A celebração de 21º aniversário do Centro Social Paroquial de Além da Ribeira assume este ano um cariz de solidariedade e reconstrução. Sob o mote “Vamos Re(erguer) o Centro Social”, a instituição organiza este domingo, 12 de abril, um evento comemorativo cujas receitas revertem para a reparação dos danos causados pela recente tempestade Kristin.
O programa tem início às 13h00, no Centro de Convívio da Paróquia de Além da Ribeira, com um almoço tradicional que inclui sopa Juliana, ensopado de borrego (com alternativa de ensopado de porco) e pudim de ovos ou salada de fruta. A tarde será animada pelo músico Luis Filipe Gaspar, que entra em palco às 15h30, coincidindo com a abertura do serviço de bar para um momento de convívio musical.
As reservas para o almoço podem ser feitas através do número 966 024 539, com o valor de 18 euros para adultos e 10 euros para crianças (dos 6 aos 12 anos). Para quem não puder estar presente mas deseje contribuir para a causa, a organização disponibilizou também um IBAN para donativos diretos, reforçando o apelo à união da comunidade de Tomar neste processo de recuperação do edifício.
Centro de Dia de Além da Ribeira tenta recueprar de prejuízos na ordem dos 300 mil euros
Dois meses após a tempestade Kristin, o Centro de Dia de Além da Ribeira, em Tomar, devolveu alguma rotina e tranquilidade aos utentes, mas o edifício permanece danificado, com telhados, painéis solares e anexos ainda por reparar, revelando a dimensão da destruição.
“Quando conseguimos chegar ao centro, na manhã seguinte à tempestade, encontrámo-lo completamente destruído, sem condições mínimas para receber os utentes”, recorda o padre Tiago Alberto, presidente do Centro Social Paroquial de Além da Ribeira, “tendo lembrado que a prioridade imediata era perceber como cada utente se encontrava, garantimos apoio básico ao mesmo tempo que tentávamos conter os danos no edifício e minimizar riscos adicionais”.
“De facto, o primeiro momento foi sempre de choque, mas também de um primeiro auxílio às pessoas. A nossa primeira preocupação foi verificar como é que cada utente se encontrava e só depois olhar para o edifício e para os danos materiais”, acrescentou.

Numa localidade marcada pela ruralidade, rodeada de verde e floresta, a pouco mais de 15 minutos do rebuliço citadino de Tomar, são ainda visíveis os sinais da tempestade – postes tombados, árvores partidas e restos de destroços – que testemunham a violência do fenómeno.





No interior do centro de dia, no alto da aldeia, cerca de 20 utentes ocupavam o salão de estar, com a luminosidade do dia e os rostos alegres a contrastarem com os remendos e infiltrações visíveis nas paredes e tetos. Algumas utentes tricotavam, outros conversavam ou observavam a televisão, enquanto uma ampla mesa anunciava jogos de tabuleiro e passatempos.
Ao fundo, a cozinha mantinha o ritmo do dia, com funcionárias preparando o almoço – favas com entrecosto – e observando os utentes através de uma ampla janela aberta para o salão.




O padre Alberto recorda à Lusa a noite da tempestade, vivida com inquietação nas três paróquias onde exerce funções: “Foi uma noite muito inquieta, com o vento muito intenso. Íamos notando como tudo se começava a desmoronar. Quando o vento abrandou, saímos para a rua para perceber se estava tudo bem com os vizinhos. Não sabíamos em que estado estavam as casas”.
“Foi uma imagem que não retiro da cabeça. Encontrámo-nos dois ou três vizinhos e fomos ver se alguém precisava de ajuda imediata. Havia muita preocupação, porque não sabíamos se alguma casa poderia ter ruído”, acrescentou.

