Por razões partilhadas com tantos outros acontece-me ir à consulta externa do Hospital duas vezes por ano. Acontece-me também ir ao Serviço de Sangue 4 vezes por ano.
Pergunto-me como é que os serviços respetivos organizam a respectiva estatística.
Provavelmente dir-me-ão:
– Consulta externa: 1 utente, 2 consultas.
– Serviço de sangue: 1 doador, 4 doações.
Está certo? Direi que sim. Hmmm … Não!
Vem isto a propósito de quê?
Numa das nossas instâncias uma organização apresentou um relatório relativo à gestão de um projecto. E lá dizia: x pessoas atendidas, y atendimentos. O y era maior que o x. Vai daí um membro da referida instância lança a objecção e a certeza: está errado, tem de ser o mesmo! Pessoas atendidas e atendimentos é o mesmo! Perante a objecção e a crítica a apresentadora do relatório e responsável pelo projecto tenta explicar. Não, está errado, tem de ser o mesmo!
Nada de dúvidas. Explicações para quê? Olhar para a questão, contar até 10, pensar um bocadinho, estudar a coisa, talvez ouvir? Para quê se a certeza já ali estava, límpida, segura, certa? Era evidente que o número de pessoas atendidas e o número de atendimentos “tinha que ser o mesmo”! Nem era bem a questão de “ser” Era que “tinha” que ser. E pronto.
Claro: a responsável pelo projecto e apresentadora do relatório estava correta. O crítico estava errado. Mas que importa?
E vem isto a propósito de quê?
A propósito daquilo a que o povo chama “emprenhar pelos ouvidos”. “Emprenhar pelos olhos” também dá e é o mesmo. Dizer, afirmar, atirar conjecturas como certezas. Afirmar a ignorância como saber e saber certo. Porquê? Porque sim, ouvi na tv, vinha no jornal, li no facebook, ouvi no café, acho que é e pronto.
Pensar, reflectir, estudar, investigar, procurar informação, elaborar um saber e conhecimento sobe a questão? Não. É chato, dá trabalho, perde-se tempo. A gente acha e diz, pronto. E sobretudo: para quê se eu já sei?
Dizem muitos sociólogos e cientistas sociais que vivemos no tempo do “imediato”, do “instantâneo”, do império da opinião flutuante, volátil, ao sabor dos estados de alma e do que se ouve aqui e ali, fugaz, do que rapidamente passa pelos olhos no muro do facebook sem tempo nem disposição nem vontade de fazer uma observação atenta, seleccionar informação, verificar a sua credibilidade, e sobretudo pensar e reflectir como se costuma dizer “pela nossa própria cabeça”.
É a época do “hiperconsumo”, também de “notícias”, fotos… Ah, as fotos, a exposição permanente sem a qual já se começa a sentir que … nem se existe: Hiperconsumimos opinião e “achamentos” à velocidade dos écrans. O povo terá razão: já não se fazem filhos e as gravidezes escasseiam, mas “emprenhamos “pelos ouvidos e pelos olhos à velocidade do som e da luz.
Tive quando liceal um professor de filosofia “sui generis”. Ensinou-nos uma coisa difícil. E constato: das mais difíceis. Dizia ele: “Quando não sabes pergunta a quem sabe”!
Só precisamos de admitir que não sabemos. Difícil …
