PSP encerrou lar de idosos ilegal em Abrantes. (imagem ilustrativa). Foto. Pixabay

Foi notícia há poucos dias o encerramento forçado de um “lar ilegal” no concelho de Torres Novas. Não é caso único, bem pelo contrário, uma rápida consulta aos jornais nacionais e verificamos como a situação se repete um pouco por todo o lado, sendo que em muitas das situações os proprietários são reincidentes.

Fecham aqui e abrem mais à frente. Enquanto a fiscalização vai e vem vão amealhando as mensalidades dos e das utentes. Quando aprofundamos o assunto percebemos que não se trata de uma questão administrativa, de um ou dois utentes a mais, ou mesmo da ausência de algum equipamento adequado.

Trata-se, em muitos casos, de maus-tratos a quem lá vive. Maus-tratos, violência física e psicológica, outras vezes económica e mesmo casos de tortura.

Não vou aqui recordar os casos mais escandalosos a que assistimos, como seres humanos cobertos de formigas ou mesmo os cadáveres abandonados durante vários dias, que geraram grande indignação e esperamos que estes crimes sejam punidos.

Tenho a convicção de que vivemos um momento de urgência em relação a esta matéria, começando desde logo por conhecer a sua real dimensão. A indignação de que falava atrás, sem dúvida genuína, dilui-se passados alguns dias, a vida continua… e pensando que as coisas podem mudar seremos mais à frente confrontados com outro caso… e assim sucessivamente.

É precisamente o momento de mudança que urge provocar. A indignação tem de dar lugar à mobilização cidadã que obrigue a uma mudança radical no apoio e tratamento das pessoas mais velhas. A velhice, a terceira idade, a idade maior, o nome pouco importa, é um período da nossa vida que precisa de respostas múltiplas.

Fomos mulheres e homens, cada um com a sua personalidade, o seu percurso de vida, as suas experiências, os seus gostos e preferências e, quando chegamos à velhice, continuamos a sê-lo e é assim que devemos ser tratados, no respeito pela nossa diversidade. Por sermos velhos e velhas não passamos a uma condição em que a nossa individualidade se apaga.

Quando a autonomia se perde, quando precisamos de cuidados de terceiros para quase tudo, é nesse momento que se avalia a dignidade com que a sociedade trata os seus cidadãos e cidadãs. Como noutras situações, também aqui as desigualdades se evidenciam.

Com dinheiro, muito dinheiro, os serviços aparecem. Quem não tem meios financeiros vive à espera que os dias passem, em sofrimento e, vezes de mais, em silêncio.

Defendo que o CUIDADO e todas as tarefas a ele ligadas (seja com crianças, idosos, pessoas doentes ou com deficiência) é uma obrigação da sociedade e não apenas das famílias e dentro das famílias não é obrigação exclusiva das mulheres.

Já sabemos que a população envelhece e necessita de mais cuidados. Falta começar a construir as respostas, seguir e generalizar os bons exemplos (e há vários). Falta, em minha opinião, assumir esta tarefa nacional, disponibilizar recursos, juntar quem está no terreno, agregar vontades, fazer dos idosos e idosas uma prioridade.

O cuidado com os outros e outras, o ato de cuidar tem um enorme significado para a coesão social de que tanto se fala. É valorizado? Não julgo que seja. Nem quem cuida como profissão, nem quem cuida como familiar. Veja-se o que ainda continua por fazer em relação ao Estatuto dos Cuidadores Informais….

Defendo que deve ser criado um Serviço Nacional de Cuidados que organize, dinamize e valorize este trabalho fundamental.

Indignação de vez em quando, discursos de ocasião e mesmo 100 ou 200 euros “para ajudar os mais necessitados” uma vez por ano não resolvem.

Helena Pinto vive na Meia Via, no concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação Feministas em Movimento. Escreve quinzenalmente no mediotejo.net

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