contas nacionais) foram de 11,3%, 8,2% e 5,8% no 1.º, 2.º e 3.º trimestres respetivamente, valores muito próximos dos do indicador mensal. Uma desaceleração tão acentuada na variação homóloga do investimento fixo correspondeu a uma contração em cadeia no 2.º e 3.º trimestres (valores das colunas a cinzento), devendo a contração ter-se acentuado muito no 4.º trimestre do ano.
Assim, a economia terá terminado o ano de 2019 com o investimento em capital fixo em queda por 3 trimestres sucessivos. Em termos agregados, o investimento em capital fixo aumentou apenas nos 3 primeiros meses do ano passado, tendo desde então começado a cair – até ao final do ano, pelo menos. Um tão mau desempenho do investimento nos últimos 9 meses de 2019 compromete seriamente a possibilidade de se atingir a projeção contida no cenário macroeconómico do OE 2020, de um crescimento anual de 5,4%.
Inesperadamente, a projeção da OCDE, de um crescimento anual do investimento fixo de 1,2% em 2020, que inicialmente parecia demasiado desalinhada com as demais (BdP, CE, FMI) para ser plausível, passou a ser a mais provável.
Como o INE referiu (14 de fevereiro) na sua nota sobre a estimativa rápida de crescimento no 4.º trimestre (que deverá ser agora atualizada em 28 de fevereiro), o crescimento em cadeia nos últimos 3 meses do ano ficou a dever-se integralmente ao contributo da procura externa líquida (exportações menos importações), pois a procura interna deu um contributo negativo.
O que os dados hoje divulgados vêm esclarecer, é que a queda da procura interna se deveu exclusivamente à componente de investimento, devendo o consumo ter mantido uma dinâmica positiva.
Infelizmente, parece começar a ser difícil manter a ideia – muito positiva – de que o crescimento económico português tem assentado numa dinâmica muito favorável do investimento: é o contrário. O motor do investimento parece ter gripado, tendo sobrado o impulso do consumo e das exportações. É da maior importância acompanhar a evolução do investimento nos próximos meses, pois parece ter-se instalado uma dinâmica preocupante.
E, todavia, seria crucial que o investimento acelerasse, para que a produtividade possa descolar, ultrapassando o marasmo dos últimos anos.
Seria interessante ouvir o que o Ministro da Economia tem a dizer sobre o panorama sombrio do investimento. O que está a penalizar a dinâmica do investimento em Portugal?