ÁUDIO | PADRE ALBERTO ALBERTO, CENTRO SOCIAL DE ALÉM DA RIBEIRA:
Na manhã seguinte, o acesso ao centro foi dificultado por estradas bloqueadas por árvores e postes tombados. “Demorei a chegar ao centro, só por volta das 10 da manhã, devido à impossibilidade de passar nas estradas. E pelo caminho encontrava pessoas a partilhar a angústia pelos danos nas suas casas. Era um cenário desolador, com muita gente a chorar e a pedir uma palavra de ânimo”, relatou.
O edifício do centro não escapou à destruição: “O vento entrou no edifício, levantou o teto falso, danificou portas, chaminés e anexos. Os painéis solares caíram e danificaram viaturas. De uma forma geral, tanto o edifício como o equipamento ficaram bastante afetados”, descreveu.
Apesar dos danos, o apoio nunca foi interrompido. “Mesmo com o centro encerrado durante alguns dias, o apoio domiciliário nunca parou. Conseguimos levar alimentos aos utentes e garantir que ninguém ficava sem o essencial”, sublinhou, explicando que a reabertura aconteceu após quatro a cinco dias, com condições mínimas de segurança.




O edifício sofreu danos significativos: telhados parcialmente destruídos, painéis solares partidos, anexos sem cobertura, infiltrações múltiplas e tetos falsos levantados pelo vento. O impacto financeiro está estimado entre 250 a 300 mil euros, valor que inclui reparações urgentes e reposição de equipamentos essenciais.
“Estamos com paliativos. O centro está a funcionar, mas de forma provisória. Todos os dias aparecem novos problemas, o que faz aumentar o valor dos prejuízos”, alertou o padre.
O apoio financeiro “tarda”, quer de seguros quer do Estado, atrasando a recuperação total do centro. “Sentimos, num primeiro momento, alguma solidão, fruto da incomunicação e da pouca ajuda que chegava. E agora sentimos que os processos não são céleres. Fizemos todas as candidaturas, mas ainda não há resposta efetiva”, disse.

Presente no local, o presidente da União de Freguesias de Além da Ribeira, também vice-presidente da instituição, destacou o impacto na comunidade: “O centro de dia está prestes a assinalar 21 anos e foi uma das instituições mais afetadas. É fundamental para uma população muito envelhecida e a sua recuperação é essencial para manter o apoio aos idosos”, alertou Jorge Graça.
Segundo o autarca, a freguesia foi das mais atingidas do concelho: “Temos mais de 250 habitações afetadas, algumas famílias desalojadas, e prejuízos que ultrapassam os 3 milhões de euros. Foi um impacto enorme em habitações, comércio e serviços”.

ÁUDIO | JORGE GRAÇA, PRESIDENTE UF ALÉM DA RIBEIRA E PEDREIRA:
Sobre os apoios, deixou um alerta: “Ainda não temos conhecimento de que alguém tenha recebido apoios do Estado. As pessoas estão a recuperar com os seus próprios meios, com poupanças e ajuda da comunidade. A recuperação está a ser lenta a todos os níveis”.
Apesar das dificuldades, o padre Alberto destaca a resposta da comunidade e o papel da esperança: “A fé não nos dá dinheiro nem acelera a reparação, mas dá-nos esperança. Foi essa esperança que nos colocou em movimento e nos permitiu continuar”.
“Este centro é casa para muitos dos nossos utentes. Quando perderam este espaço, sentiram-se à deriva. O nosso esforço foi garantir que continuavam a ter um porto de abrigo, mesmo em condições difíceis”, afirmou.
No final, deixa um apelo: “Precisamos que os apoios cheguem com rapidez. Estes centros são essenciais para a dignidade das pessoas. Quem puder ajudar estará a contribuir para manter vivo este espaço, que é um verdadeiro jardim de ternura para os nossos idosos”.

Pelo menos 19 pessoas morreram em Portugal desde 28 de janeiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que fizeram também várias centenas de feridos, desalojados e deslocados. Mais de metade das mortes foram registadas em trabalhos de recuperação.
Os temporais, que atingiram o território continental durante cerca de três semanas, provocaram a destruição total ou parcial de milhares de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias, com prejuízos de milhares de milhões de euros.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo foram as mais afetadas.
c/LUSA
