Foi notícia há poucos dias o encerramento forçado de um “lar ilegal” no concelho de Torres Novas. Não é caso único, bem pelo contrário, uma rápida consulta aos jornais nacionais e verificamos como a situação se repete um pouco por todo o lado, sendo que em muitas das situações os proprietários são reincidentes.
Fecham aqui e abrem mais à frente. Enquanto a fiscalização vai e vem vão amealhando as mensalidades dos e das utentes. Quando aprofundamos o assunto percebemos que não se trata de uma questão administrativa, de um ou dois utentes a mais, ou mesmo da ausência de algum equipamento adequado.
Trata-se, em muitos casos, de maus-tratos a quem lá vive. Maus-tratos, violência física e psicológica, outras vezes económica e mesmo casos de tortura.
Não vou aqui recordar os casos mais escandalosos a que assistimos, como seres humanos cobertos de formigas ou mesmo os cadáveres abandonados durante vários dias, que geraram grande indignação e esperamos que estes crimes sejam punidos.
Tenho a convicção de que vivemos um momento de urgência em relação a esta matéria, começando desde logo por conhecer a sua real dimensão. A indignação de que falava atrás, sem dúvida genuína, dilui-se passados alguns dias, a vida continua… e pensando que as coisas podem mudar seremos mais à frente confrontados com outro caso… e assim sucessivamente.
É precisamente o momento de mudança que urge provocar. A indignação tem de dar lugar à mobilização cidadã que obrigue a uma mudança radical no apoio e tratamento das pessoas mais velhas. A velhice, a terceira idade, a idade maior, o nome pouco importa, é um período da nossa vida que precisa de respostas múltiplas.
Fomos mulheres e homens, cada um com a sua personalidade, o seu percurso de vida, as suas experiências, os seus gostos e preferências e, quando chegamos à velhice, continuamos a sê-lo e é assim que devemos ser tratados, no respeito pela nossa diversidade. Por sermos velhos e velhas não passamos a uma condição em que a nossa individualidade se apaga.
Quando a autonomia se perde, quando precisamos de cuidados de terceiros para quase tudo, é nesse momento que se avalia a dignidade com que a sociedade trata os seus cidadãos e cidadãs. Como noutras situações, também aqui as desigualdades se evidenciam.
Com dinheiro, muito dinheiro, os serviços aparecem. Quem não tem meios financeiros vive à espera que os dias passem, em sofrimento e, vezes de mais, em silêncio.
Defendo que o CUIDADO e todas as tarefas a ele ligadas (seja com crianças, idosos, pessoas doentes ou com deficiência) é uma obrigação da sociedade e não apenas das famílias e dentro das famílias não é obrigação exclusiva das mulheres.
Já sabemos que a população envelhece e necessita de mais cuidados. Falta começar a construir as respostas, seguir e generalizar os bons exemplos (e há vários). Falta, em minha opinião, assumir esta tarefa nacional, disponibilizar recursos, juntar quem está no terreno, agregar vontades, fazer dos idosos e idosas uma prioridade.
O cuidado com os outros e outras, o ato de cuidar tem um enorme significado para a coesão social de que tanto se fala. É valorizado? Não julgo que seja. Nem quem cuida como profissão, nem quem cuida como familiar. Veja-se o que ainda continua por fazer em relação ao Estatuto dos Cuidadores Informais….
Defendo que deve ser criado um Serviço Nacional de Cuidados que organize, dinamize e valorize este trabalho fundamental.
Indignação de vez em quando, discursos de ocasião e mesmo 100 ou 200 euros “para ajudar os mais necessitados” uma vez por ano não resolvem.
